CAPÍTULO 13

2099 Words
[•••] Depois de quatro semanas, as coisas no acampamento continuavam as mil maravilhas. Ícarus não lembrava de qualquer outro momento da sua vida em que estava tão feliz, mesmo que ele não tivesse tido momentos muitos felizes quando estava nos templos. Lá, cada dia era exatamente igual aos outros, monótonos e chatos exatamente do mesmo jeito. Já alí no acampamento, cada dia era divertido e diferente, e ele estava mais entrosado com todos os outros à cada dia passado. A pele pálida do rapaz assumiu um tom perolado e bronzeado, além de que seu cabelo claro assumiu um tom mais avermelhado e intenso por causa das horas no sol. Como cada soldado havia uma função distinta para ajudar o acampamento, Ícarus também ficou encarregado de uma função. Ele iria ajudar diariamente nas tendas que serviam de cozinha, para fazer o almoço e o jantar. Além disso, bastou apenas umas duas semanas no máximo para todos os soldados perceberam que ele não era mais um escravo, e sim um rapaz totalmente liberto que continuava com Argon porque queria isso, e não porque não tinha liberdade de decidir o que queria. Ícarus simplesmente adorava ajudar durante o dia e passar a noite transando com seu homem lindo. Os novos dias na sua vida faziam com que aqueles tempos em que ficava trancafiado em quartos ou templos serem deixados para trás. Ele era um homem livre agora. E o principal: estava bastante feliz. Naquele dia, já passava do meio-dia quando Ícarus estava terminando de lavar as suas roupas (Argon insistia em levar as próprias roupas, mesmo que o jovem se oferecesse para fazer isso todo santo dia. O general safado dizia que cada um tinha que lavar suas próprias roupas, então ele não iria deixar Ícarus lavar as suas também). O sol estava absurdamente quente enquanto o jovem lavava as suas túnicas, mas ele estava debaixo da sombra de uma frondosa árvore que havia nas margens do riacho, protegido do sol escaldante. O riacho era definitivamente um dos lugares favoritos de Ícarus, que poderia ficar alí dentro por horas se fosse possível. A água era fria e refrescante, além de que haviam vários peixinhos curiosos nadando por todos os lados (eles eram pequeninos o suficiente para não atrair a atenção de nenhum soldado, mas haviam faisões, perus selvagens e pombos aos montes dentro da floresta, então os guardas iam caça-los vez ou outra). Argon estava cuidando de algumas estratégias de batalha dentro da tenda, analisando os diversos mapas e fazendo cálculos sobre a quantidade de soldados e várias outras coisas. Haviam mensageiros que vinham uma vez por semana atualizar o general sobre como andavam as coisas nas outras fronteiras, e até aquele momento todas as tentativas de invasões haviam sido contidas e os exércitos inimigos tinham fugido depois de inúmeras baixas. Todos os soldados de Arlant ficavam absurdamente irritados com a ousadia dos Arandônianos em ultrapassar as fronteiras e a covardia deles de fugirem quando a coisa começava a ficar feia, pois eram medrosos o suficiente para não enfrentarem uma luta até o final sem baterem em retirada. Ícarus não sabia muito sobre a guerra ou os motivos seculares que eram o estopim dela. Ele sabia que tinha alguma coisa a ver com as fronteiras, mas se lembrava de que quando era criança e morava perto do território de Arandônia, as cidades e vilarejos dos dois reinos viviam em harmonia. Ele próprio, que havia morado em Arlant durante toda a sua vida, tinha um pouco de descendência de Arandônia, e isso era o que o fazia ter a pele um pouco mais pálida que a da maioria dos outros Arlantianos, que geralmente eram morenos e negros. O jovem tinha vontade de perguntar para Argon qual era o verdadeiro sentido daquilo tudo, mas não queria que o general pensasse que ele fosse burro. Tudo que ele sabia era que os dois reinos estavam disputando uma parcela do mesmo território e... Só isso. Depois de lavar todas as roupas e tomar um banho bastante demorado, sem qualquer pressa, Ícarus torceu toda a roupa para tirar o excesso de água, colocando-as de volta no cesto trançado e já começando a sair das margens