O vento frio açoita meu rosto enquanto ando pelas sujas e lamacentas. Pequenos flocos de neve já estão começando a despencar, fazendo piruetas ao ritmo da brisa gélida.
Minhas roupas puídas não são o suficiente para barrar o frio, mas ignoro isso, assim como ignoro a lama que entra por alguns buracos nas minhas botas velhas e encharca meus pés.
Há poucos humanos no meu campo de visão, e a maioria são bêbados ou prostitutas, o que é perfeitamente normal, considerando que já passam das 12:00. Enfio as mãos nos bolsos da velha calça de linho e checo se minhas orelhas estão escondidas sob o capuz, antes de começar a andar em direção a uma taberna, de onde ecoa gritos, risadas altas e uma melodia muito, mais muito desafinada.
Há um sujeito grandalhão na entrada, com os braços cruzados sobre a pança que a camisa desabotoada revela. Não é uma coisa muito atrativa de se ver, principalmente se você der atenção aos restos de comida grudados em tudo que é canto.
— identificação.— ele diz, colocando o braço pesado na porta a barrando minha entrada. Sua voz é meio estridente e ele está claramente bêbado, e apesar disso, não estou disposto a tentar alguma coisa, pois o cara é imenso se comparado a mim.
Tiro o velho pedaço de papel do bolso e estendo para ele. Na folha há meu suposto "nome", assim como uma descrição detalhada na qual deveria ter tudo sobre mim.
O rei começou a exigir essa "identificação" depois de alguns incidentes com os habitantes da floresta n***a.
— não entendo para que tudo isso. — digo, enquanto o cara analisa minha identificação (que agora é necessária para a entrada em praticamente todo lugar). O olhar dele recai sobre mim, analisando minha estatura.
— fadas não podem mentir. E podemos pegá-las no pulo fazendo algumas perguntas sobre isso. — ele explica, apontando para o papel e me fazendo engolir em seco. Isso infelizmente é uma das sinas dos feéricos, impedidos por uma força invisível de irem contra a verdade, mas felizmente, eles (nós, de certa forma) conseguirmos facilmente contornar isso depois de muito treinamento.
— verdade. — murmuro, embora minha voz não passe muito ânimo.
— hum. — o homem me analisa, com desconfiança, e apesar do frio, já sinto uma gota solitária de suor escorrer pela minha têmpora. Ele estende o papel para mim, enquanto prossegue: — essa identificação é sua, certo?
— Sim. — digo rapidamente. A verdade flui pelos meus lábios com facilidade. Eu comprei. Então ela é minha.
— Certo. E você é humano?
— óbvio que sou. — as palavras saem com um pouco mais dificuldade dessa vez, mas isso também é verdade. Eu sou 1/4 humano. Então isso deve valer alguma coisa.
— pode entrar, então. — ele tira o braço da porta e sinaliza para que eu entre, mesmo que a sua expressão ainda seja de desconfiança. Confirmo com o rosto e começo a andar para dentro.
O barulho alto me envolve assim que coloco os pés dentro da taberna, assim como uma onda de calor, vindo das duas lareiras acesas em cantos opostos. Uma perto do balcão, onde uma mulher enche canecas grandes de cerveja; e outra perto de uma escada que leva para o segundo andar.
Tento desviar de um sujeito que cambaleia em direção a saída, totalmente bêbado e molhado de suor, mas ele esbarra no meu ombro, me fazendo checar rapidamente se o capuz ainda cobre minha cabeça.
Olho de relance para a garçonete loira que se inclina sobre um dos homens para encher o copo dele de cerveja barata. O decote dela é tão baixo que acho que a qualquer momento os p****s dela vão saltar para fora e bater na cara dele.
A minha audição sobrehumana faz a música desafinada ficar ainda mais insuportável, e mesmo tentando ignorar ao máximo possível, ainda é irritante.
Vou até o balcão e sento em uma das cadeiras altas e duras, então olho para as inúmeras garrafas de cerveja e outras bebidas da prateleira da parede, a uns dois metros de distância.
— vai querer alguma coisa, querido?— a mulher morena, que provavelmente tem uns trinta anos, pergunta enquanto coloco coloca uma caneca na minha frente.
— Não, obrigado. — respondo, encarando disfarçadamente a borda da caneca m*l lavada, onde alguma coisa verde e escura está grudada e escorre para dentro. Isso é... Catarro??
— que pena. Temos a melhor cerveja artesanal da cidade, querido. — a mulher dá de ombros, mas continua me encarando e tentando espiar por debaixo do meu capuz, que apesar de mostrar uns 70% do meu rosto, esconde a cor do meu cabelo e meus olhos.
— vocês tem quartos para alugar lá em cima? — aponto para a escada perto da lareira, por cima dos ombros.
— sim. — ela solta um suspiro rápido, antes de continuar: — quatro moedas de bronze por dia.
— vou querer um quarto, então. — digo, procurando nos bolsos da calça pelo dinheiro.
Grana está escassa, mas ainda tenho cinco moedas de prata; nove de bronze e uma de ouro (para emergências).
Coloco as moedas de bronze sobre o balcão, e um milissegundo depois, a mulher as recolhe e guarda em algum bolso oculto no vestido volumoso e encardido.
Ela pega uma chave grande e enferrujada de um chaveiro grande e redondo preso na parede e a estende para mim.
— último quarto do corredor.
— obrigado. — pego a chave e pulo do banco, batendo na b***a para tirar a poeira (não que vá fazer diferença, já que estou tão sujo e encardido quanto qualquer pessoa aqui).
— vai querer companhia? duas moedas de prata. — pergunta ela, apontando para as três moças sentadas lado a lado perto da lareira.
— não. — murmuro, caminhando em direção as escadas rapidamente.
***
Há sal grosso entre as frestas da velha porta de madeira do quarto, assim como entalhes em madeira de freixo. Isso me faz querer rir. Porque os humanos são tão ignorantes a esse ponto quando se trata das fadas?
Madeira de freixo. Sal grosso. Areia de cemitério. Ferro. Crucifixos. Água benta. Dentes de cadáveres. Runas de proteção. Flechas de salgueiro. Penas de corujas sujas de sangue... Absolutamente nada disso é eficaz ou causa algum enfeito em nós, mas pelo menos servem para nos manter escondidos quando estamos entre os humanos.
Destranco a porta pesada, a chave de ferro é absurdamente fria contra minha mão, mas não de um jeito sobrenatural que iria me repelir.
O quarto está m*l iluminado, mas consigo ver uma velha cama de solteiro no canto do quarto, com um lençol puído dobrado de forma desajeitada sobre ela.
Fecho a porta atrás de mim e praticamente corro até a cama, deitando sobre ela de qualquer jeito e não ligando para os rangidos que ela faz ou os grãos de poeira por todos os lados.
Amanhã.
Amanhã será um novo dia e posso pensar com mais calma como tocar minha vida daqui para frente.