CAPÍTULO 14

2158 Words
[•••] Não houve tempo para despedidas longas, discursos ou qualquer outra coisa do tipo, porque afinal, não havia tempo para isso. As cidades estavam sendo atacadas naquele exato momento e o exército estava atrasado por horas, praticamente meio dia inteiro de viagem. — Promete que vai voltar? — Ícarus perguntou, tremendo de nervosismo enquanto abraçava o pescoço de Argon, que abraçava o seu corpo de volta com força, pressionando-o contra a sua armadura. — Você sabe que vou, Baby. — Respondeu ele, beijando os lábios delicados do mais jovem de forma tranquila. Ícarus sabia que se alguém tinha a chance de voltar são e salvo, essa pessoa definitivamente seria o general, mas mesmo assim ele não deixou de ficar nervoso, imaginando que apesar de ser a pessoa mais habilidosa com uma espada ou com os punhos, isso não protegia Argon de bombas, flechas ou ataques coordenados. Ícarus queria continuar abraçando o general por mais um bom tempo, mas ele reconheceu que eles precisavam partir o quanto antes. O jovem observou Argon montar naquele enorme puro sangue preto, lançando-lhe um último olhar demorado, antes de começar a cavalgar pelas dunas, contornando a floresta e seguindo em direção a fronteira. O coração de Ícarus martelava sem parar enquanto ele observava o batalhão enorme seguir o general, que ia uns bons metros na frente. Eles eram uma massa preta e vermelha absurdamente veloz, pois não estavam carregando absolutamente nada à não ser suas armas, sem qualquer carroça ou suprimento. Várias outras pessoas haviam ficado no acampamento além de Ícarus (assim como o rei e seus homens, que foram levados para a tenda do monarca pouco tempo depois de ficarem agonizando no chão), mas ele não queria conversar com ninguém, pois nada iria acalmar a sensação de medo que fluía pelo seu corpo. O rapaz deitou na cama e começou a roer as unhas, tentando inutilmente não pensar na batalha. Ele achou que estava tão alterado daquela forma justamente por nunca ter estado tão próximo da guerra antes. Enquanto estava nos templos ou até mesmo naquele último mês alí no acampamento, Ícarus achou que poderia simplesmente ignorar isso, mas naquele momento havia sido retirado dos seus pensamentos e posto de volta na realidade da maneira mais brusca possível. Será que sempre era assim? Será que ele estava se preocupando à toa? Argon havia vivido aquela realidade durante décadas? Indo para as batalhas de cabeça erguida e sem saber se conseguiria voltar vivo ou com todos os membros no corpo? Soltando um longo suspiro, ele levantou da cama e começou a andar em direção a saída da tenda, pretendo procurar alguma coisa para fazer e ocupar a mente, pois ficar se remoendo pelos cantos completamente pessimista não era algo que Argon iria gostar de vê-lo fazendo. O jovem lembrou que sequer havia estendido as roupas que havia lavado antes, então pegou a cesta de bambu trançado e foi procurar algum lugar para estendê-las, soltando um grunhido de tristeza ao lembrar que iria passar a noite sozinho, enquanto o general lutava contra os inimigos. [•••] Depois de quase quatro horas de cavalgada sem parar por um segundo sequer, o batalhão de Argon finalmente havia chegado nas cidades. A primeira ainda estava à uns bons quinhentos metros de distância, e claramente ainda ocupada pelos Arandônianos. O lugar parecia estar um verdadeiro pandemônio, com focos de incêndio espalhados por toda parte, além de corpos de moradores e malditos soldados vestidos de Verde e dourado, com escudos e espadas. Argon praguejou alto e cravou os calcanhares com força nas laterais do seu cavalo, fazendo-o começar a correr com ainda mais velocidade do que estava antes. Kavinsk e Agenor estavam à apenas algum metros logo atrás dele, e todo o seu batalhão logo atrás deles também. Argon engoliu em seco e tentou controlar o ódio ao lembrar que boa parte daqueles homens não estava com armaduras e armas adequadas, e sim praticamente restos danificados. O general ficou bastante orgulhoso ao perceber que cada homem do seu exército havia ido lutar por seu reino, por seus territórios, mesmo que estivessem bastante despreparados. Com um simples olhar para Kavinsk e Agenor, ordens