Armadilha

1229 Words
Por Khalid Shall Alexandre entra no meu escritório, afoito. — O carro está pronto, senhor. Já podemos partir. O Kléber já foi buscar o homem. — BATA NA PORTA ANTES DE ENTRAR! — enfatizo cada palavra. O nervosismo faz as pessoas deixarem os protocolos de lado, esquecerem o que aprenderam e cometerem erros. No meu trabalho, não se pode errar. "Seja senhor das suas emoções", recordo-me de um sermão que a Alcateia repetia diariamente. — Me desculpe, Sr. Khalid... — Me aguarde no carro. Já estou indo! Espero ele sair para me despedir de Anne. Não quero que ninguém saiba ainda sobre o meu contato com ela, até eu decidir o que vou fazer. Por enquanto, o meu único pensamento é colocá-la no meu colo e possuí-la até não aguentar mais. Pobre moça. Como uma ovelha caminhando para o matadouro, ela vem ao meu encontro. Não existe felicidade na escuridão da minha vida. Entro no carro, onde Alexandre me aguarda, e partimos para a fazenda reservada para os meus jogos. Gosto de ficar sozinho antes de tudo começar. Na fazenda, há muitos homens bem treinados à minha disposição. Peço para Alexandre me avisar quando o homem chegar e me retiro para um cômodo grande que arrumei exclusivamente para me preparar. Hoje vou precisar mais do que nunca, pois Anne está dominando os meus pensamentos. "Seja senhor das suas emoções", a frase volta à minha mente como um despertador irritante. Ligo o telão e ponho um vídeo que guardo exclusivamente para momentos como esse. Meu conselheiro na Alcatéia dizia se tratar de um vídeo motivacional e, de certa forma, não deixa de ser. Respiro fundo com o controle nas mãos. Aperto o play. Imagens terríveis aparecem na tela. Não importa quantas vezes eu as veja, sempre me causam o mesmo efeito. O ódio vai me invadindo de forma crescente, até não caber mais dentro de mim, e um grito do fundo da alma ecoa pelo ambiente. Última cena. Eu tinha um amigo, um único amigo, também soldado da Alcateia, Jafet. Ele era um pouco mais jovem do que eu. Veio para ser treinado pela Alcatéia aos doze anos, e foi muito difícil para ele entender que havia sido escolhido, que não havia volta quanto a isso. Ele não concordava com regra alguma e, para a Alcateia, obediência, lealdade e aceitação do chamado eram imprescindíveis. Jafet era castigado severamente e com frequência, então me aproximei dele e o fiz entender que, se ele não aceitasse logo a situação, apenas sofreria mais e, por fim, se tornaria um soldado muito pior. Aos poucos, ele foi se conformando. Ficamos muito amigos, até que certo dia o conselheiro chamou Jafet e eu: — Soldados, o que vocês são capazes de fazer em nome da Alcateia? — Tudo, senhor — respondemos imediatamente. Ele entregou uma arma para Jafet e disse: — Jafet, esta arma está carregada. Por ser o mais novo, lhe dou o privilégio de iniciar o jogo, mate Khalid Shall. — Não posso fazer isso , senhor... — Jafet respondeu, temeroso. — Você não entendeu o jogo, jovem rapaz. Se você atirar nele, ele morre, você vive. Se você não atirar, passarei a arma para a mão dele. Ele atira, você morre e ele vive. Jafet apenas balançava a cabeça, apavorado. O conselheiro prosseguiu: — Por fim, se ele não te matar, os dois morrem! Meu coração batia descompassado, não conseguia pensar em nada. Aquilo era um pesadelo, só podia ser. Jafet tentou muito, mas não conseguiu atirar em mim. Apenas olhou para o céu e disse: — Nos encontramos lá, amigo. Dito isso, ele me entregou a arma. O conselheiro falava o tempo todo, mas eu nada