do riacho, sequer se importando com o fato da sua túnica estar completamente encharcada (com aquele calor, ela secaria em no máximo uns quarenta minutos). O rapaz cumprimentou alguns soldados que estavam caminhando para o riacho (na direção contraía à que ele estava indo) com um aceno rápido, percebendo que eles estavam indo lavar suas próprias túnicas e as botas completamente sujas. Enquanto cruzava aquele pequeno trecho de floresta densa e verde, o jovem cantarolou baixinho uma das muitas músicas que havia aprendido com os outros escravos dos templos. As músicas variavam entre versões divertidas, românticas e tristes, e Ícarus sempre gostou das divertidas e engraçadas, que eram meio que piadas ritmadas. Alguns poucos minutos depois, quando ele finalmente chegou ao acampamento, percebeu que havia um enorme burburinho se espalhando pelo lugar, enquanto alguns soldados montavam outra tenda enorme, bem maior do que a do próprio Argon. Sem saber o que estava acontecendo, Ícarus tentou escutar alguma coisa vindo dos homens que estavam próximos a ele, apesar de sua estratégia não ter dado muito certo. Ele começou a andar em direção a tenda de Argon, mas parou assim que viu Agenor cruzar o seu caminho. — Hey, Agenor. O que tá acontecendo? — Perguntou ele, parando na frente do outro homem. — O rei acabou de chegar. — Explicou ele, nervosamente. — O rei? — Ícarus arregalou os olhos, pego de surpresa, assim como metade do exército. O que o rei faria alí sem qualquer aviso? O jovem buscou na memória tudo o que sabia sobre o rei. Ele era conhecido por ser um péssimo monarca, sem credibilidade, palavra ou coragem. O homem era basicamente uma mancha na linhagem real, um primo distante do último rei, que morreu misteriosamente junto com sua única filha. No começo todos acharam que poderia ter sido obra de Érato (o atual rei), mas o homem era burro o suficiente para não conseguir pensar nisso sozinho. Érato não tinha herdeiros, irmãos ou qualquer outra pessoa para suceder o seu legado (o povo de Arlant dava graças aos deuses por isso). Ícarus fez menção de continuar andando até a tenda de Argon, mas Agenor agarrou seu braço gentilmente assim que ele deu dois passos para a frente. — Ele está conversando com o rei lá dentro. Acho melhor você esperar um pouco. — Explicou Agenor, então Ícarus confirmou levemente com a cabeça. [•••] Argon fechou o punho com força ao redor do canto do mapa, pouco se importando se iria rasgar o papel frágil e amarelado ou não. Ele encarou Érato, que estava com um prato de comida nas mãos, completamente incrédulo. Os habituais guardas estavam logo à um passo atrás dele, e apesar de conseguir desarma-los em questão de segundos, vê-los fez Argon tentar se controlar para não estrangular aquele homem. — Deixa eu ver se eu entendi. Você não conseguiu as armaduras novas, nem as espadas, nem as alvajas dos arqueiros. — Grunhiu o general, pela terceira vez. — Acho que a idade está prejudicando você, Argon. Foi exatamente isso que eu disse das outras vezes. — O rei respondeu, fazendo Argon soltar um rosnado alto e apertar tanto a borda da mesa que os nós dos seus dedos ficam brancos. Já havia passado mais de um mês desde que ele havia mandado Érato providenciar o dinheiro para os novos armamentos, para naquele momento ele chegar alí sem absolutamente nada, apenas se empanturrando de besteiras e mastigando daquela forma que fazia Argon querer destruir o seu rosto com um soco, para assim ele ter motivos para comer de boca aberta. — E como diabos espera que a gente lute quando chegar nas fronteiras? — O general trincou os dentes, dando um passo na direção do rei, e fazendo os guardas darem um passo para a frente também, apesar de todos os quatro estarem receosos com a possibilidade de enfrentar Argon (e saírem bastante machucados no processo). — Como expliquei para você, use as armaduras dos mortos. — As armaduras dos que morreram ficaram no forte, para serem derretidas e o metal reaproveitado. — Argon estava tremendo de ódio, sentindo um arrepio sobrenaturalmente frio cruzar o seu corpo. Ele simplesmente não conseguia acreditar