Londres, 1832
Gabriel viu a luz pela primeira vez pelos olhos de seu pai, o duque bateu em seu ombro ao lado da mesa de bebidas, e lhe mostrou o que ele pensou ser a coisa mais linda que já virá.
- Apresento-lhe a futura duquesa de Kahn. - Seu pai sussurrou.
- Não imponha tal ordem ao seu filho, embora deva deixar claro que fazemos muito gosto dessa união. - A duquesa se pronunciou.
- E quem seria ela? Achei que deveria casar-me com a filha do visconde de Montgomery.
- Está olhando para ela, meu filho.
Há muito tempo não via Lady Claire, sempre trocavam cartas, sempre lhe mandava presentes, mas há tempos não via. Quanto uma dama poderia mudar até sua temporada? Lembrava-se que ela sempre fora muito bela, mas quando partiu para a universidade sua futura noiva era pouco mais de uma menina, ainda sim sua melhor amiga. Ele sempre soubera que Claire era seu destino, sempre a preservou em sua mente como uma garota inocente, justamente por isso nunca manteve casos ou amantes, teve suas aventuras, mas
nada que pudesse chegar aos ouvidos de Claire, ou que comprometesse seu orgulho. Nunca houve honra na
libertinagem pública e assumida.
Sua noiva estava debutando, era a bela do baile, o tesouro da temporada e já comprometida. Todos sabiam que, fosse pelas terras ou pela amizade entre as famílias aquela união era certa. Nem mesmo o escândalo que perseguiu parte de sua família, provocado por uma prima distante abalou a confiança dos Montgomery.
- Vossa Graça, Vossa Graça, Lorde Gabriel. - Claire acompanhada de sua mãe cumprimentou a todos, que devolveram balançando levemente a cabeça.
- Imagino que gostaria de dar uma volta, com sua permissão é claro, Senhora Montgomery.
- Veja como é bom em anteceder suas necessidades, de fato será um ótimo marido! O acompanhe minha filha!
Gabriel sorriu do modo entusiasmado que a Senhora Montgomery falou, e ofereceu a mão a Claire e seguiram
para uma caminhada pelo jardim.
- Devo admitir que quase não a reconheço.
- Não estou tão diferente assim.
- Não, sempre foi belíssima.
Ela corou.
- Agradeço. Lorde Kahn, se me permite, tem algo que preciso lhe perguntar.
- Diga, por favor.
- Devo crer que está tão apaixonado por mim, como eu pelo senhor?
Gabriel tossiu e recostou-se na sebe de teixos.
- Ora, o peguei desprevenido, não?
- Certamente, mas não é como se a resposta me faltasse a mente.
- Então responda-me, estou ansiosa.
- Se dissesse que não, desistiria de casar-se comigo?
- Mesmo que dissesse não milorde, casaríamos. É o nosso destino desde que sua mão teve um menino e a minha uma menina. Além do mais, creio que o faria me amar.
- Isso seria muito difícil, visto que já me encontro apaixonado.
- Resposta correta. Agora conte-me sobre a devassidão de Roma. - Ela riu.
- Estive por lá a negócios, e só a negócios.
- Está me dizendo que...
- Que jamais sujaria seus ouvidos, ou seu orgulho tendo renomados casos.
- Será fiel a mim?
- Por completo. Claire, minha querida, você é minha amiga, jamais faria nada que a chateasse.
- Muito bem, pois odiaria ter meu coração partido por você.
- Eu partiria o seu coração tanto quanto você partiria o meu. Seria capaz disso?
- Jamais. - Respondeu de imediato.
- Pois eu também não.
- Sabe por que nunca lhe mandei um retrato?
- Não faço ideia, imagino que nem mesmo um espelho lhe faça justiça.
- Ora, pare de ser tão galante, estou ficando tão vermelha quanto um tomate!
- Eu diria que fica adorável como um morango.
- Certo, nunca lhe mandei um retrato, porque não queria que se apegasse a ideia de que eu sou apenas uma mulher com beleza.
- Sei que é bem mais.
- O quanto mais?
- Tem todos os predicados de uma duquesa.
- Acha que serei adequada?
- Acho que será a melhor.
Gabriel ergueu uma mão para segurar a cabeça de Claire que mantinha seus olhos azuis abertos
-Não sei se devemos. - Ela sussurrou contra seus lábios
- Também não, mas não acredito que nos levarão a m*l, estamos noivos.
Ela fechou os olhos, e Gabriel aproximou-se para depositar um perfeito e casto beijo na testa de Claire. Não seduziria sua futura esposa em um jardim, ela merecia respeito.
- Devemos voltar e anunciar nosso compromisso, dentro de um ano estaremos casados e roubarei quantos beijos quiser de minha esposa.
