Quinze segundos.
Demorou exatos quinze segundos após anunciarem o começo da luta para Argon ganha-la. Demoraria muito menos se ele não estivesse à vários passos de distância do seu oponente. Pollux tentou lhe dar um soco certeiro e nocautea-lo de primeira assim que o general entrou no limite do seu alcance, mas ele desviou facilmente, agarrou o pescoço do soldado e o lançou no chão com toda força que tinha, fazendo-o cair de costas com um baque surdo tão forte que levantou uma nuvem de poeira, além de fazê-lo perder completamente o fôlego. Pollux tentou sair do aperto do general, mas foi rapidamente imobilizado, enquanto Argon apertava ainda mais a sua traquéia e agarrava os seus braços com facilidade, colocando o joelho em cima deles.
Argon ficou com um pouco de pena do homem e disse a si mesmo que deveria ter esperado pelo menos um minuto antes de derrota-lo, mas Pollux precisava aprender à não desafiar seus superiores na frente de um exército inteiro. Ser um bom guerreiro não significava apenas ter habilidades com uma espada ou com os punhos, exigia também respeito e pelo menos um pingo de autopreservação, coisa que pelo visto o rapaz não tinha. Os efeitos da sua ousadia durariam por longas semanas.
Pollux grunhiu de dor, mas não abriu a boca para dizer que se rendia (o que o faria ser solto imediatamente), mas ele sabia que já havia perdido a luta, pois estava completamente imobilizado. Argon apreciou o fato de outro não se render, então afrouxou o aperto na sua traquéia, embora continuasse com a mão ao redor do pescoço suado de Pollux, sentindo a sua pulsação através da pele.
O resto da multidão que os assistia estava praticamente rugindo em comemoração, pois adoravam ver o seu líder em ação. Argon sabia que a maioria havia perdido dinheiro por ter apostado antes de Érato declarar que ele era quem lutaria contra Pollux, mas todos estavam tão imersos na luta que havia acabado de acontecer que m*l ligavam para isso.
— Hoje todo o vinho e a cerveja será por conta do rei! Vocês vão estar liberados das suas tarefas por dois dias. — Exclamou Érato, fazendo os homens rugirem com ainda mais vigor, apesar de que o rei definitivamente não iria comprar a confiança e o respeito dos seus exércitos com bebida. A multidão começou a se espalhar rapidamente, como se fosse um enxame de abelhas se dispersando.
Argon saiu de cima do soldado e estendeu a mão para ele. A princípio Pollux parecia que não iria aceitar a mão estendida do seu chefe, então Argon agarrou o braço do homem e o levantou bruscamente mesmo assim, sem tempo para besteiras ou desavenças depois da batalha sangrenta que haviam lutado no mesmo dia. Ele deu batidinhas nas costas do soldado e começou a andar em direção ao forte, cumprimentando todos os soldados que iam falar com ele.
Todos estavam felizes por estarem livres dos treinamentos por dois dias inteiros. A maioria deles iam passar esse tempo dormindo e bebendo. Alguns iriam procurar fodas na cidade, enquanto outros que tinham parceiros alí no acampamento simplesmente iriam passar horas dentro das suas próprias barracas fodendo igual malucos. Era bastante frequente soldados se tornarem amantes depois de tantos meses convivendo juntos. 1/3 de todos os homens ali tinham parceiros no exército, e mesmo que não tivessem um relacionamento fixo, juntavam-se para aliviar o seu t***o juntos e compartilhavam a cama.
Já estava anoitecendo quando Argon começou a andar de volta para a enorme fortaleza de pedra, logo depois de deixar um dos servos reais encarregado de lavar e polir sua armadura (ele mesmo gostava de fazer isso para se certificar que o serviço havia sido feito com excelência, mas estava sem tempo naquele momento). Ele precisaria de um longo banho e de roupas limpas antes de finalmente ir encontrar a rei. O general também estava com fome, mas isso poderia esperar para outra hora.
