— Um dia, Nora, nós vamos poder cruzar o oceano. Só você e eu e o mar.
— O mar é nosso amigo, papai?
— O mar é o nosso lar, pequena gaivota. — Ele toca o meu nariz com a ponta do dedo indicador. Os olhos do meu pai sempre brilham quando ele fala do mar, assim como os meus brilham quando eu vejo um prato de macarrão com queijo em minha frente. — Um dia ele vai nos reivindicar, para dormirmos em seu leito. Parece mágico, não parece?
— Parece sim! Eu vou com você pra onde for papai!
— Eu sei que vai, minha Nora. — Ele afaga meus cabelos com um sorriso terno nós lábios. — Eu sei que vai.
— No que você está pensando? — Pergunta Dom ao volante. Sua expressão curiosa me faz abrir um fino sorriso.
— Hum, nada interessante. Desde que a viagem se aproximou tanto, meu pai não sai da minha cabeça. Fico me lembrando dos nossos bons momentos. Ele era incrível, sabe? Cuidava de mim como se eu fosse um passarinho. Ele sabia que um dia eu teria que voar sozinha mas enquanto isso me deu todo amor que poderia dar. — Me sinto afundar no raso, o nó em minha garganta é doloroso, mas já faz tanto tempo que está aqui que já estou acostumada com a dor.
— Consigo ver isso na forma como você fala dele. Você sente muita falta dele? Que pergunta i****a, é claro que deve sentir. — Ele mesmo se corrige.
— Você tem razão, eu sinto sim. Ele era tudo o que eu tinha e agora eu — não sei o meu lugar no mundo — sinto que não pertenço a lugar algum. E pra piorar — viro o rosto na direção dele. Dom está concentrado no trânsito, mas de relance ele olha para mim. — eu só tenho você.
— E por que isso seria pior?
Eu rir alto, porque ele caiu na minha. É fácil tirar Dom do sério, principalmente quando quem está tentando isso sou eu.
— Eu tô brincando, Dom. Apesar de tudo, e de toda essa história com a minha mãe, eu sou grata por você ser meu amigo.
— Um "amigo" que você passou cinco meses sem dar notícias. — Ele claramente não gostou do termo "amigo".
— Não foi proposital. — É uma mentirinha inocente. Não quero ter que explicar a ele que vi eles no tapete vermelho na estreia do filme da minha mãe, ou que aquele beijo parecia real demais.
Não deveria ficar mexida com isso, eu sei, não deveria me importar, mas para quem suspiro por mim eu achei que ele não amasse ela. Fico me perguntando, será que sou uma aventura? Um simples desejo que uma vez que ele terá saciado, nunca mais irei vê-lo?
O carro estaciona diante do prédio de tijolos vermelhos que abriga três apartamentos duplex. O meu é o último, abrigando o terraço em minha propriedade. Não foi fácil encontrar algo bom nessa cidade. Tudo aqui é "modernidade e dinheiro", mas tudo o que eu queria era conforto e espaço para abrigar todas as minhas lembranças.
Deveria chama-lo para entrar? Deveria oferecer mais que um copo de suco? Eu o trouxe aqui para isso mas ainda assim, sinto como se uma vez que ele me tiver será a última.
Não quero isso, gosto dele demais para não me importar de perde- lo.
— Foi sim, sei que está mentindo, Nora. Você tem esse costume de esconder as coisas de mim. — Ele suspira. — Seu pai não era único a se importar com você, sabe? Se pudesse ao menos me dar algum crédito. — Ele balança a cabeça para os lados.
Dom está certo, eu nunca dei uma a******a a ele. O que eu posso fazer? Ele ainda é o meu padastro, se descobrissem isso iriam cair em cima da minha mãe. Ela é famosa, uma atriz internacional, seria uma catástrofe essa notícia cair na mão da mídia.
Mas, vale apena perder alguém incrível pela opinião dos outros? Eu vou passar dez meses fora de qualquer forma, é tempo demais para estar longe de alguém com quem se importa.
Então, levanto tudo isso em conta, eu pergunto a ele:
— Você quer subir,Dom?