Naquele dia, cercado de plantas e tendo o céu como testemunha, Gabriel podia jurar que nunca haveria outra mulher para ele. Claire era correta, adequada, boa para os negócios da família e boa para Gabriel, pois por sorte a amava
Claire esperava mais. Jurou que se emocionaria ao ver Gabriel, que seu coração daria um pulo, seu estômago ficaria revirado, que se sentiria tonta e alheia ao mundo, mas não, não foi o que sentiu. Talvez fosse a pressão do dia, tantos eventos acontecendo, sua estreia na sociedade, e logo noiva de um duque, iria pertencer a uma família influente e deveria estar a altura, sim era isso. Sabia que amava seu noivo, como não poderia amar? Quando tinha 15 anos, Gabriel com 21 anos visitou os pais em Kinlet, ela já sabia
que ele seria seu marido, era só o que sua mãe dizia, e seja por osmose, pela beleza, ou pela disponibilidade e gentileza, Claire estava encantada por ele. O seu futuro marido falava sobre como era a vida na faculdade, sobre as ciências, sobre como Londres parecia um céu iluminado e os ricos salões de baile... Gabriel era para Claire um ideal, o único homem possível, jamais tivera olhos para outros.
Então, pela certeza que martelava em seu coração, e a impulsividade da adolescência, ela contrariou todas as regras, e em um passeio pelo ramo das orquídeas pediu que Gabriel lhe desse seu primeiro beijo, já que ele seria o primeiro e único. E ali, naquele leve roças de lábios, ela sentiu tudo, suou frio, seu estômago revirou, sua respiração acelerou... Amor. Ela se casaria com o amor de infância que seria seu amor para sempre. Pelo menos era o que pensava. Agora, após ter declarado que estava apaixonada por ele, já
não sentiu tanta certeza em suas palavras. Quando Gabriel se aproximou e ela pensou que ele lhe beijaria, seu coração
não acelerou tanto, mas ficou na expectativa, quando os lábios de seu noivo tocassem os seus, seu estômago iria revirar e o coração acelerar.
Lady Claire Montgomery, foi novamente abandonada de suas emoções. Agora, depois do noivado anunciado, ela era a noiva mais confusa de toda a Inglaterra. Correu para o jardim desesperada por ar após dançar com seu noivo.
- Eu certamente o amo, não o amo? É claro que amo! Devo e irei me casar com ele. É comum que os anseios de
uma dama por um homem mudem, não é?
- Em minha vasta experiência, sim é!
Claire pulou ao ouvir a resposta e virou-se em direção a voz.
- Ora, ninguém lhe avisou que não se deve ouvir a conversa alheia!?
- Ninguém lhe avisou que uma dama, muito menos uma recém noiva, não deve ficar sozinha em um jardim com
um desconhecido?
- Eu não estava sozinha com um desconhecido, até o desconhecido em questão aparecer.
- Quer que eu me retire? Acho que posso ajudá-la com sua questao.
-Não estou com nenhuma questão, e não deve se intrometer nos assuntos de uma dama.
- Uma dama não deve verbalizar seus assuntos para o vento senão estiver interessada em uma resposta.
- Muito bem, já que me prestará tamanho favor, creio que deva me deixar vê-lo, ande saia das sombras.
E assim, o mais belo dos homens fica ainda mais belo ao ser banhado pela lua, pobre dele que não sabe que expor-se a tamanha claridade o fará queimar, ou pobre daquele que fez seu chamado.
Oh céus. Claire ficou paralisada. Sim Gabriel era lindo, o homem mais bonito que já tinha postos os olhos, até agora.
Naquele instante com os cabelos banhados pela luz da lua e um sorriso descarado no rosto, Claire sentiu tudo. Ela desejou aquele homem como desejou Gabriel aos 15 anos. Belo demais, audaz demais.
- Temo não conhecer esse autor.
- Certamente não conhece, é uma literatura proibida para boas damas, para boas pessoas em geral
- O senhor não é uma boa pessoa?
- Sou, mas diferentemente das boas pessoas que esperam passivamente, eu tenho certa urgência e curiosidade.
- Percebo. - Pigarrou.
- É por isso que devo responder sua pergunta. Se a palavra dever é o que vem em mente quando pensa em seu casamento, não deveria se casar.
- Eu amo meu noivo.
- O ama como homem?
- O que quer dizer com isso?
- Ele lhe instiga? Seduz? Tem pensamentos impuros com ele?
- Não tenho pensamentos impuros com ninguém.
- Que vida cheia de desprazeres. Uma mulher deve, cara dama, ter pensamentos impuros sempre que possível, e permita-me desconfiar que mentiu para mim.
- Um homem não deveria ditar que pensamentos uma mulher pode ter.
- Está certíssima, mas posso ajudar.
- Ajudar?
- Sim, com seus pensamentos. Veja bem, uma coisa é amar um amigo, um bom homem, alguém querido. Outra,é desejar tanto um homem, estar tão absurdamente enlouquecida de paixão, que não há outra escapatória senão amar.
- Como sei que estou apaixonada?
- Como sabe que não está?
- Achei que me ajudaria.
- Há certas perguntas que uma dama deve responder por si só.
- Então receio que esta dama esteja fadada à ignorância.
- Por que deseja ignorar ou por não possuir conhecimentos necessários?
- Por ambos.
- Permita-me ajudá-la mais uma vez, juro que não farei nada que não queira.
