CAPÍTULO 02

2160 Words
Meia hora depois, quando finalmente saiu da última tenda dos curandeiros, Argon percebeu que um pequeno alvoroço fluía através das barracas, e só depois de ver os enormes estandartes próximos ao centro do acampamento, naquele espaço sem barracas aí no meio, que ele percebeu o que estava acontecendo: o rei havia chegado, e com toda certeza estava alí junto com eles. Enquanto andava de volta para o centro daquela pequena multidão de homens, o general escutou alguns sussurros e cochichos sobre o nobre que havia chegado (A maioria deles não podiam ser chamados de coisas agradáveis). Apesar de ser respeitado pela sua posição, o rei Érato não possuía a confiança e a camaradagem que Argon tinha com seus homens, embora fosse generoso e arcasse com todos os custos de todas as expedições e batalhas. Argon sabia que isso não passava da obrigação do homem como rei, mas estava um pouco aliviado por o nobre está usando o dinheiro arrecadado com os impostos para algo realmente importante e não simplesmente estivesse colocando tudo nos seus cofres pessoais. O general simplesmente ignorou todos os comentários maldosos que ouviu, até porque se fosse comprar briga com todos que estivessem falando m*l do rei, metade do seu exército estaria incluso. Além disso, respeito era algo que poderia ser cobrado, confiança definitivamente não. Talvez se Érato comparecesse à pelo menos alguns batalhas e lutasse junto com seus próprios homens, isso sim o faria obter a confiança do seu próprio povo, mas sempre que Argon sugeria casualmente que o rei fizesse isso, a ideia era rapidamente descartada. O general sabia que Érato era medroso o suficiente para sequer considerar a ideia, além de que para alguém que viveu sua vida toda nadando em riquezas, era um pouco difícil sujar as mãos de sangue e empunhar uma espada em prol dos seus ideais. O homem se surpreendeu ao perceber que no pouco período de tempo que havia ficado na tenda dos feridos, haviam montado um pequeno palanque de madeira no centro do acampamento, onde o rei estava falando com os seus homens (embora não obtivesse a atenção de muitos deles, porque a maioria estava interessada apenas no vinho e na cerveja). O rei abriu um sorriso largo ao avistar Argon, que sabia muito bem que aquele não era um sorriso de amigo para amigo, mas sim um sorriso que dizia "ah! Olha alí a única pessoa que consegue manter meu exércitos unidos e que não posso perder de jeito nenhum porque meu reino colapsaria!". — Argon! Junte-se à nós, general! — Exclamou Érato, chamando-o com um aceno de mão. O rei era apenas alguns poucos anos mais velho que o general, apesar de não ter músculos como um soldado por ficar trancafiado no castelo metade do tempo, e na outra metade do tempo, quando fazia excursões externas, ficava sentado naquele trono, exatamente como agora. Érato era o que tinha a pele mais clara de todos que estavam ali, devido à falta de sol para recobrar a melanina natural. E mesmo ficando meses sem ver a luz do sol, Érato não era exatamente branco, mas sim de um moreno claro meio anêmico. — Majestade. — Argon se curvou à uns dois metros de distância, mostrando um pouco de respeito e fazendo questão de que seus homens vissem aquilo. O general franziu o cenho e lançou um rápido olhar para os seis guardas postados ao redor do trono do rei, três de cada lado. Argon já havia advertido aquela prática uma dúzia de vezes. Levar guardas para protegê-lo do seu próprio exército era algo que não demonstrava o mínimo de confiança, não que Érato se importasse com isso, pelo visto. Todos os outros soldados estavam ao redor do palanque improvisado, formando um meio círculo e deixando um espaço vazio de cerca de vinte metros na frente dele. Como sempre era de costume, a tarde após ganharem mais uma batalha era cheia de comemorações e jogos. Todos os soldados preferiam participar quando apenas Argon estava presente para lidera-los, mas apesar de receosos, todos participavam quando o rei estava presente porque ele trazia consigo os melhores prêmios, sejam riquezas ou títulos. — Vamos começar os jogos! — Exclamou Érato, indicando para que alguns dos homens começassem a montar os alvos da prova de pontaria com a lança. Os alvos eram