Por Khalid Shall
Corro para a frente da fazenda, faço um sinal para que três homens me acompanhem e dirijo a toda velocidade.
— Algum problema, senhor? — um deles pergunta.
— Sim — respondo de forma áspera, e ele se cala imediatamente.
Os pensamentos dançam em minha mente em completo descompasso. Preciso esfriar a cabeça para não fazer besteira. Domine-se, Khalid! Me repreendo.
Paro na frente da grande casa, sem a menor paciência para manobrar e estacionar o carro, entrego a chave para um dos homens e salto imediatamente.
Respiro fundo e entro na casa, perguntando a Filipe, um dos meus colaboradores mais antigos, em que pé etavam as coisas.
— Chegaram dois caras carregando uma moça. Disseram que o senhor havia dado a ordem para trazê-la para cá. Eu ia ligar para confirmar, mas um deles disse que o senhor estava resolvendo um assunto delicado e que eu deveria aguardar. — O rapaz respondeu, mas a expressão nos seus olhos não era boa.
— Onde eles estão? — perguntei, sentindo a bile subindo na garganta.
— Lá nos fundos, no último cômodo à direita.
Viro-me para os três homens que vieram comigo.
— Cubram todas as entradas. Ninguém entra ou sai sem a minha autorização! — ordeno, e dou-lhe as costas.
Os homens se afastam, e eu me voltei para Filipe.
— Você vem comigo!
— Senhor, desculpe por eu não ter avisado. Eu não sabia que...
— EM SILÊNCIO! — grito. O controle a qual tanto prezava havia se esvaido de mim.
Inferno! Como ponho minhas ideias em ordem com Filipe tagarelando? Praguejo mentalmente.
Um homem está colado junto à porta do cômodo onde Anne está. O outro ainda não vi.
— Quem é você? — pergunto, aproximando-me do homem.
— Lucas. E você? — ele fala num tom pouco amistoso. A arrogância estampada em seus modos extravagantes.
Encaro-o com frieza e respondo:
— Khalid Shall.
O homem estremece, posso sentir isso em seu olhar. Fico ligeiramente satisfeito.
— S-Sr. Khalid Shall? — Ele gagueja.
Aceno lentamente com a cabeça.
— Me entregue as armas. Ela é apenas uma criança. Você não vai precisar disso aqui!
O homem, receoso, me entrega as duas armas.
— Filipe, revista ele! — ordeno e me direciono para o outro homem, que, percebendo a situação, vem até nós com a arma em punho.
— ABAIXE ISSO! — falo alto.
— Abaixe, Léo. Ele é Khalid Shall! Khalid, o árabe! — O colega o alerta.
— Sr. Khalid, trabalhamos para o Kléber. Não sabíamos que o senhor ia aparecer por aqui — Leonardo fala, completamente confuso.
— Esta é a minha casa e aqui, armados, apenas eu e meus homens! — fico contente que minha fama seja grande por aqui. Isso me poupa um imenso trabalho.
Leonardo rapidamente me entrega suas duas armas e uma faca pequena. Ainda assim, peço que Filipe o reviste também.
Finalmente, terminadas as apresentações, digo aos homens que fiquem à vontade para conhecer a casa, e eles logo se afastam.
Dou um breve sorriso e mando Filipe buscar uma venda e uma algema.
— Eu vou entrar, entra a prenda bem e coloque a venda nos olhos dela, certifique-se de que ela não poderá me ver.
— Sim, senhor.
Ele volta rapidamente, entra no cômodo, e, de fora, posso ouvir a voz miúda de Anne, murmurar algo indecifrável. Não demora muito e ele sai.
— Senhor, ela já está amarrada. Então, apenas coloquei a venda.
— Certo. Fique de olho nos meus convidados. — aviso, e ele se retira para cumprir a ordem.
Espero Filipe sumir das minhas vistas para poder entrar no cômodo.
Ela é mais magra do que imaginei, e, amarrada daquela forma, parece tão... vulnerável. Que pena que não posso ver o azul de seus olhos. Ando ao redor dela, analisando seu corpo convidativo. A vontade de tocá-la é imensa. Ela geme, e eu saio do meu estado de transe. Sabe Deus por quanto tempo esses animais a deixaram amarrada assim. Ela deve estar com dor, ainda assim, não consigo evitar o pensamento de amarrá-la daquela forma para possuí-la como bem entender.
Afasto esses pensamentos absurdos da minha cabeça, pego uma faquinha pequena que carrego sempre comigo e delicadamente corto as cordas, segurando Anne junto a mim para que não caia.
Coloco suas mãos para trás e a algemo. Ela geme novamente, mas não posso correr o risco de que ela arranque a venda.
A conduzo para outro cômodo, um quarto de hóspedes, se é que posso chamá-lo assim. Aproximo-a da cama e mando que se sente. Ela obedece, e percebo como os músculos do seu corpo relaxam em contato com o colchão macio.
— Fique sentada aí. Em um instante eu volto para te soltar, e então você poderá descansar. Também vou mandar trazerem um café da manhã reforçado. Deve estar com muita fome, estou certo?
Ela não responde nada. Levanto-me e vou até a porta. Olho-a mais uma vez, e o meu coração aperta no peito.
— Não se levante daí, ou você pode se machucar! — aviso.
Ela continua imóvel. Saio, trancando a porta atrás de mim.
Peço para que Filipe entre no cômodo e retire as algemas e a venda dos olhos dela. Basta trancar a porta e tudo ficará bem.
Vou até a cozinha e preparo pessoalmente um café da manhã especial para a minha menina, a idéia de que ela seja minha, é como um veneno, não precisa de autorização para circular pelo corpo e dominar tudo.
Anne, era a minha menina. Ela apenas não sabia disso.
Preparei um café da manhã farto, não sabia quanto tempo exatamente ela estava sem se alimentar, e aquele corpo magrelo não possuía reserva energética, então não poupei nas frutas, pães diversos, geléias, queijos, enfim... tudo o que a minha hóspede tinha direito.
Precisa pensar rápido no que eu faria com Anne, ela podia estar presa em um cômodo na minha casa, mas eu estava preso pelas bolas. E isso era sem dúvida, um problema sério.