O homem aproximou-se de Claire lentamente, com uma graça admirável. Ela engoliu em seco, seu coração aceleroue ela atribuiu a irresponsabilidade - estava com medo de ser pega tão próxima a outro homem sozinha. Reparou agora mais próximo que ele tinha olhos azuis incrivelmente claros, como o céu no melhor dia do verão, e cabelos negros. Ela sentiu um cheiro amadeirado vindo dele, a chamando, e fechou os olhos. Claire percebeu um hálito quente em sua orelha, o homem puxou todo o ar como se inalasse o seu cheiro. Em seguida, uma mão em sua nuca, dedos massageando a pele exposta em seu pescoço. Algo molhou sua bochecha e estalou na outra e ela identificou como um beijo. A próxima sensação que se apoderou do seu corpo foi calor, seu corpo mais próximo do que já esteve em toda sua vida de outro homem. Ela abriu os olhos lentamente e o viu de olhos fechado e a puxando em sua direção, ficou petrificada na mesma hora, ele a beijaria?
- Peça que eu me afaste. - A desafiou. - Vamos Claire, peça. Peça que ele se afaste, esbofeteei o meu rosto e suma desse jardim, comporte-se como uma dama, há poucas horas esteve aqui com seu noivo.
O desconhecido abriu os olhos e ia afastando-se ela.
- Não lembro de ter pedido que se afastasse.
- Não, não pediu.
E então aconteceu. Aconteceu e ela ficou horrorizada, maravilhosamente horrorizada. Ele se apoderou de sua boca de um modo diferente, recebera menos que uma dúzia de beijos em sua vida. Mas o homem era paciente, e gentil, sua caricia tornou-se delicada para que ela pudesse acompanhar, ritmo acertado e ela ousou corresponder diretamente a língua que invadia sua boca. Claire ficou escandalizada ao ouvir-se gemer, e deliciada ao ouvi-lo gemer. Chega! Era hora de parar, ela colocou a mão entre eles e o empurrou, em seguida foi como a mão certeira em sua face para dar o que merecia, mas ele era ágil e previu o gesto, segurando seu pulso.
- Senhorita, não pediu que me afastasse, não me condene.
- Não, para ser justa eu me condenarei também. Estou noiva!
- Acho que não deveria estar.
Ele pontuou a frase com um giro e ia saindo.
- Espere! Quem é você?
- Alguém que você não gostará de conhecer, e que não lhe fará nenhum bem como já foi provado. Devo pedir que não passe seus dias pensando em mim, mas gostaria que um ou dois de seus pensamentos impuros fossem destinados a esse momento. Adeus senhorita.
E assim ele foi. Claire levou as mãos ao estômago, estava revirado. Tirou as luvas e checou a testa, suava frio. Por fim, temeu verificar seu coração, mas não precisava, ele pulava tanto que poderia sair andando, havia uma outra sensação, algo pulsando no meio de suas pernas, algo que nunca em toda sua vida percebeu. Aquele homem devolveu e adicionou sensações a Claire, era como um relojoeiro, consertando o quebrado e melhorando o ultrapassado, seja quem fosse, sentiu que deveria agradecer a ele, agora sabia
que ainda tinha emoções, só não tinha certeza se por seu noivo.
Mais tarde naquela noite, após tantas revelações, Claire percebeu um burburinho pelo salão, de braços dados com Gabriel ela viu que o motivo dos comentários era Marina sua prima, que sim compareceu ao baile porque Claire implorou. Não havia reparado ainda em Felicity Cavendish, que estava por perto. Imediatamente correu com Gabriel para socorrer Mary e seu coração parou quando viu o homem que estava ao seu lado. Maldito seja! O canalha era um nobre?
- Gabriel, permita-me apresentar minha prima Marina e seu...
- Meu grande amigo, Lorde Daniel, visconde de Beker.
- Visconde?! - Claire quase gritou. - Daniel aproximou- se dela e segurou sua mão.
- É um prazer, Lorde Kahn. E imagino que essa senhorita deva ser... - Respondeu o homem.
- Lady Claire Montogomery, noiva de lorde Kahn. - Claire se apresentou
- Ora, que curioso, vejo que é algo de muito orgulho.
- Não entendi.
- Nada querida Lady Marina.
Felicity Cavendish passou pelo grupo e trombou em Marina, fazendo-a quase cair sobre Gabriel.
- Prima, e futuro primo, compareci apenas para parabenizá-los pelo compromisso, não me sinto muito bem, acho que devo..
- Não deveria tolerar tais coisas. - Gabriel se pronunciou.
- Não tolero, amo estar na sociedade londrina tanto quanto a sociedade me ama.
- Então somos dois querida, e é por isso que devemos nos retirar. Permita-me parabenizá-los também, por uma decisão tão acertada.
Um aceno ou dois e o ex relojoeiro tinha virado um nobre próspero e conhecido que guardava um grande segredo que poderia arruinar Claire e seu casamento. Ela ficou ansiosa, mas não por medo das revelações, ela ansiou vê-lo de novo, beijá-lo de novo, sentir todas aquelas emoções era viciante, e ela certamente tinha se viciado no homem errado, só poderia rezar, encher sua mente com pais nossos, e ave- marias, até que só restasse Gabriel, seu noivo, o homem certo.