três grandes círculos verticais de feno compactado, colocados em três distâncias diferentes, do mais perto para o mais longe, além de serem pintados com anéis coloridos dispostos uns sobre os outros que iam mudando de cor à medida que se aproximavam do centro (que era pintado de vermelho). Cada participante tinha direito à três lançamentos, e os melhores de cada rodada competiam entre si à medida que os alvos iriam ficando mais longes e mais difíceis, até sobrar apenas um vitorioso. Apenas algumas poucas dezenas de soldados se coluntariávam à participar, porque aqueles que não eram bons o suficiente com o lançamento de uma lança se mantinham fora dessa rodada para não serem envergonhados em frente ao rei e a Argon. Não haveria graça alguma se o general participasse de todos os jogos, pois isso faria que ele ganhasse todos os prêmios, mesmo não precisando de mais nada (e os seus homens eram orgulhosos o suficiente para não aceitarem o prêmio caso Argon dissesse que não queria e para que fossem dados ao segundo lugar). Enquanto o primeiro jogo começava, o general aproveitou para tirar a armadura pesada que estava vestido e coloca-la encostada em uma árvore perto das barracas. Ele conhecia cada um dos seus homens bem o suficiente para dizer que não havia nenhum ladrão ou curioso que mexesse nas coisas dos outros. Vestindo apenas a túnica, mas ainda com a espada embanhada ao lado do corpo, Argon retornou para onde os jogos estavam acontecendo e observou com orgulho as habilidades dos seus homens. Aqueles que não eram bons de mira, tinha força sobrehumana, os que não eram fortes, eram absurdamente inteligentes e estrategistas, e aqueles que não tinham nenhuma habilidade física eram corajosos e destemidos o suficiente para também deixarem o general orgulhoso. Argon observou com calma e satisfação o primeiro jogo se desenrolar na sua frente nos minutos seguintes. O primeiro vitorioso foi um soldado esguio e alto, que havia um rosto anguloso e uma pele morena escura semelhante à do general. O seu prêmio foi uma pequena bolsa de linho cheia de ouro, que fazia o sorriso do soldado se alargar à cada tintilar das moedas lá dentro. — Agora será tiro com o arco. — Exclamou Érato, jogando uma bolsinha de ouro idêntica à primeira para o alto e pegando-a logo em seguida, fazendo o barulho metálico das moedas de ouro lá dentro batendo umas nas outras ecoarem pelo acampamento. O rei gostava de motivar os soldados à participarem dos jogos mostrando o prêmio que iriam ganhar antes. Argon observou os arqueiros da linha de frente disputarem o próximo jogo. Todos os outros soldados ficavam em completo silêncio enquanto os arqueiros se concentravam para atirar, apostando baixinho entre eles para ver quem iria ganhar e urrando de felicidade quando aquele em quem tinham apostado estava se saindo bem. Os jogos serviam para amenizar o clima pesado depois das batalhas, que mesmo que sempre terminassem em vitória, não apagava de modo algum as baixas e as dores dos feridos. Argon cruzou os braços e lembrou de Evander e os vários outros feridos que estavam na tenda dos curandeiros à menos de cem metros de distância de onde todos os outros estavam agora, eles provavelmente estavam ouvindo os gritos de vitória e os sons dos jogos que estavam acontecendo logo do lado de fora, enquanto sentiam dor e não ganhavam dinheiro algum, apesar de terem quase sacrificado as suas vidas. O general já havia tentado convencer Érato à dar um valor mensal para aqueles que se feriam em campo de batalha e para a família dos que haviam perdido a vida, mas a ideia também havia sido recusada. As horas iam se passando à medida que os jogos aconteciam um à um, até que finalmente haviam chegado nas lutas, que definitivamente era o mais esperado por todos. O jogo justamente o que o nome sugeria: uma luta simples e limpa, sem qualquer tipo de arma à não ser os próprios punhos. A disputa acabava quando um dos oponentes estava imobilizado ou desistia, e ao contrário de todos os outros jogos que tinham dezenas de oponentes, poucas pessoas participavam do último, porque nenhum dos soldados queria ser derrotado na frente de todo o exército. E além disso, a luta era o jogo que mais tinha apostas e o maior