2. Venha comigo, por favor?

948 Words
Aos dezoito anos, quando tive que prestar o vestibular, tive um ataque de pânico tão forte que tive que recorrer a ajuda médica. Minha mãe, que estava ocupada demais com com o lançamento de sua novela, não pode ir comigo — não quis ir comigo, ela estava de folga, com uma máscara de pepino no rosto enquanto fazia as unhas com a manicure — e fora Dom quem me levou de carro e ficou comigo até recebesse alta. Uma vez liberada, ele me levou para um restaurante barato — que era o seu favorito — para comer macarrão com queijo. Ele adora, pode comer três pratos de mac'cheese sem dificuldade. Agora, diante de mim, ele leva uma generosa garfada a boca. Dom nunca foi o meu padastro, eu nunca o vi assim. Não sou próxima a minha mãe pois meu pai me tirou dela quando a polícia me encontrou sozinha em seu antigo apartamento, sem comer e suja. Eu tinha três anos. Desde então eu morei com meu pai, nós vivíamos perto do mar e velejavamos sempre que o clima permitia. Quando meu pai morreu eu tinha dezessete anos e a lei me devolveu a minha mãe e um anos depois ela conheceu Tom e eles se casaram. — Sabe, não consigo entender. Ele ergue os olhos para mim, desviando atenção do prato farto. Dessa vez, a intensidade deles me provocam arrepios. — O que você não consegue entender? — Você e a minha mãe. Mas, principalmente você. Por que ainda está com ela? — O que foi? Ciúmes? — Ele ronrona, felino, cheio de maldade. Me seguro para não revirar os olhos. Dom tem a habilidade para me tirar do serio facinho. — Só não entendo porque ainda está com ela se não perde a chance de se atirar em mim. Dom vai para trás, reclinando na cadeira. Seus olhos tomam o desafio, e a sensação de conquista se instala. É uma batalha, e é muito provável que eu saia perdendo. — Eu não me atiro em você. — Não? — Não. O que te faz pensar isso? Só o fato que ele faz, de fato, isso. Dom não poupa esforço em se atirar em cima de mim. É como se fosse mais forte que ele. Sorrio, porque é engraçado pensar o oposto. Não tem a menor chance dele estar falando sério. — Então você não me quer em seus braços? Não quer ver o que tem por baixo das minhas roupas? Ou saber que gosto tem a minha pele? Vejo o exato momento em que ele engole em seco. Seus olhos se tornam sombrios, em um tom de cinza melancólico. Meu coração dispara, mais rápido que uma bala, insano como o coringa. — Eu até poderia dizer: "por favor, me deixe de f***r, Nora", mas tenho o minino de amor próprio. Suas palavras me provocam risadas descompassadas entre a timidez e e o calor que me fazem sentir. É como ouvir uma piada profana. — Você é um pilantra, Dom. — Digo baixinho. Dez meses em alto mar. Não vou vê-lo, não vou poder ligar para ele de madrugada quando estou com saudades de casa. Vão ser dez meses longe, se eu voltar. Eu posso recomeçar em outro lugar, posso acabar me apaixonando por alguma cidadezinha e com isso posso nunca mais retornar a esta cidade. Tanta coisa pode acontecer. Tudo pode mudar e eu tenho certeza que eu vou mudar. De repente, tenho medo. Estou indo em direção a uma aventura para me agarrar as lembranças de meu pai mas isso pode custar o único amigo, e a única família que ainda me resta. Sinto as lágrimas se acumularem em minha linha d'água, o nó se apertar em minha garganta, a sensação de que não consigo respirar me faz sufocar. Dom estende a mão a mesa e alcança a minha. Seus dedos se entrelaçam nos meus e são gentis. — Eii, o que foi? Por que está chorando? Com a mão livre limpo a lágrimasm teimosa que escorreu. Não quero enche-lo com os meus problemas. Sou eu quem vou sentir saudades. Céus, vou sentir mais saudades de Dom do que de qualquer outra coisa. Isso é estranho, não é? Mas quando se tem um amigo a quem pode recorrer sempre que precisar, a quem te manda presentes — comida e chocolate na maioria das vezes — sempre que é uma ocasião especial, essa pessoa se torna importante. Se torna família com o passar do tempo. Dom se importa comigo mais do que a minha mãe um dia se importou, disso eu tenho certeza. Então é isso? Eu simplesmente vou embora? — Estou um pouco cansada. Acho que vou pra casa. — Eu te levo. Abro a boca para dizer "não, não precisa", mas talvez isso seja o certo a se fazer. Isso pode ser perfeito. Não é como se fosse uma novidade para mim, mas ser com ele... É como eu disse, uma hora ou outra isso ia acontecer, mas dessa vez parece certo. — Você poderia? Não vai te atrapalhar? — Posso sempre arranjar tempo pra você, linda. De dentro do blazer ele tira sua carteira, e dela as botas para pagar ambos pratos. Enquanto ele discute o valor da gorjeta com o garçom, meu estômago se revira com a ansiedade. Eu não acredito que vamos fazer isso, quer dizer, se ele quiser... Quem eu quero enganar? Uma vez que Dom me ver ceder, não vai ter volta. Eu só espero que as coisas não mude entre nós depois disso, uma vez que ele vai me ter em suas mãos. Será que eu vou sair inteira disso? Acho que só pagando para ver.
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