[•••]
Já eram quase oito horas da noite quando Argon finalmente entrou no enorme salão onde o rei estava pacientemente esperando por ele. Completamente limpo e com roupas leves, o homem se sentia bastante revigorado, apesar dos seus músculos cansados protestarem à cada passo dado, mas pelo menos ele já havia se livrado de todo o sangue seco que havia debaixo das suas unhas e da camada meio nojenta de suor e fuligem que havia sobre a sua pele.
Havia uma mesa larga repleta de comidas requintadas no centro do salão, apesar de apenas o rei Érato estar sentado à ela (com seus habituais guardas logo à dois passos de distância). Argon observou aquela quantidade completamente absurda de comida e tentou não franzir as sobrancelhas numa expressão de desgosto, lembrando das rações sem gostos e sopas insossas que os soldados do seu exército comiam durante meses.
— Não fique aí parado, Argon. Sente-se. — Chamou o rei, claramente de bom-humor enquanto comia praticamente metade de um frango assado inteiro. O general caminhou até a mesa em passos silenciosos e tranquilos, sentando-se à três cadeiras de distância do outro homem. Ele lançou um olhar de esguelha para os guardas reais, que possuíam expressões entediadas e um tanto inexpressivas. Eles aparentavam ter uma idade não muito longe da do próprio Argon, alguns anos mais velhos do que a maioria dos soldados tinha.
O general começou a colocar comida no seu próprio prato, evitando coisas doces e optando por carnes e frutas.
— Então, como foi a última batalha? — Quis saber o rei, embora não olhasse para Argon e continuasse encarando o próprio prato. O general constatou que para um homem magrelo e que não fazia atividades físicas, Érato comia a mesma quantidade que dez dos melhores soldados do seu exército comeriam depois de passassem quatro dias sem colocar sequer um gole de água na boca. Metade do seu prato estava cheio de ossos limpos de costeletas de porco e coxas de galinha, enquanto a outra era uma confusão de restos meio comidos. Argon desviou o olhar e tentou ignorar os sons que o rei fazia enquanto comia. Ele era um guerreiro experiente e já havia visto homens sendo esvicerados e destroçados com uma espada, mas nada o deixava mais enjoado do que ver aquele "nobre" comendo.
— Rápida e limpa. Tivemos poucas baixas e acabamos com cerca de dois terços daquele batalhão. — Argon disse, com orgulho. Ele sabia que os exércitos de Arandônia poderiam chegar à cerca de cem mil soldados, mas mesmo aquela sendo apenas mais uma das inúmeras batalhas que aconteciam durante um ano, de batalha em batalha eles estavam progredindo.
— Bom. — Essa foi a única coisa que o nobre disse, antes de voltar toda sua atenção para a comida (não que ele tivesse à movido totalmente para o general).
Apesar de estar com vontade de alertar o rei sobre como os seus comportamentos vergonhosos estavam virando chacota em meio aos soldados, Argon não abriu a boca e proferiu as palavras, não querendo gastar saliva com avisos que definitivamente não seriam levados em conta no final. O general engoliu as alfinetadas sobre os guardas, sobre o fato do rei sequer conseguir erguer uma espada ou estar não presente em alguma batalha. Ele lembrou-se como o príncipe mais velho de Arandônia sempre estava presente em todos os embates, lutando e cuidando da parte estratégica.
— precisamos de cerca de três mil armaduras novas. — Argon disse, comendo sua própria comida de forma calma, sentindo aquela sensação de vazio deixar gradativamente seu estômago. Ele estava tão acostumado com a comida sem sabor das últimas semanas que não conseguiu evitar a surpresa quando o gosto bom explodiu na sua boca.
— Três mil?! Acho que não temos dinheiro suficiente para isso agora. — Exclamou o rei, fazendo o general parar no meio do movimento de levar uma garfada até a boca, surpreso e irritado ao mesmo tempo.
— Você deu certa de trinta quilos de moedas de ouro hoje à tarde. — Rosnou Argon, fechando os punhos debaixo da mesa. Não que ele achasse que as premiações dos jogos deveriam se extinguir, mas os armamentos e armaduras definitivamente deveriam ser mais importantes e colocadas em primeiro plano, e enquanto via aquela quantidade de dinheiro escorrendo para fora dos cofres do reino como água escorrendo por uma cachoeira, Argon pressupôs que havia dinheiro de sobra para cuidar das coisas importantes também.
