Cap. 4

2415 Words
Londres, 1832 Do que valia uma boa mente se ela insistia em fazê-la recordar momentos odiosos? Mary sabia que era uma péssima ideia comparecer àquele baile, sempre era uma péssima ideia aparecer em festas que ela não tinha acesso a lista de convidados, vivera grande parte dos últimos anos assim, afastou-se de Londres para não precisar evitar convites, agora de volta, e após pisar no salão ela sabia que não deveria ter aparecido. Insistiu que Daniel a acompanhasse, pois ele sempre a fazia rir com seus comentários ácidos. Ele tinha a abandonado brevemente para ir atrás de uma bebida, mas pela demora ele encontrou um r**o de saia. Olhou pelo salão esperando ver Claire, para que pudesse cumprimentar os noivos e sair. Seu coração vacilou com o que viu, anos depois ela ainda enjoava ao vê-los, e seu humor piorou consideravelmente quando percebeu que Felicity Cavendish caminhava em sua direção com um sorrisinho no rosto, era ridículo quanto tempo ela conseguia manter isso. Felicity se aproximou da mesa da comida e olhou para frente ao falar com Marina. - Vejo que resolveu dar as caras Lady Marina. - Em algum momento eu estive escondida Lady Felicity? - É Lady Cavendish. - Como queira. - Não, não querida, como William quis. Por que foi o aconteceu não foi? Ele escolheu a mim. - Nas poucas vezes que me lembro do seu marido, eu costumo me perguntar se foi você que o encantou ou a influência de seu pai. - O importante é que eu sou uma baronesa, e você não passou de divertimento. - Sempre me pareceu alguém que realmente contenta-se com pouco. - Pouco? Eu sou uma senhora, uma dama influente e respeitada, todos me oferecem convites, eu sou bem-vinda. querida. E você, o que tem? - Amor próprio eu diria, poderia me arriscar a dizer, que o amor de seu marido também se considerarmos quantas cartas ele me enviou, ou como ele fica nervoso em minha presença. Além do mais, tenho terras, um cérebro que funciona e dinheiro nunca me faltou. - Serpente traiçoeira, mulher infeliz! Você nunca terá o respeito ou a admiração da sociedade, no que depender de mim será sempre uma solteirona manchada por um escândalo, a marca da desonra. - Nós duas sabemos que eu jamais fui desonrada. - Exatamente, e apenas nós duas sabemos. - E seu marido. Que imagino que se quiser continuar tendo dinheiro para festividades jamais dirá nada. Oh, triste de mim. Marina fez um gesto teatral ao colocar a mão sobre a testa. - Você deve ir embora, não a quero na presença do meu marido. - Sinto em lhe dizer que não pretendo ir, retire o seu marido da minha presença Lady Felicity expressou seu descontentamento em uma paleta de cores, ficou branca, depois laranja, seguida do vermelho que Marina imaginou ser de raiva, e então saiu ostentando um tom amarelado característico de sua pele. Em poucos minutos viu olhares em sua direção, e um que conhecia muito bem, William Cavendish, o responsável por sua ruína, sua mente a traiu, e a levou há cinco anos.] Há cinco anos Marina era uma mulher diferente, na verdade não era ainda uma mulher, era mais uma garotinha entusiasmada com a vida. William por sua vez, era um rapaz crescido e bem informado. William chegou à vida de Marina quando ela tinha 16 anos, um poço de inocência. Ele apresentou-se como amigo de seu irmão, era um jovem barão inglês aos 21 anos que fora passar um tempo na França após anos na universidade. William expôs um mundo que ela não conhecia. Contou-lhe sobre os bailes e a sociedade inglesa, com uma riqueza de detalhes que a deixou fascinada, ele pontuou todos os motivos pelos quais amava a Inglaterra. Marina nunca havia posto os pés em terras inglesas, sua mãe odiava falar sobre a Inglaterra e destruía toda e qualquer ilusão que ela pudesse ter sobre a nobreza, mesmo fazendo parte dela. Jaqueline, sua mãe, contou superficialmente que para a nobreza o que conta é o passado, sem chances de reaver o presente ou melhorar o futuro. Se pertence a uma família carrega diretamente suas glorias e infortúnios "A sociedade não oferece segundas chances, a não ser que você as crie" Marina nunca ousou contrariar sua mâe até conhecer William, nunca quis muito contato com a Inglaterra, indo até lá apenas de passagem, a moda francesa a agradava mais, amava ficar ao lado de seus pais, e não tinha nenhum desejo de casar-se de modo conveniente com um nobre inglês, então não via vantagens em debutar. Ela desejava, assim como seus pais casar-se por amor. Jaqueline Courtier, diferente do que a maioria sabia era de fato inglesa, mais precisamente havia nascido no condado de Havenclaw acreditando que seus pais eram arrendatários que haviam falecido muito cedo, e o conde enviou para a França uma garotinha