Dom nunca esteve em meu apartamento antes. É modesto,mas confortável e com certeza a minha cara, não digo isso pela bagunça em potencial, mas pelas relíquias que conquistei ao longo dos meus anos. Conchas e ossos fossilizados fazem a decoração da minha estante no canto da sala, há um balanço de cipó e almoçadas perto da janela, e meu sofá é tão grande que facilmente o uso como cama quando estou cansada demais para ir para o quarto.
Não é nada parecido com a mansão em que ele vive. Minha mãe é extravagante, ela adora lustres e quadros caríssimos, eu...bem, prefiro boas lembranças e um abajur de cogumelo. É infantil, mas combina com o caos do meu apartamento.
— Sinto cheiro de baunilha. — Ele murmura enquanto caminha pela sala, observando atentamente cada detalhe.
— Hum, não sei dizer de onde vem. — São das panquecas que comi de manhã? Da minha essência de baunilha caseira no armário da cozinha? Ou talvez, seja apenas o cheiro da minha casa. Adoro perfumes doces, não do tipo enjoativo, mas leve e fresco como a massa de um bolo.
Eu acabei de comer, porque continuo pensando em comida? De bem que um pudim de leite cairia bem agora...
Deixa pra lá, tenho assuntos a tratar e coisas a fazer. Não quero embarcar em uma viagem sem me despedir adequadamente.
— Você quer algo? Água? Suco?
— Não, eu...só quero olhar. — Ele diz sem olhar em minha direção, atento a minha pequena coleção de dentes de tubarão que herdei do meu pai.
— Fica avontade.
Sigo pelo corredor a esquerda em direção ao meu quarto. Há borboletas na minha barriga e eu sinto que elas estão revivendo, se energizando conforme eu me preparo mentalmente para fazer o que desejo fazer.
Céus, Nora, você vai mesmo fazer isso?
Eu tenho que fazer, é como ir nessa viagem, é algo necessário pois sinto que no instante que eu partir nunca mais o verei.
Me sento na cama, meus cotovelos encontram minhas coxas conforme minhas costas se curvam e eu escondi o rosto entre as mãos.
— Estou ficando louca? — Pergunto a mim mesma. — Certo, se eu vou fazer isso...
Tiro o casaco e o deixo sobre a cadeira da escrivaninha. Diante do espelho de corpo inteiro puxo a minha blusa um pouco para baixo, evidenciando meus s***s medios. Solto o cabelo, bagunçando ele um pouco. Não preciso de muito para levá-lo até a minha cama, mas ainda preciso deixar sinais para ele.
— Não é como se fosse a sua primeira vez, Nora. — Digo firmemente diante do espelho, mas essa firmeza se vai rapidamente — Mas é a primeira vez com ele. Será que vai ser bom?
Minha bochechas esquentam em resposta.
É claro que vai ser.
Saiu do quarto e volto para sala, ao sair do corredor encontro Dom sentado em meu sofá, assistindo a uma das muitos fitas que eu tenho. Meu pai adorava gravar enquanto estávamos no mar, e eu adquiri essa mania ao longo do tempo.
— O que está assistindo?
— Eu encontrei esses CDS. Que tipo pessoa ainda tem um DVD hoje em dia?
— Eu gosto de assistir os meus filmes favoritos em Blueray — Me sento ao lado dele no sofá. Minhas mãos estão suando, e só piorou quando ele percebeu de primeira o decote da blusa. — , o que tem demais nisso?
— Você gosta de coisas vintage, já entendi. Mas, são incríveis. Você é incrível. Como sabe fazer todas essas coisas? Os nós e as velas? Navegar em mar aberto parece assustador.
Não houve uma vez sequer que velejar tenha sido assustador. Mesmo com as tempestades, mesmo que o barco perdesse o controle, eu nunca senti medo de me encontrar a deriva.
— Não é. É como pular de asa delta, ou pilotar um avião, não sei. É como ter asas. — Me sinto livre em meio ao azul do oceano e ao branco do céu. Gosto de saber que sou a única pessoa a quilometros de distância, que tudo pode ser meu naquele instante.
— Acho que você quer dizer que é como ter uma calda.
A piada sem espectativa me faz rir. Levo a mão fechada em punho contra o seu braço. Dom é um piadista aspirante, mas suas investidas não são muito boas.
— Engraçadinho.
— Aí, que mão pesada.
— Deixa se cena, eu peguei leve. — Ele faz uma careta enquanto segura o braço "machucado". Os lábios de Dom se contraem em um "biquinho" dramático. Eu sempre reparei que seu arco cupido é meio torto, sendo um lado mais redondo e o outro pontiagudo. Sua boca é carnuda e deve ser muito macia.
Engulo em seco com a vontade que cresce em meu ser.
— Não faz isso.
— Não fazer o que?
— Fazer parecer que quer me beijar.
Deslizo os olhos de sua boca para seus olhos e aquele tom de azul leve se tornou como uma tempestade, um azul tão escuro que faz meu corpo tremer.
— E quem disse que eu não quero realmente?
Dom abre um sorriso fino, incerto.
— Você não está brincando comigo?
Não, Dom, não estou brincando com você. Hoje eu quero tirar uma casquinha — quero bem mais que uma casquinha — e fazer a sensação da sua pele na minha durar.
Me inclino na direção dele lentamente, testando a aproximação, mas fora Dom quem zerou na nossa distância. Seus lábios revindicaram os meus como se estivesse esperando por aquilo a muito tempo.
Eu não sei descrever, não sei explica, mas estou beijando o meu padastro e só consigo pensar que eu quero mais um pouco e que ainda não vai ser o suficiente.