começaram a ser gritadas para o batalhão, que iria se dividir e atacar o inimigo dos dois lados. Argon iria liderar o grupo da esquerda, enquanto Kavinsk iria liderar o da direita. Aquela era uma técnica que Arlant usava muito, para conseguir acabar com o máximo de inimigos possível e m*l deixando margem para escaparem (mas quando tratava de Arandônianos, fugir eram uma das coisas que eles sabiam fazer de melhor). A noite cairia em pouco tempo, mas pelo menos a luz das cidades os dariam a chance de continuar massacrando aqueles desgraçados covardes, que com toda certeza já haviam percebido a presença do batalhão de Argon. O general desembanhou sua longa e pesada espada, se lançando nas ruas destruídas da cidade com um urro de fúria, pronto para destroçar cada um daqueles malditos invasões. Os seus homens se espalharam com rapidez pelas outras ruas e ruelas do lugar, enquanto gritos e sons metálicos de espada batendo contra espada ecoaram pelo lugar, e mesmo sem ver, ele sabia que o grupo de Kavinsk havia dado a volta na cidade para atacar por trás, encurralando todos eles e não dando a oportunidade de fugirem covardemente dalí, pois era justamente naquele lugar, naquele exato momento, que eles iriam pagar pelas atrocidades que haviam feito. Argon pulou do cavalo e o observou correr para longe, onde ficaria em segurança até o seu dono chamá-lo de volta. A atenção do comandante caiu diretamente sobre o soldado Arandôniano mais próximo, que segurava uma espada e estava o encarando com uma mistura de fúria e medo ao mesmo tempo. Como a maioria dos Arandônianos, aquele tinha pele e cabelos claros, além de uma estatura levemente menor que a dos Arlantianos. Argon avançou sobre aquele soldado com uma velocidade sobrenatural, acabando com a sua vida com um simples golpe certeiro e ponto para destroçar qualquer outro que aparecesse na sua frente. O general continuou lutando ferozmente no meio de todo aquele caos, ceifando um à um todos aqueles desgraçados, sentindo cada vez mais fúria à cada corpo de um cidadão inocente que ele avistava pelas ruas. Os minutos foram se passando e a noite fria foi caindo, mas nada poderia impedir Argon de continuar lutando, vendo alguns dos seus companheiros sendo mortos e vingando cada um deles com a sua própria espada. Ele não se importava se os cortes seriam limpos e as mortes seriam rápidas ou não. O general estava com tanto ódio e adrenalina correndo pelas veias que apreciava cada uma das expressões de dor e agonia dos inimigos, desejando que morressem o mais lentamente possível. [•••] Aquela foi definitivamente a noite mas longa de toda a vida de Ícarus, que rolava de um lado para o outro na cama e não conseguia pregar o olho por um segundo sequer, sentindo aquele silêncio sobrenatural do acampamento deserto se abater sobre ele. Cada minuto parecia ser uma hora, e cada hora parecia ser um mês inteiro. O cobertor quentinho de Argon já não parecia ser tão quentinho, e a tenda confortável já não parecia ser tão aconchegante como antes. Ícarus evitou sair da barraca porque apenas o rei e a sua pequena caravana, além de apenas alguns soldados que ele não conhecia, ainda estavam lá fora. Ao contrário de todos os outros dias, o jovem não acordou tarde, mas sim junto ao nascer do sol, que parecia ter sido uma eternidade depois que havia anoitecido. Ícarus grunhiu baixinho e tentou se acalmar, dizendo a si mesmo que ia ficar tudo bem e orando para qualquer deus que podesse atendê-lo. As horas se passavam tão lentamente quanto durante a noite, mas já passavam das quatro da tarde quando o rapaz começou a escutar um som alto reverberando pelas dunas de areia. O som do trotar de um cavalo. De centenas deles, na verdade. O coração de Ícarus deu um salto desenfreado quando ele pulou da cadeira em que estava sentado e começou a correr para fora da tenda, sem sequer calçar as próprias sandálias antes. Já do lado de fora, ele parou por um segundo para tentar descobrir de qual lado os sons estavam vindo, e depois de constatar que vinham da direita, ele começou a correr naquela direção por entre as barracas, que eram altas o suficiente para que ele não conseguisse ver absolutamente nada por cima