de pouco mais de 8 anos, para ser criada por uma tia distante. Tia Josefina Pardaillan, ao contrário do que poderiam dizer era uma eximia dama inglesa, ou tentava ser, sua tia tentou ensinar-lhe etiqueta, e o fez muito bem, assim como história, artes, filosofia e ciências, Josefina não via nenhuma vantagem na ignorância, talvez por isso, quando retornou a Londres, todos tenham dito que Jaqueline era francesa demais para ser uma dama inglesa, tinha muitos pensamentos Isso não a impediu de debutar, quando retornou a Londres teve uma temporada completa sendo amadrinhada pelo conde e condessa de Havenclaw, tudo parecia caminhar para um destino comum e passivo, ela se casaria com algum senhor e então, fim, não era como se a vida de uma mulher tivesse tanta alternativa, mas ela tinha grandes expectativas, queria um marido que não a entediasse, mas não espera um que pudesse amar. O que sua mãe não esperava de fato, era que se interessasse por um homem proibido, onde já viu uma amadrinhada sem linhagem almejando ser condessa? Simon Hixton, o Conde de Doncaster, e graças a Deus pai de Marina, estava de compromisso firmado com Amélia Havenclaw, afinal a filha de um conde deveria ser condessa, duquesa ou a próxima rainha, nada menos era aceitável. Amélia e Jaqueline eram amigas, sempre trocavam cartas e os anseios por serem bem comentadas na sociedade. Ninguém avisou a Jaqueline que não deveria pôr os olhos em quem não poderia ter, ela simplesmente não sabia. Quando Simon a tirou para dançar e ela riu entusiasmada, ela soube que ele não era o homem que a encheria de tédio, mas o homem que a encheria de amor. Ela não era tão inocente quanto Amélia, sabia a respeito de beijos e o que eles provocavam, foi impossível não se sentir tentada, na mesma noite que o viu e dançou com ele, o beijou. A condessa ficou escandalizada quando recebeu a visita do conde, imaginando que as flores eram para Amélia, mas na verdade eram para Jaqueline. Sempre que sua mãe relembrava essa história, ela revirava os olhos e tremia nessa parte, quando a condessa declarou em alto e bom som que ela deveria cortar os laços com o Conde de Doncaster, a corte era o pé do casamento, e só deveria ser oferecida a pessoas de igual situação, a filha de um arrendatário no máximo se casaria com um senhor sem linhagem, mas com algum dinheiro, mas nunca um lorde com linhagem e muito dinheiro. Audaciosa do jeito que era Jaqueline enfrentou a condessa, indiretamente é claro, e saia escondida para ver Simon. O conde de Doncaster era impaciente, e um dia após quase arruiná-la como ele mesmo dissera, anunciou para a sociedade que estava noivo, no meio de um baile repleto de famílias tradicionais e respeitáveis, e chamou sua noiva para valsar. Galante e desafiador, era como sua mãe definia o momento, ele não mencionou seu nome, apenas estendeu a mão para ela. Como se tivesse cronometrado o momento perfeito para intervir, a condessa pontuou o final da dança com uma palma e uma gargalhada. "Ora, Jaqueline devo lhe dar meus parabéns, afinal vendeu-se direitinho, não é todo dia que uma arruinada chega tão longe. E assim que são as falsas nobres francesas? Jogam-se em cima dos homens, dando beijos em quem m*l conhece, para enredá-los com um filho?" Ela ficou ligeiramente confusa, não tinha sido arruinada, Simon nunca a arruinou, não por completo, e mesmo que o tivesse feito, não se sentia perdida. Jaqueline observou caras feias, risos, homens parabenizando Simon por dar conta dela, e matronas a olhando com desdenho. No dia seguinte saiu no jornal um artigo, "Atenção ladies, deixem seus maridos longe das francesas, seja uma atriz ou uma meretriz, elas roubam os nobres de vocês". Ouviu comentários de que o conde escolherá a filha errada para legitimar, deveria ter apostado na bastarda. Esse fato nunca foi confirmado, e sua mãe nunca quis saber. Não é preciso dizer que no mesmo dia ela fugiu, partindo em retirada para o único lugar onde se sentia querida, com tia Josefina. Ela chegou numa quarta-feira pela tarde, em um quinta-feira pela manhà, Simon bateu em sua porta. ajoelhou-se e a pediu novamente em casamento, e ela aceitou pois o amava estupidamente, mas com uma condição, Londres seria passagem, não morada, e assim foi, Jaqueline sequestrou um conde inglês. Marina amava essa história, porque ela dizia muita coisa, mas talvez ela tenha fantasiado e romantizado demais. Quem pode culpar uma garota de 16 anos por sonhar com o príncipe encantado? Quando dançou com Wiliam, ela sentiu como se quebrasse uma maldição, como se vencesse a guerra e tivesse feito um tratado de paz. Marina, filha da Condessa francesa, se casaria com um nobre inglês, e ela imaginou sua