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Argon não precisou do cavalo para ir até onde queria, e enquanto caminhava, flashes do dia e da noite anterior assolavam a sua mente repetidas e repetidas vezes, fazendo-o se sentir como nunca antes. Seus dedos estavam trêmulos com o esforço para segurar aquela maldita espada durante horas e horas seguidas, matando, destroçando, se defendendo... O seu corpo inteiro estava protestando sem parar, mas ele sequer ligava para isso. Aquela não havia sido a batalha mais difícil que ele já havia lutado, mas foi a que o deixou mais revoltado.
Lembranças do pandemônio que foi aquela maldita luta ficavam indo e voltando, fazendo-o cerrar os punhos enquanto caminhava entre as barracas. Arlant ganhou e fez com que os Arandônianos restantes fugissem como o bando de covardes que eram, como sempre acontecia. Os inimigos estavam maior número, mas os Arlantianos sempre foram superiores fisicamente e em treinamento de batalha, e mesmo que só tivessem metade do exército de Arandônia em quantidade, cada soldado valia por três daqueles malditos. A questão era que apenas poucos tinham armas e armaduras adequadas. Os arqueiros não tinham flechas suficientes; os soldados estavam não com armaduras boas o suficiente para impedir golpes (fora aqueles que sequer tinham uma armadura), além de que as espadas estavam desgastadas e eram facilmente quebradas.
Argon viu metade dos seus homens ser dizimada em um piscar de olhos, sejam por flechas, lanças ou por covardes que lutavam em grupo contra um só homem. Os números não estavam à favor de Arlant, mas eles ganharam aquela maldita batalha com perseverança e ódio, fazendo cada um daqueles malditos de verde e dourado sofrer.
A pior parte definitivamente foi ao amanhecer, quando a batalha havia acabado e eles precisavam ajudar os feridos e fazer piras para os mortos. Arandônia era tão covarde que ao fugir deixavam até os seus feridos para trás, e esses eram mortos sem piedade alguma. A cidade naquele momento não passava de um lugar fantasmagórico, onde as poucas pessoas que resolveram não fugir quando viram os exércitos inimigos foram mortas sem motivo algum. Argon ordenou que cada Arlantiano morto, seja do exército ou cidadão daquela cidade, fossem velados corretamente. Cada corpo iria ser queimado em uma pira individual, levasse o tempo que fosse para conseguir a lenha necessária. O general mandou tirarem os telhados de algumas casas destruídas para usar as vigas de madeira como lenha, além de as piras fossem feitas nas dunas, onde a areia quente iria acelerar a queima.
Arandônianos foram queimados numa imensa fogueira. Eles não mereciam uma pira unitária, além de não terem qualquer tipo de ritual fúnebre. Só seriam queimados para não deixar m*l cheiro ou ossos putrefatos espalhados pela cidade.
Agenor e Kavinsk foram responsáveis por contar quantas baixas haviam no exército e nos civis da cidade, e o número era a coisa que mais tinha assustado Argon. Cerca de oitocentos soldados morreram (pouco menos da metade de todo o batalhão) e trezentos e cinquenta civis.
Mais de mil mortes em poucas horas. A crueldade da verdade fazia a visão periférica de Argon embaçar de tanto ódio enquanto andava pelo acampamento, tendo total ciência de que estava sendo seguido por aquelas centenas de soldados. Ele estava se sentindo tão imundo quanto aparentava estar, com sangue seco dos inimigos, suor e sujeira espalhados por cada centímetro da sua pele exposta.
Assim que chegou até a gigantesca tenda em que aquele maldito rei estava, o homem saiu de lá de dentro, como se pressentisse a chegada de Argon. Ele já não estava mais mancando, apesar de visivelmente estar sentindo dor onde Argon o havia socado.
— Argon, você vai ser desligado do meu exército. Não será mais general, e deveria me agradecer por não mandar enforcar você por ter tocado em mim. — Disse Érato, dando um passo para a frente. Da tenda saíram cerca de vinte guardas com espadas desembanhadas
— Expulso do seu exército? — Argon riu. Uma risada rouca e cheia de ódio ecoou pelo ar, enquanto ele desembanhava a própria espada. Ele pretendia destruir cada um daqueles vinte soldados sozinho.
— Sim. Eu sou o rei dessa terra. — Érato cruzou os braços, fazendo Argon rir com mais vontade ainda, dando um passo para frente e fazendo o outro homem dar um passo para trás rapidamente. Ele Abriu a boca para dizer alguma coisa, mas o burburinho do batalhão ao redor de onde estavam começou a ficar mais alto. As centenas de homens que estavam vendo aquilo começaram a desembanhar suas próprias espadas também, com puro ódio presente nos seus rostos sujos.
— VOCÊ NUNCA FOI NOSSO REI!!
— ....SEU MERDINHA i****a!!
— ...NOSSOS HOMENS MORRERAM POR SUA CAUSA!!
— MATEM ELE!! — uma onda imensa de protestos assolou o acampamento, enquanto os homens tentavam avançar com as espadas em punho para acabar com Érato eles mesmos, mas todos os soldados pararam no lugar e foram silenciados com um simples aceno de mão de Argon, que observou os vinte guardas reais quebrarem a formação e deixarem Érato sozinho. Eles claramente não queriam enfrentar um exército inteiro por causa daquele almofadinha arrogante.
A expressão de Érato era uma mistura de fúria e medo, enquanto ele percebia que o exército e todo o reino estavam contra ele.
— E-eu... Eu sou o rei!! E ordeno para que acabem com esse homen!! — Rosnou ele, apontando para Argon.