delas de onde estava. Ícarus começou a fazer ziguezague entre as tendas até chegar em uma parte perto do limite do acampamento onde já conseguia ver a multidão de soldados se aproximando. Ele quase chorou de alívio ao ver os três primeiros homens cavalgando poucos metros à frente de todo o resto, e mais especificamente ao ver o maior e mais musculoso deles. O jovem ficou apreensivo ao ver que os soldados que estavam voltando eram bem menos do que os que haviam partido. Os que estava vendo agora não eram sequer metade daquela enorme multidão que havia saído. Ícarus soltou um suspiro quando o exército se aproximou o suficiente para que ele pudesse ver o rosto do general, que estava frio, duro e repleto de raiva. A armadura e seus braços estavam completamente cobertos de sangue seco, além de ele ter um pequeno corte na bochecha. Os outros soldados não estavam muito diferentes disso, todos estavam sujos de terra, lama, suor e sangue, além de bastante feridos e cansados. Kavinsk estava com o braço esquerdo preso em um apertado torniquete para estancar o sangue de um corte no antebraço. Ícarus se sentiu um e******o ao pensar que Argon iria voltar feliz da vida, com um sorriso de vitória no rosto, pegá-lo no colo e beijá-lo com força. Aquilo era a guerra, e mesmo que tivessem ganhado a batalha, isso jamais compensaria as vidas perdidas, que com certeza haviam sido muitas. Argon havia perdido mais da metade dos seus soldados daquele batalhão, homens com quem ele treinou e conviveu junto durante anos. Até Ícarus, que tinha ficado alí no acampamento por apenas um mês e havia conhecido só umas duas dúzias de homens, estava procurando rapidamente por rostos familiares. Ele não queria sequer pensar em como Argon estava se sentindo, ele que poderia dizer o nome de cada um daquelas centenas de homens, e que conhecia cada um deles. O jovem engoliu a onda de tristeza que assolou o seu corpo e começou a correr de volta por entre as barracas, não querendo ser pisoteado por centenas de cavalos quando o exército cruzasse a pequena distância que ainda os separava do acampamento (ele sabia que os soldados iriam desviar dele, mas isso não impediria um cavalo de lhe dar um coice). Ele resolveu que iria esperar perto da tenda de Argon, para onde provavelmente ele estava indo. Os pés de Ícarus estavam ardendo e queimando quando ele finalmente chegou até a tenda, pois a areia estava bastante quente, mesmo que ele cuidadosamente só corresse pelas sombras das barracas. O som dos cavalos se aproximando iam ficando mais altos a cada segundo, fazendo-o quase chorar de alívio, esperando na porta da tenda até Argon de aproximar. Ele quase chorou de alegria quando viu um enorme puro sangue preto se aproximar, trotando de forma rápida entre as barracas e indo diretamente até ele. O olhar de Argon se prendeu ao do jovem como se fosse dois imãs, fazendo as pernas de Ícarus fraquejarem de alívio por Argon ter voltado são e salvo de volta para ele. O rapaz observou enquanto Argon puxava os arreios do cavalo e o fazia parar quase que na sua frente, antes de descer dele com um pulo rápido e dar um passo na direção de Ícarus, ficando à pouco mais de um metro de distância dele. — A-argon. — O jovem gaguejou, dando um passo para e frente e se lançando nas braços do maior, pouco se importando se ele estava imundo, em uma confusão de lama, sangue seco e suor. — Oi, Ícarus. Disse que ia voltar, não foi? — Argon envolveu o corpo do menor com os seus braços, apertando-o com força e soltando um rosnado. Ícarus assentou levemente com a cabeça e se conteu para não chorar. Ele nunca tinha tido tanto medo da guerra como naquele momento, nem quando a sua cidade foi invadida quando ele era criança. Ele poderia ficar abraçando Argon pelo resto da sua vida, até ter certeza de que tudo aquilo era real, mas o general deu fim ao abraço gentilmente, segurando o queixo do mais jovem e o puxando um pouco para cima, fazendo Ícarus o encarar. — Eu preciso resolver algumas coisas agora, Baby. Volto em no máximo trinta minutos. — C-certo. — Confirmou o mais novo, embora não quisesse se separar de jeito nenhum de Argon. [•••]
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