naquilo. Não conseguia saber se aquele desgraçado estava falando sério ou se tudo era só uma brincadeira de m*l gosto. — Então não coloque em mim a culpa por você ter deixado o armamento para trás, general. Eu sou o rei, disse o que fazer. Você não escutou o que eu disse, então a culpa é sua. — Érato deu de ombros, antes de comer outro pedaço do maldito bolo que provavelmente havia trazido junto consigo. — Se você não trouxe nossos armamentos, nem suprimentos, nem nada de útil, o que diabos está fazendo aqui no acampamento? — Vim supervisionar meu exército, não foi justamente você que disse pra eu ficar por dentro desses assuntos... — Érato continuou tagarelando, mas Argon parou de ouvir depois da primeira frase. — Seu exército, você disse? SEU exército? — A visão do general ficou levemente embaçada de tanto ódio. — Sim, meu... — Érato não conseguiu terminar a frase, pois Argon avançou sobre ele com uma velocidade sobrenatural e desferiu o soco mais forte que conseguia na barriga dele. O general queria destroçar o seu maxilar, mas não queria sujar os dedos com a saliva nojenta que estava praticamente babando pelos cantos dos lábios do outro. Um milissegundo depois do rei cair no chão rolando de dor e engasgando com a comida que estava na sua boca enquanto ele tentava recuperar o fôlego, os quatro guardas tentaram retirar as escadas das bainhas e atacar Argon, que avançou sobre eles rapidamente e os lançou com força no chão também, desferindo chutes não muito dignos de uma luta honrosa, mas ele estava com tanto ódio que sequer se importou com isso. Argon estava prestes a estrangular todos os cinco quando a porta da tenda foi bruscamente aberta e Kavinsk entrou por ela rapidamente, arfando sem parar como se tivesse corrido uma maratona. Argon deu um último soco no guarda que estava segurando pelo pescoço, antes de mover sua atenção para o seu segundo no comando, que sequer estava ligando para a cena que estava se desenrolando na sua frente. — G-general!! — Exclamou ele, enquanto Argon levantava do chão e ignorava totalmente os grunhidos de dor vindo dos homens caídos, o rei ainda estava rolando de um lado para o outro, gritando de dor, o que fez Argon querer lhe dar um chute forte apenas para a dor fazer jus aos seus gritos escandalosos. — O que foi, Kavinsk? — Perguntou Argon, dando dois passos na direção do outro homem e sentindo seu coração dar um salto desenfreado, pois sua mente já começou a criar os piores cenários, e na maioria deles alguma coisa de r**m havia acontecido com Ícarus, mas depois que o rapaz também surgiu na entrada da tenda com Agenor, o general soltou um suspiro. — A-Arandônia está invadindo duas cidades na fronteira!! Estão saqueando e matando as pessoas!! — Kavinsk explicou, fazendo a preocupação surgir novamente no rosto General. Ele fez cálculos mentais e constatou que só existiam duas cidades ali perto, e que demoraria no mínimo três horas de cavalgada até lá. — Como você sabe disso? Que horas a notícia chegou? — Um mensageiro acabou de chegar da cidade!! Eles precisavam de ajuda, senhor!! — Exclamou Agenor, enquanto a comoção fazia vários soldados se juntarem perto da tenda. Todos estavam com olhares preocupados, completamente focados em Argon, ignorando totalmente o rei e os outros homens caídos. — Selem os cavalos, vistam-se e se preparem. Nós vamos cavalgar até lá e lutar. — Disse o general, enquanto ondas de raiva irradiavam do seu corpo e eram praticamente palpáveis no ar. Agenor e Kavinsk assentiram firmemente com a cabeça, antes de correrem para fora da tenda. Todos os soldados que haviam escutado a ordem e as notícias que o mensageiro trouxe começaram a correr pelo acampamento, espalhando rapidamente para os outros homens o que estava acontecendo, fazendo as notícias chegarem até todas as centenas de homens em questão de segundos. Argon caminhou apressadamente até onde a sua armadura e a espada estavam, então Ícarus correu até ele para ajuda-lo com as fivelas, embora seus dedos estivessem trêmulos e ele claramente estivesse nervoso. [•••]
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