família na catedral St Paul's, eles sendo recebidos em bailes... ela sonhou, e não foi um engano. Quando William propôs o casamento, primeiramente para ela em segredo na biblioteca de sua casa, ele lhe pediu uma prova de amor, e ela lhe deu. Permitiu que ele lhe beijasse, que subisse suas saias, que a tocasse intimamente, ele assimcomo seu pai não comprometeu sua virgindade, com a promessa de que voltaria, e faria tudo corretamente. Marina esperou e guardou o segredo, em um ano ele lhe enviava cartas, pedindo que ela fosse paciente e que o esperasse. Mas quem pode culpar uma menina pela ansiedade de reencontrar seu grande amor? Um ano depois estava farta de ter notícias por um pedaço de papel, queria vê-lo! E assim ela foi, enfrentou seus pais, abandonou sua família e foi em busca daquele que amava, foi tão bem recebida pela irmã de seu pai, a Viscondessa de Montgomery, que parecia estar em casa. Tudo aconteceu muito rápido, em uma hora ela chegava a Londres, na outra acompanhava seus tios e a prima Claire de 15 anos em um baile de noivado, foi apresentada a uma série de nomes que jamais gravaria, e todos comentavam como ela era graciosa e parecidíssima com sua mãe, descobriu que a condessa de Doncaster dividia opiniões, uns a achavam corajosa, outros uma caça fortunas, mas todos concordavam que seus pais eram unidos por algo consistente: amor. Bastou um minuto para que avistasse William na multidão, e ela foi ao seu encontro, estranhou quando ele pareceu assustado ao vê-la, mas o justificou pela surpresa do momento. Eles foram ao jardim, como ele havia prometido que faria "Te levarei aos jardins de um baile, debaixo de uma árvore frondosa e a beijarei, não importa se já tivermos 20 anos de casamento ou 10 dias de noivado." - Ah, Marina ... - Suspirou quando ele cumpriu a promessa, e sobressaltou-se ao ouvir um grito. Foi assim que viu Felicity Cavendish pela primeira vez, naquele momento ela era Felicity Norton, mas Marina descobriria que em duas semanas seria Cavendish, como William Cavendish. Lady Felicity berrou e chamou atenção de boa parte dos convidados, aos anunciar que a recém chegada tinha seduzido seu noivo, ela dizia coisas desconexas, e Marina ria. Ele não pode ser seu noivo sendo meu, ela implorou que ele a defendesse, implorou que assim como seu pai a chamasse de noiva e afirmasse seu compromisso. Mas as palavras que ouviu sair da boca que ela tinha acabado de beijar foram "Ela deve estar louca, jamais casaria com alguém que não uma legitima dama inglesa, não mancharia o meu título." E William riu. Despenteada, borrada de lágrimas e enjoada, Marina compreendeu alguns cochichos "assim como a mãe", "não conseguiu dar um golpe", "invasão francesa, tranquem seus noivos". Ela saiu correndo, jurando que jamais se deixaria enganar, ou amar homem nenhum, não queria ter nada a ver com a sociedade e nada a ver com maridos. Viajou na manhã seguinte para Viena esperando encontrar o Visconde de Doncaster, seu irmão, que tinha necessidade de ostentar o título de cortesia até ser de fato conde. Encontrou a casa vazia, um bilhete dizendo que logo retornaria e que Marina não se deixasse seduzir pelo Visconde de Beker. Quatro anos depois, aos 21 anos, Marina se viu obrigada a quebrar a sua promessa, e retornar aos salões de baile, dessa vez com um propósito bem diferente, prestigiar sua prima. - Não pense nisso, não vale o esforço. - Daniel finalmente deu as caras. - Como sabe no que eu estou pensando? - Vi o dragão flamejante saindo daqui. Sinto não estar perto para salvá-la. - Nós dois sabemos que não faço a linha da donzela em perigo que necessita ser resgatada. - Não, mas eu teria lutado ao seu lado. - Eu sei. Onde estava? Colocando em perigo alguma donzela? - Dessa vez acho que acreditei demais na minha armadura. - Ora, ora, alguém acertou seu coração? - Vamos dizer que certa donzela me deixou intrigado. -O que já é um grande feito, preciso de todos os detalhes para parabenizá-la depois. Ela está por aqui? Marina começou a vasculhar o salão, indicando as damas com o queixo, e escolhendo candidatas. -Seria aquela? -A que está rindo de maneira afetada para Lorde Fahil? - De fato, nada intrigante. Vejamos, ela é uma viúva belíssima ou uma solteirona encantadora? - Você é a solteirona que me intriga. -A marquesa viúva? Não acredito! Achei que tinha terminado seu caso há anos. - E terminei. - Então sobram apenas as damas elegíveis e inocentes... Ah, ali está! Marina indicou Claire no meio da multidão e Daniel tossiu. - Nem mesmo você ousaria. Bela, casta, pura e um dia será duquesa, além do mais é minha prima. Vamos cumprimentar os noivos, sim?
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