Capítulo 3

1045 Words
Naquela manhã nublada, por volta de meio-dia, Hannah acordou. Ela se levantou e ficou um tempo sentada no colchão enquanto ouvia os barulhos do restaurante acima da sua cabeça. Hannah sentia o peso da realidade a cada manhã. Os dias começavam sempre com a mesma rotina: contar as moedas que restavam das latinhas, as quais juntava com um esforço descomunal, e calcular se conseguia comprar algo além do que sua amiga lhe fornecia, mas logo chegava a conclusão que não. Aos 19 anos, já havia aprendido que a vida não era generosa para quem não tinha um sobrenome de peso ou um diploma para se apoiar. O pequeno quarto nos fundos do restaurante era sua única segurança, sem família por perto, nem um trabalho fixo, e com as contas se acumulando, Hannah sabia que estava no limite. Cada vez que olhava para o teto mofado e pútrido, tentava ignorar o aperto no peito e a incerteza sobre o futuro. Ela já havia procurado emprego, mas as portas pareciam sempre se fechar para ela, antes mesmo de terem sido abertas. A aparência cansada, as roupas simples e o olhar desconfiado das pessoas denunciavam algo que ela já sabia: para muitos, ela não era uma boa candidata. Mas como provar que era capaz, se nem ao menos lhe davam uma chance? No entanto, desistir nunca foi uma opção. Havia um limite para a fome, para o desespero. E antes que chegasse a esse ponto, ela precisava encontrar um caminho. A oferta do programa de barriga de aluguel surgiu como um sussurro de esperança no meio do caos. Não era o sonho dela, mas poderia ser o começo de algo novo. A ideia de ser barriga de aluguel nunca tinha passado pela mente de Hannah, mas ao entrar num café, no qual tinha entrado para deixar um currículo ver um anúncio no mural: “Ajude famílias a realizarem seu sonho. Seja uma doadora de vida.” As palavras eram bonitas, mas foi o valor da compensação financeira que chamou sua atenção, principalmente a moradia fixa e estável durante toda a gravidez, o que possibilitaria que Hannah se vestisse bem e conseguisse um emprego para se manter depois. Nos dias seguintes, ela pesquisou tudo o que pôde sobre o programa e conheceu Suzana. As regras eram claras, os exames rigorosos, e o compromisso não era algo que se assumia levianamente, mas Hannah não se importava com isso. O que pesava era a quantia que poderia receber ao final do processo, dinheiro suficiente para sair da sua situação precária, talvez até começar uma vida nova. Foi por isso que, sem pensar muito, preencheu o formulário e enviou seus dados. O processo foi mais longo do que esperava. Consultas, avaliações médicas, testes psicológicos. Em cada etapa, se perguntava se realmente queria aquilo. Mas a resposta sempre voltava para a mesma conclusão: precisava do dinheiro. Os meses passaram sem notícias, e Hannah começou a perder as esperanças. Talvez não fosse escolhida. Talvez as famílias preferissem alguém mais estável, mais velha. Mas, no fundo, havia algo nela que ainda queria acreditar que aquele programa pudesse ser sua saída. Hannah já tinha perdido as contas de quantos currículos distribuiu. O roteiro era sempre o mesmo: pegar o papel dobrado com cuidado, entrar no estabelecimento tentando parecer confiante e ouvir as mesmas desculpas ensaiadas. “Já preenchemos a vaga.” “Vamos analisar e entraremos em contato.” “Você não se encaixa no perfil que estamos procurando.” Ou, pior, aquele olhar de cima a baixo que dizia tudo sem precisar de palavras. Ela sabia o que pensavam: roupas surradas e gastas, cabelo m*l cuidado, expressão cansada. Alguém assim dificilmente transmitia a imagem de uma funcionária confiável, independente de qualquer que fosse a função. Hannah queria gritar que aparência não definia caráter, que ela era pontual, dedicada, pronta para aprender. Mas de que adiantava? As pessoas acreditavam no que viam antes mesmo de ouvir qualquer palavra. Na última tentativa, saiu de um café e jogou o currículo no lixo mais próximo. Para quê insistir? Era como se o mundo a enxergasse como alguém já derrotada antes mesmo de começar. De volta ao seu quarto apertado e mofado, suspirou e encarou o teto. Se ninguém lhe desse uma oportunidade, talvez o destino estivesse apontando para outro caminho. Talvez aquela inscrição no programa de barriga de aluguel fosse sua única saída. Mais alguns dias se passaram sem sucesso, até que de repente, o telefone tocou no meio da tarde, interrompendo os devaneios de Hannah. Ela não costumava receber ligações, quase ninguém ligava para ela. Pegou o aparelho hesitante, o coração batendo mais rápido do que deveria. — Alô? — atendeu. — Boa tarde, senhorita Hannah. Aqui é da clínica de fertilidade. Temos um casal interessado em conhecê-la. — disse a secretária. Por um instante, ela não soube o que dizer. Depois de meses sem notícias, finalmente havia sido escolhida. A secretária seguiu explicando os detalhes: um homem procurava uma barriga de aluguel para realizar o sonho da paternidade. O contrato estava dentro dos padrões que ela já conhecia, e a primeira reunião poderia acontecer nos próximos dias. Hannah desligou o telefone e ficou parada, sentindo algo diferente dentro de si. Pela primeira vez em muito tempo, não era apenas medo ou desespero, era esperança. Quando sua amiga chegou para ver como ela estava naquele dia, Hannah pôde contar a ela tudo que tinha acontecido e a amiga ficou muito feliz. Depois Hannah pegou o e-mail com as informações sobre o pai da criança pelo seu celular e leu tudo com calma. Quando viu o perfil dele, um alívio tomou conta de seu peito. Ele era bem-sucedido, financeiramente estável. Isso significava que poderia cumprir sua parte do contrato sem dificuldades e depois poderia seguir sua vida feliz, sabendo que ajudou uma família, mas também que foi tudo o que ela precisava para alcançar alguns de seus sonhos. Soltou um longo suspiro de alívio ao imaginar seu futuro, que a poucos dias era mais incerto do que nunca. Talvez aquilo fosse o começo de algo bom, algo muito bom. No final da noite, a amiga de Hannah levou um conjunto social de terno e calça para Hannah para que ficasse apresentável e passasse uma boa imagem ao casal.
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