— Eram as premiações dos jogos, general. Acho que vocês podem usar as armaduras dos mortos enquanto não conseguimos o dinheiro para comprar outras.
— Dos... Mortos? — Argon ficou zonzo de raiva. Como assim as armaduras dos mortos?!
— Sim, as...
— Acredito que se os donos delas estão MORTOS, isso significa que elas estão completamente danificadas por corta dos golpes de espada que MATARAM os meus soldados. — Exclamou Argon, sua visão ficando levemente embaçada de raiva enquanto ele lembrava do pandemônio sombrio que era aquela primeira hora depois de uma batalha, onde o exército inteiro recolhia os corpos do mortos completamente destroçados e ajudava a levar os feridos. Eles precisavam tirar todos os restos das armaduras dos corpos ainda quentes e sangrentos dos homens com quem estavam rindo poucas horas antes. Cada um dos soldados eram queimados em piras separadas para trazer pelo menos um pouco de dignidade para os que haviam perdido a vida durante a batalha e honra-los com os ritos fúnebres.
— E o quer você quer que eu faça, Argon? Eu posso aumentar os impostos, assim você terá suas armaduras o quanto antes. — Érato deu de ombros, feliz com a ideia.
— Não, Isso não. Você poderia começar parando de gastar o dinheiro público como anda fazendo, parar de comprar besteiras, não construir mais castelos e ser um bom rei para o seu povo. — Argon levantou da cadeira, não querendo mais continuar aquela conversa.
— Não estou gastando com com besteira, Argon...
— Ah não? E como explica a gigantesca estátua de bronze que estão fazendo no centro da capital com o seu rosto? — Argon alfinetou. Semanas atrás quando havia ouvido de alguns comerciantes que passavam pelo acampamento que o rei estava estava construindo uma estátua para si mesmo. No começo Argon ficou completamente incrédulo com aquilo, mas resolveu não dar importância porque como achava até pouco tempo atrás, o reino tinha dinheiro de sobra.
— A estátua é em homenagem à mim...
— Estátuas são feitas para honrar os deuses e bravos guerreiros que morreram para proteger os seus reinos, e eu tenho certeza que você não é nenhuma dessas coisas, principalmente se levarmos em conta que nunca pisou em um campo de batalha. — Argon o cortou rapidamente, praticamente espumando de irritação, empurrando a cadeira para debaixo da mesa e fazendo menção de se afastar.
— Cuidado com como você fala com o seu rei, General. — disse Érato, ainda sorrindo, apesar da ameaça está presente implícita na frase.
— Cuidado? — Argon riu, m*l-humorado. — Estou tentando colocar juízo na sua cabeça! Sem mim esse exército não passaria de um bando de homens querendo depor você! Esse reino voltaria para o domínio de Arandônia em questão de semanas.
— Generais são facilmente substituídos, Argon. — O rei disse, parando de comer daquela forma nojenta por um milagre divino. ele ergueu o olhar e encarou Argon, que encarou de volta em desafio.
— Reis também são, vossa excelência. E se você não olhar por onde pisa, não haverá pessoa nessa terra ou divindade no olimpo que impedirá você de ser arrancado daquele maldito trono e morto logo em seguida.
— I-isso é uma...
— Não. Não é uma ameaça. É um aviso. Aqueles milhares de homens acampando lá fora podem ser do mesmo reino que você, mas eles não lhe devem absolutamente nada, não devem gratidão, admiração ou gentileza. As pessoas podem não demostrar, mas a maioria acha você um fraco, um homem que precisa da ajuda dos servos até para levantar de uma cadeira. — Completou o general, antes de começar a andar em direção a saída do corredor.
— Argon, como você ousa... — Começou o rei, mas a sua voz se perdeu no meio do caminho a medida que o general continuou andando pelo corredor, sem conseguir esconder a sua raiva. Ele estava preocupado com o bem estar e os armamentos dos seus homens, embora sequer ligasse para as discussões irritantes que tinha vez ou outra com Érato. Promessas e ameaças vazias eram as coisas que ele mais ouvia sair da boca do rei.