A água caía quente sobre a minha pele, mas nem de longe lavava os pensamentos que martelavam na minha cabeça. Eu, Murilo — ou o Naipe que todos conhecem — nunca fui de me perder em mulher. No morro, não tem espaço pra isso. Ou você é firme, ou vira alvo. Mas naquela noite, no meu banheiro, tudo que eu conseguia pensar era na Bianca. Fechei os olhos e vi o sorriso dela, doce, tímido, como se não tivesse noção do caos que carrego por dentro. A mão dela segurando meu braço mais cedo, o jeito que falou o meu nome verdadeiro… Murilo. Fazia anos que ninguém pronunciava isso, e quando ela falou, parecia que tinha arrancado uma parte minha que estava enterrada. Meu medo? Não era dela. Era do mundo em que eu vivo. Do risco. Do peso que carrego nos ombros. Bianca é luz, e eu sou sombra. E a sombr