prêmio. Todos estavam apreensivos e esperavam o rei anunciar qual seria o prêmio para aquele jogo. — O prêmio da rodada será um escravo. Garanto à vocês que será a beldade mais linda e delicada que já viram em todas as suas vidas, senhores. Ele tem dezoito anos e virgem, treinado por anos para satisfazer tudo que seu dono desejar. — Explicou o rei, deixando Argon um pouco enjoado. Tanto Arlant quando Arandônia ainda eram reinos escravocratas, apesar de estarem deixando essas práticas para trás rapidamente. Os escravos deveriam ser bem tratados, alimentados e viver no conforto da casa dos seus mestres, dando-lhe total submissão e sendo agraciados com riquezas e carinho. Pelo menos alí em Arlant era dessa forma. As coisas em Arandônia eram diferentes (da pior maneira possível). Os soldados que deram um passo para à frente para participar do jogo eram incrivelmente musculosos. Haviam oito deles, que depois da primeira rodada seriam apenas quatro, depois dois, depois um. A questão era que o último que restava ainda não seria o ganhador, ele teria que desafiar alguém da multidão para ser o seu último oponente, para só assim ganhar o prêmio final. Todos observaram as lutas de desenrolarem dentro daquele meio círculo na hora seguinte, até que por fim restou apenas Pollux, um soltado n***o incrivelmente musculoso, que já estava todo suado e sujo de terra. Argon lembrou-se que ele era responsável por causar brigas e motins no exército, então sentiu uma súbita pena de quem quer que fosse o escravo que seria dado à ele. Pollux olhou ao redor com um sorriso largo, ele sabia que já havia ganhado a batalha e que poderia simplesmente escolher um soldado franzino que não sabia lutar, mas aquele último desafio tinha um propósito específico. Ele servia para fazer a fama do soldado decair ou ser alavancada de maneira desproporcional. Se Pollux escolhesse um soldado fraco, ele seria caçoado por um bom tempo por ser medroso, não importava se ele já havia ganhado todas as outras lutas ou não. Mas se ele escolhesse um soldado conhecido por ser absurdamente forte e mesmo assim ganhasse dele, aí sim seria venerado. O olhar do soldado focou rapidamente nos rostos de cada um dos homens perto do limite da arena improvisada, antes dele abrir um sorriso largo e dar meia-volta. O olhar de Pollux encontrou o do general por um milissegundo, então Argon sabia exatamente o que iria acontecer logo em seguida, embora desejasse com toda força que estivesse errado. Pollux se curvou exageradamente para a frente, antes de prosseguir: — Se me der a honra, gostaria de desafiar o senhor, Majestade. — Disse ele, olhando para o rei Érato. Um burburinho imenso começou entre os outros soldados, que apostavam sobre o que iria acontecer logo em seguida. Argon sabia justamente o que Pollux queria com aquilo, rebaixar Érato e crescer em cima disso. Se o rei por um milagre aceitasse o desafio, Pollux iria destroça-lo em questão de segundos, e se negasse, a credibilidade de Érato entre os soldados despencaria mais ainda. Pollux ganharia o escravo dos dois jeitos, além de que poderia ter a oportunidade de ser o soldado conhecido como o homem que acabou com o rei, ou o homem corajoso o suficiente para desafiar Érato e fazê-lo correr com o r**o entre as pernas. — Eu? — Érato abriu um sorriso amarelo, tentando esconder o nervosismo. Ele era inteligente o suficiente para saber o que estava se desenrolando logo ali, e qual o propósito de tudo aquilo. — Isso, meu rei. Se me der a honra. — O sorriso de Pollux de alargou ainda mais com a falsa demonstração de respeito. O general sabia que a maioria dos soldados ali estavam do lado de Pollux, pois também não gostavam do rei. — Não vou lutar com você, soldado. Mas escolherei o meu próprio campeão para fazer isso. — O rei disse, por fim, lançando um olhar para Argon praticamente com sangue nos olhos, como se dissesse "Destrua esse homem". O general soltou um suspiro longo, sabendo que negar faria o rei se rebaixar mais ainda. Argon flexionou os punhos e deu um passo para a frente, ignorando o burburinho entre os soldados e focando diretamente no rosto de Pollux, que estava repleto de surpresa e um pouco de medo.
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