4 anos mais tarde
— O que você gostaria de presente no seu aniversário, princesa? O meu pai pergunta enquanto jantamos. Todo ano é igual. A mesma pergunta e a resposta é sempre a mesma. — Nada realmente.
Eu respondo secamente enquanto brinco com a minha comida. Ele sabe que eu não gosto de comemorar o meu aniversário, não sei por que ele pergunta. Desde que descobri a verdade sobre o meu pai, nada tem sido o mesmo. Eu não sou mais aquela garota que fica animada com o seu aniversário e os presentes. — Princesa você só vai fazer 20 uma vez, que tal darmos uma festa para comemorar que você agora é quase uma adulta. Ele diz. Eu luto contra a vontade de sorrir, no fundo eu esperava que ele dissesse isso. Essa festa será perfeita. É a distração exata que eu preciso. Eu esperei que ele trouxesse isso à tona porque se eu mesmo tocasse no assunto, soaria suspeito. — Claro, por que não? Eu dou a ele um pequeno sorriso fingindo não me importar. Mesmo que lá, no fundo eu esteja pulando de excitação. Depois do jantar subo as escadas e começo o planejando a festa. Eu preciso ter certeza de que tudo vai acontecer como plano. Ouço meu telefone tocar e atendo sem olhar.
— Alô.
— Lorena! A minha prima Karen grita.
— Oi prima. Eu respondo só de ouvi-la me faz sorrir.
— Meu tio me ligou e me disse que você vai dar uma festa, sábado para o seu aniversário.
— Sim, nada grande. Eu me deito na minha cama.
— Temos que ir às compras! Ela diz animada.
Eu reviro os olhos mesmo que ela não possa me ver. — Karen, você sabe, muito bem que o meu pai e o meu tio não nos deixam sair. O meu tio Jonas é como o meu pai superprotegido. Se dependesse deles não teríamos permissão nem para ir ao jardim.
— Eu sei que isso é bobagem, mas você sabe o que eles dizem se Noé não vai para a montanha do que a montanha vai para Noé.
Eu caio na gargalhada. Karen sempre tenta soar inteligente, mas sai completamente o oposto.
— Sabe que não é assim. Eu limpo as minhas lágrimas. Karen não é a mais brilhante das pessoas, mas ela tem um bom coração.
— Como é, então espertinha? Ela pergunta.
— Se a montanha não for para Maomé, então Maomé vai para a montanha. Eu a corrijo.
— Foi o que eu disse, a única diferença era o nome, mas de qualquer forma, pedirei ao meu pai que nos traga um shopping inteiro para podermos fazer compras. Ela diz.
Eu realmente não estou com vontade de fazer compras, tenho um armário cheio de roupas novas. Mas sempre que posso passar um tempo com a Karen eu aproveito.
— Parece bom para mim. Eu respondo.
— Perfeito, vejo você então. Ela desliga.
Karen é mais que uma prima para mim, ela é como uma irmã mais nova. É minha melhor amiga. Ela tem sido minha parceira de
crime desde que me lembro. Eu nem consigo lembrar quantas vezes, nos metemos em problemas por fazer o que não deveríamos.
Vou até o meu armário para começar a separar as minhas roupas em duas pilhas. Uma pilha é feita de coisas sofisticadas, elegantes,
roupas caras e de grife que o meu pai insiste em comprar para mim. Ele acha que me enchendo de roupas novas, eu voltaria a ser como eu era antes. Ele não entende. Nada disso, significa alguma coisa para mim, é apenas material. A segunda pilha é composta de roupas normais e nada caro. Eu adoro estar confortável, não preciso de uma camisa de 500,00 reais, quando uma camisa de vinte reais me parece bem melhor.
Não me entenda errado, eu sou totalmente a favor de me mimar, tudo o que estou dizendo é que não há nada de errado com roupas baratas. — Borboleta? Nina diz me assustando pra cara*lho. Eu não ouvi ela entrar.
— O que você está fazendo? Ela caminha na minha direção. Eu demoro um tempo para me recuperar do surto e responder. — Nada Nina, apenas escolhendo algumas roupas para doar. Eu finalmente digo. Ela caminha até a segunda pilha. — Eu posso levar isso para baixo e pedir para alguém levar para você.
Ela não desconfia em nada sobre eu doar roupas porque eu sempre faço isso. Eu tenho muitas roupas, algumas delas eu não nunca usei. Em vez de tê-los pendurados no meu armário, eu sempre decidi doá-las para pessoas que não tem nada e merece tudo. Não posso deixar ela pegar as roupas, porque preciso delas para outra coisa, mas também não posso dar a ela a outra com as roupas novas porque ela saberá que algo está acontecendo.
Pense Lorena.
— Obrigado, mas ainda não terminei com essa pilha então vou levar para baixo quando terminar. Eu me concentro em dobrar a camisa na minha frente. Eu evito olhar para ela, ela sempre sabe quando estou mentindo. — Borboleta, você é tão doce e igual a sua mãe. Ela bate no meu ombro e sai antes de eu começar a fazer perguntas sobre a minha mãe. Ninguém tem autorização para falar sobre a minha mãe principalmente comigo. Toda vez, que pergunto ao meu pai a resposta é sempre a mesma, ela morreu quando eu
ainda era pequena. Eu já sei disso, mas não sei como ela morreu. Eu nem sei onde ela está enterrada. Eu gostaria de ter um túmulo para levar flores nos dias das mães, no aniversário dela ou sempre que tenho vontade de falar com ela. Parece que ela nunca
existiu. Como se ela fosse apenas uma invenção da minha imaginação.
Bem, isso vai mudar muito em breve. Eu preciso descobrir o que realmente aconteceu com ela e eu preciso descobrir onde ela está
enterrada. Eu deveria pelo menos poder visitar o túmulo dela sempre que eu quisesse.
....
Quinta-feira chega tão rápido e meus nervos estão à flor da pele, esperando o sábado. Tudo tem que sair certo, e eu não posso estragar tudo porque esta pode ser a única chance que eu tenho. — Lorena! O meu pai grita lá em baixo. — Karen está aqui.
Fiquei esperando por ela o dia todo. Eu vou até a casa dela para podermos escolher a nossa roupa para a festa. Eu corro escada abaixo e abraço ela. Sinto falta de ver o rosto dela. — Eu estou feliz em ver você também, prima. Ela me abraça de volta. Ela não tem ideia de como estou feliz e triste em ver ela.
— Vamos papai tem um shopping nos esperando em casa. Ela me puxa para a porta.
— Cuidado. O meu pai grita atrás de nós. — Tchau, pai.