ouvia. Ainda não havia matado ninguém, aquela seria a minha primeira vez. Fechei os olhos e atirei. Eu não estava pronto para morrer naquele momento. Os outros soldados me aplaudiram, eu havia sobrevivido, mas o meu coração não. Ele foi esmigalhado naquele chão, naquela arena. — Soldado Shall, nunca tenha o seu coração batendo fora do seu corpo! — um soldado mais antigo me falou. — Eu não tenho mais um coração — respondi, firme. Foi ali que aprendi a mais dura lição da minha vida. Eu era um condenado. Qualquer pessoa que se aproximasse muito de mim morreria, pelas minhas mãos ou pelas da Alcateia. — Doce Anne, sinto muito. Mas, do meu jogo, você sairá muito machucada, e pelas minhas próprias mãos. --- Por Kléber Trevisan Recebi a ligação de Beatriz, avisando que o homem estava indo vê-la em seu apartamento. Peguei dois homens de minha confiança e seguimos para lá. Ficamos em uma van em frente ao prédio, esperando a confirmação de Beatriz para entrarmos. Ela iria dopá-lo. Marcos ficou na van observando o movimento na rua. Francisco e eu entramos no prédio, rendemos o porteiro e seguimos para a sala de segurança. Francisco cuidaria de apagar as imagens das câmeras de monitoramento, enquanto eu subiria para o apartamento, que estaria destrancado. Colocaria uma algema no homem e o levaria para o Sr. Shall, tudo muito rápido, sem incrementar muito, como nos planos do Khalid, mas tão eficaz quanto. Chegou a mensagem de Beatriz. Podemos subir. Rapidamente subi para o apartamento de Beatriz. A porta estava aberta, como combinado. Entrei na sala e não vi ninguém. Ouvi o barulho do chuveiro ligado... Tem algo errado aqui. Verifiquei o quarto, não tinha ninguém. Na cozinha, havia uma champanhe em um balde com gelo, e só. — Bia! — o homem chamou. Droga! Ela não está aqui. Ela mentiu. — Beatriz! — o homem tornou a chamar. Segui para o banheiro com a arma engatilhada. — Mas o que está acontecendo? — o homem falou, aterrorizado. — Quietinho, na boa — fiz sinal para que ele ficasse onde estava. Joguei uma toalha em sua direção e, sob a mira da minha arma, o conduzi para o quarto, ordenando que se vestisse. — Onde está a Bia? — ele perguntou, tremendo da cabeça aos pés. — Calado! — eu faço as perguntas por aqui. Enquanto o homem tentava se vestir, liguei para Francisco. — A vagabunda não está aqui — disse, furioso. — Qualquer sinal dela, me avise imediatamente! Não esperei resposta e desliguei o telefone. — Para de enrolar ou te arrasto pelado daqui! — gritei com o homem e lhe dei um soco que o derrubou no chão. Ele lutou para se pôr de pé novamente. Meu celular tocou. — Ferrou! A polícia cercou o local. Caímos em uma armadilha! — Marcos gritou apavorado do outro lado da linha. — Inferno, filho da pu-ta — praguejei e comecei a chutar o homem, que se encolheu todo no canto do quarto. — O que você quer de mim? Eu tenho dinheiro, eu tenho muito dinheiro... Podemos conversar. Não precisa disso. — Calado, desgraçado. Vocês armaram para nós e vão pagar caro por isso! — Dei-lhe uma coronhada na cabeça, e o homem apagou. Liguei para Francisco e mandei ele subir, trazendo o porteiro e o segurança. — Amarrem os homens! — ordenei assim que ele entrou. Peguei o celular de Francisco. Provavelmente, o meu já estava grampeado. — Lucas! Pegue alguns homens e vá buscá-la. Vou te enviar o endereço de onde ela está e para onde irá levá-la. Mate quem entrar na frente. — Pode deixar, chefe. — Vamos iniciar o plano B!
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