— Você não é digno de ser rei, Érato. Nunca foi. Nós suportamos esse seu desgoverno durante anos porque apesar de bagunçado, as coisas estavam fluindo. Mas agora esse reino está decaindo à cada dia. — O General deu mais um passo para frente, girando o cabo da espada entre as mãos e saboreando a sensação e o peso reconfortante. Suas mãos tinham calos em cada um dos locais onde o cabo da espada pegava com mais força enquanto desferia golpes certeiros, onde a pele havia sido aberta e cicatrizada mais forte várias vezes.
— E o que você vai fazer? Me matar? — Desafiou Érato, erguendo o queixo.
— Sim. É exatamente isso que vou fazer. — O comandante deu de ombros, alternando o olhar entre a lâmina afiada e longa nas suas mãos e os olhos escuros daquele homem asqueroso e anêmico que um dia teve a desonra de servir.
— O-o que?! E quem vai governar depois de mim? — A expressão de Érato passou de desafiadora para puramente assustada. Até poucos segundos atrás ele não acreditava que Argon faria aquilo.
— Não importa, desde que não seja mais você! — Rosnou Argon. Ele lançou um olhar para cada um dos guardas que antes protegiam o rei, dando um recado silencioso de que se movessem um músculo, eles seriam os próximos a enfrentar a sua espada.
— E-eu sou o último da linhagem real!!
— Agradecemos todo santo dia por isso. Podemos começar outra linhagem à qualquer momento. É sempre assim que acontece, não é?
— V-você não pode...
— Mas vou te dar a oportunidade para um duelo. Se você se mostrar digno, continuará vivo. — Explicou Argon, antes de lançar um olhar para Kavinsk, que retirou a própria espada da bainha e a jogou para a frente, fazendo-a cair aos pés de Érato. O homem alterou o olhar entre a lâmina aos seus pés e Argon, que esperava pacientemente ele pegá-la como um homem de verdade faria para ter uma morte digna.
— Eu não vou lutar com você, seu ogro imundo. Eu sou o rei! — Rosnou ele.
— Já que é assim, adeus, Érato. — Argou deu de ombros e avançou com aquela velocidade sobrenatural, enfiando a espada no peito do homem, mirando certeiramente no coração. Ela não encontrou a resistência de nenhum osso, pois Argon sabia fazer com que a lâmina passasse perfeitamente entre as costelas, perfurando a carne como se fosse manteiga. Érato não teve tempo para ficar surpreso com a ação ou sentir dor, ele já estava morto antes mesmo de desabar contra a areia quente das dunas, fazendo a exageradamente grande coroa de ouro que estava na sua cabeça rolar pelo chão e parar a pouco mais de um metro dos pés de Argon.
O general puxou espada ensanguentada do peito do homem e desferiu uma sequência de golpes naquele objeto de ouro aos seus pés, destroçando-o por completo em questão de segundos. Ele tinha total ciência de que todo o seu exército estava observando cada movimento que ele fazia, com um silêncio completamente sobrenatural. Argon girou num ângulo de 180° graus e encarou seus próprios homens, que encaravam de volta com admiração e respeito.
— VIVA À ARLANT!! — Os soldados começaram a gritar à plenos pulmões, erguendo o punho em vitória. — VIDA LONGA A ARGON!! VIVA AO NOSSO NOVO REI!!
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Ícarus não conseguiu chegar perto de toda a movimentação no centro do acampamento porque os próprios soldados estavam desferindo cotoveladas e empurrões uns nos outros para tentar chegarem mais próximo da tenda do rei, que havia sido montada no dentro daquela área vazia que os soldados usavam para treinar. Ícarus não conseguiria chegar até lá, mas ouvia os urros de vitória e satisfação dos soldados, que gritavam para Argon em respeito e admiração. Ele não conseguia ver absurdamente nada, mas pelas conversas, Ícarus sabia muito bem o que estava acontecendo.
Ele estava prestes a voltar para a tenda, até que a multidão de soldados começou a se separar, criando um caminho estreito e reto em direção ao centro da movimentação. Ícarus só percebeu que o caminho era para ele quando viu Argon o esperando pacientemente do outro lado, no fim daquele túnel de corpos, ainda vestindo sua armadura, completamente sujo e com uma espada sangrenta na mão direita.
Ícarus engoliu em seco e começou a caminhar rapidamente até lá, tentando conter a vergonha ao ser o foco da atenção de todos aqueles soldados. Não demorou muito até ele finalmente chegar onde Argon estava, à tempo de ver dois outros homens arrastarem um corpo para longe e sumirem de vista.
— E-entāo... Ouvi dizer que agora você vai ser o rei. — Ícarus disse, cruzando a pequena distância que o separava de Argon, que jogou a espada no chão e agarrou a cintura do mais novo, soltando um grunhido baixinho e apertando com força o tronco delicado de Ícarus, sentindo os seus dedos trêmulos e o seu próprio corpo extremamente cansado.
— Talvez. Mas há muitas coisas para resolver agora, não vamos pensar nisso tão cedo. — Respondeu Argon, observando Ícarus ficar na ponta dos pés e dar um beijinho nos seus lábios, encarando-o com aqueles olhos luminosos e esverdeados. Os dois estavam pouco se importando em estarem sendo observados por aquelas centenas de homens.
— V-você está definitivamente precisando de um bom banho. — Ícarus disse, ficando na ponta dos pés novamente para dar outro beijo no mais velho.
— É, preciso mesmo. — Argon riu e deixou Ícarus agarrar a sua mão e o conduzir em direção a tenda deles, onde iria pegar algumas coisas e levar o seu homem para riacho e lhe dar um belo banho. Os soldados abrigam caminho novamente enquanto Ícarus o puxava para longe dali, ainda gritando para o general.
— VIDA LONGA AO NOVO REI!! VIVA A ARLANT!!
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