Por Antônio Rocha
Anne nunca entenderá o motivo de toda essa minha preocupação com ela. Eu não suportaria que algo acontecesse à minha filha. Embora eu seja um delegado muito respeitado e já tenha salvado muitas pessoas, uma das pessoas mais importantes da minha vida eu não consegui salvar. Minha doce esposa foi brutalmente assassinada por um grupo de loucos, maníacos, estuprado-res, sórdidos, sem coração.
Estela era jovem, bonita e com um futuro promissor pela frente. Era estudante de jornalismo, muito popular e simpática com todos à sua volta, o que facilitou a aproximação de um monstro que arruinou nossas vidas.
Roberto se aproximou de Estela se aproveitando da sua fragilidade. Ela havia acabado de voltar para a faculdade porque ficou um semestre fora para ter nossa filha e estava completamente desapontada comigo, como marido e como pai.
Eu não dei atenção a ela durante a gravidez, não estava pronto para ser pai e a queria apenas como mulher, não como mãe.
Quando ela disse que estava grávida, fiquei revoltado. Comecei a dizer que ficaria trabalhando até muito tarde, mas, na verdade, saía todas as noites para me divertir com outras mulheres.
Quando nossa filha nasceu, contratamos uma babá para ajudá-la a cuidar de Anne e para que ela pudesse voltar para a faculdade.
Ela estava feliz em ser mãe, e eu continuava chegando muito tarde em casa, desfrutando das minhas diversões noturnas.
Roberto descobriu minha infidelidade e contou para ela, mostrando fotos da babá de Anne comigo.
Estela ficou arrasada, largou as fotos que Roberto havia mostrado sobre a nossa cama e aceitou o convite dele para ir a um bar, para se distrair um pouco.
Foi fácil demais atraí-la para uma armadilha.
Roberto a dopou e, junto com mais quatro amigos, a levou para uma construção abandonada. Ela foi abusada e torturada por minha causa. Tudo foi registrado por uma câmera de celular. Eles fizeram isso com ela para me atingir, porque, em um confronto com traficantes, eu havia matado o irmão de Roberto.
Fico me perguntando quem foi o pior monstro nessa história toda, o Roberto, que se aproximou de Estela se passando por amigo para matá-la? Ou eu, seu marido, a pessoa que deveria tê-la protegido?
Se eu fosse mais presente, certamente saberia da aproximação de Roberto e acabaria com ele antes que ele pensasse em encostar um dedo na minha mulher.
Eu negligenciei completamente a segurança de Estela e não cometerei o mesmo erro com Anne.
Anne não sabe a verdade sobre a morte da mãe porque fui um covarde. Como vou dizer para minha filha que a mãe morreu por minha causa? Na época, a história foi abafada tanto quanto possível.
Quando me informaram que Hélio Júnior estava dentro da minha casa com Anne, uma dor antiga voltou a atingir meu peito. Peguei meu carro e dirigi o mais rápido que pude para casa. Liguei inúmeras vezes para Selma, mas o telefone caía direto na caixa postal. Fui o caminho todo me perguntando de quem eu arrancaria o couro primeiro.
Ao chegar em casa e ver aquele maldito em cima da minha filha, eu queria matá-lo imediatamente, mas me controlei. Jamais faria isso na frente de Anne.
Mandei que ela fosse para o quarto e bati no rapaz o suficiente para ele não me esquecer nunca mais enquanto viver.
Ainda pouco satisfeito, fui atrás de Selma, que descansava em seu quarto devido a uma forte enxaqueca.
— Se algo acontecer com Anne, vou colocar na sua conta! — gritei, ameaçando-a.
— Mas o que aconteceu, Sr. Rocha? — a mulher perguntou, desesperada.
— Você saberia se estivesse acordada, atenta a tudo que acontece com Anne!
— O que aconteceu com Anne? Deixa eu ir cuidar da minha menina...
— Da Anne agora cuido eu. Você fica no seu quarto até segunda ordem!
Selma se encolheu. Tentou questionar, mas desistiu.
Segui para o meu quarto na vã tentativa de relaxar um pouco. Onde Anne estava com a cabeça ao colocar aquele mau-caráter do Hélio Júnior dentro da nossa casa? Espero que a surra que ele levou seja suficiente. Ainda assim, deixarei alguém na cola dele para garantir que se mantenha afastado.
Isabela me ligou convidando para jantarmos. Ela é uma boa moça, muito bonita e educada, mas as mulheres com as quais me relaciono ultimamente são apenas aventuras passageiras.
Cuidar da segurança de Anne é minha única e exclusiva prioridade.
Prometi a Isabela que mais tarde passarei na casa dela, mas antes tenho algo a fazer. Mais alguém merece um bom corretivo para aprender a não se expor dessa forma.
Bater em Anne é a tarefa mais difícil, mas ela precisa aprender a temer as consequências dos seus atos.
Sinceramente, espero estar agindo corretamente com a minha filha!
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Por Khalid Shall
— O Brasil é um lugar muito bonito, com belas mulheres! — ouço Kléber tagarelar ao meu lado, no carro que nos leva para a casa onde ficarei, um lugar reservado em Brasília.
Observo toda a casa. É ampla, com diversas saídas e sem vizinhos, localizada numa estrada rural que dá fácil acesso à cidade.
Vim para o Brasil em missão. Algumas ações serão realizadas em outras cidades, mas o alvo principal está em Brasília, motivo pelo qual optei por ficar aqui.
A missão consiste em derrubar alguns nomes poderosos do país. A Alcateia quer mostrar o tamanho do nosso poder à nação brasileira, e, como soldado, vim para cá para fazer cumprir a vontade da Alcateia.
— Disponibilize três homens bem treinados para ficar aqui comigo. Hoje e amanhã vou descansar, depois daremos início ao trabalho.
— Sim, senhor — Kléber responde e se retira.
Sozinho, faço minhas preces para que, em tudo, a vontade do Ser Supremo prevaleça.
Não mato nenhum inocente. Inocentes são apenas as crianças. Os homens são desprezíveis, medíocres, hipócritas e egoístas. As mulheres escapam de mim, não por inocência, mas por fraqueza. São frágeis, não podem lutar comigo. Todos os que morrem pelas minhas mãos têm o direito de lutar pelas suas vidas.
Faço alguns ajustes na casa para que fique ao meu gosto. Quando estou quase terminando, Kléber retorna com três homens.
— Sr. Khalid Shall, é um imenso prazer trabalhar para o senhor — um dos homens me cumprimenta. — Alexandre, ao seu dispor!
Aceno com a cabeça, encaro-o e lhe estendo a mão. São nos olhos que enxergamos a verdade das pessoas. Pode-se mentir com a boca, mas jamais com o olhar.
Explico para os homens como será feita a segurança do local, o revezamento e a evacuação em caso de fuga emergencial. Sou detalhista no que faço, pois minha vida depende disso.
Sigo para o escritório. A lista e a ordem em que serão feitas as baixas já está pronta. Os dois últimos nomes requerem maior planejamento e astúcia.
O sistema no Brasil é fraco demais. É muito fácil invadir qualquer conta, descobrir qualquer informação. Parte da lista se resume a celebridades, cantores, atores, jogadores... são os alvos mais fáceis devido à exposição deles próprios na internet.
“O ego do ser humano cava sua própria cova!”
Gosto de pensar na vida e na morte, porque minha existência caminha numa linha tênue entre uma e outra.
Não entendo por que as pessoas se colocam em situações de risco por dinheiro, mulher, fama, beleza... Com a morte, tudo isso se vai. A humanidade deveria pensar mais nisso, só assim daria o devido valor à essência primordial que é a vida.
Você pode estar se perguntando por que arrisco minha vida em prol da vontade da Alcateia. Não é um risco. Cresci sendo treinado e preparado para fazer isso, para obter êxito em todas as missões. Se eu morrer, será porque o Ser Supremo quis assim, porque completei meu ciclo na Terra. Não tenho nenhum pedaço de mim fora do meu corpo, por isso sou inteiro em minhas missões. Por isso obtenho sucesso sobre os meus inimigos.