Kanahlic e a sua comitiva de feiticeiros estavam no extenso pátio da entrada do Castelo, exceto Azaryn, que saiu à procura de Valéria por ser a mais familiarizada com a Terra e com a região onde a Allogaj morava.
Primeiro, a esperada gigantesca Garça de Herón pousou diante de todos, ela tinha olhos verdes-neon e das suas penas emanava uma neblina que a deixava parcialmente esmaecida, o seu nome era Tardis e era uma Animacae das nuvens.
A Garça, do tamanho da tigresa Onarah — efeito da metamorfose causada pela magia — andou para mais perto do pessoal do Castelo e fez uma reverência.
— Saudações, Majestade, Rainha das Terras Encantadas do Reino de Ic, Filha de Ic, Filho do Grande Imperador Icobax. É uma honra conhecer um Rainha Tenecae, a magia das trevas sempre foi a minha fascinação e hoje sou uma das mais conhecidas criaturas das trevas deste mundo — a Garça tinha voz feminina, parecia-se uma Criatura Primeva, não fosse por as suas penas transbordarem abundantemente uma neblina.
— Animacae Tardis — disse Kanahlic. — Sou eu quem sinto-me tão honrada com a tua presença, obrigada por atender ao meu chamado. Então, o que me dizes deste céu?
Tardis olhou para o céu para depois responder à rainha:
— Eu não sei exatamente o que é isto, Majestade, está além da minha compreensão, mas eu acredito que posso resolver.
— Tens total liberdade, Garça.
— Então, deem-me licença Majestade, senhoras e senhores — Tardis fez outra reverência antes de levantar voo. Era hora de trabalhar.
Ela foi para o céu qual já estava a ficar crepuscular a tentar desfazer aquelas nuvens que tanto afligia aquele povo, ou pelo menos fazer com que chovesse para regar as plantas, encher os lagos e reabastecer os rios.
— Minha rainha, não será melhor entrarmos? Aqui fora não é tão seguro — sugeriu Legard, o líder dos Feiticeiros Luvas-de-Prata.
— Ainda não, Legard, Azaryn garantiu-me de que voltaria com a Audaxy e eu vou esperar bem aqui — rebateu a rainha.
— Mas eu tenho notícias.
— Pois diga-me.
— Foi muito difícil, mas finalmente conseguimos capturar o Gorgonopsid.
Kanahlic voltou-se para ele de maneira contente.
— Finalmente uma notícia boa. Onde ele está?
— Era muito perigoso trazê-lo para a cidade, então o aprisionamos no antigo cárcere longe dos limites do Reino, o que fora destruído por Durak e pelos meus traidores quando a facção caiu. Reforçamos uma sela para ela, a criatura é muito mortal, matou dois feiticeiros meus.
— Perfeito, e sinto muito pelos seus feiticeiros. Eu vou para lá amanhã, assim que a Audaxy aparecer faremos uma breve reunião, pois, quero aproveitar que a minha facção está completa novamente, mas eu não farei mais nada sem a Allogaj por perto. Os meus inimigos declararam guerra e a minha a**a principal não poderá ficar de fora.
— Afirmativo, Majestade — reverenciou Legard.
***
O céu estava crepuscular, já a escurecer.
A rainha Kanahlic, de pés descalços, mas com uma coroa qual resplandecia toda a sua Majestade, esperava de cabeça erguida na pátio do imenso Castelo de Ic. Confiava na sua comitiva de feiticeiros e feiticeiras.
Ela acreditava que tudo o que aconteceu foi devido ao fato de estar praticamente sozinha, mas o jogo começou a mudar. Acreditou que as coisas melhoraria para ela dali em diante.
De repetente, um vórtice de fumaça preta e centelha se formou a alguns metros de distância. Era a Azaryn, e ela correu para a sua rainha.
— E a Audaxy? — gritou Kanahlic antes que Azaryn chegasse mais perto.
— Está por vir — respondeu Azaryn eufórica.
Do céu, uma grandiosa nuvem preta em espiral e repleta de centelha formou-se do nada, depois a nuvem desceu em direção a elas e todo o pessoal que escoltava a rainha prontificou-se para protegê-la.
Assim que a criatura fumegante desceu, começou a andar na direção de Kanahlic e vários bastões foram apontados. A fumaça foi se dissipando até revelar apenas o rosto e o b***o de Valéria. Os seus olhos estavam completamente tomados pelas trevas, até as suas veias estavam pretas.
Valéria, a assustar a todos e todas que a assistiam, ficou parada diante da rainha. Estava irreconhecível.
— Audaxy? — perguntou Kanahlic para saber se a sua serva estava lúcida. Sim. Aquilo chamou a atenção da garota tomada pelas trevas, a rainha olhou para a barriga da jovem que já não estava mais como antes e demonstrou condolência. — O que houve com o bebê?
Aquela pegunta fez a garota se desabar. Primeiro, a rainha ordenou que todos e todas saíssem e as deixassem a sós. Depois, as trevas em Valéria se extinguiu, os seus olhos e as suas veias voltaram ao normal e ela desequilibrou-se.
A rainha apressou-se em abraçá-la, a garota que expressava ódio em seu rosto, mesmo assim, uma lágrima caía do seu olho direito. Kanahlic a vestiu com a sua capa real.
— Eu sofri um acidente, perdi o bebê — Valéria falou de maneira fria e objetiva, era inegável o ódio que sentia.
— Oh! Minha querida, eu sinto tanto a sua perda — Kanahlic a analisou por completo. — Vamos, vou te propor um dia muito especial. Vais tomar um banho de leite, comer o melhor deste Castelo, trocar estas roupas, vais rejuvenescer. Você se sentirá melhor. Eu tenho total certeza de que você terá outro filho e desta vez eu te garanto toda a segurança do mundo. Venha, você terá um momento só seu, o tempo que quiser para usufruir do seu luto. Te esperaremos o tempo que for necessário, pois, há algumas coisas que você precisa saber.
Enquanto a rainha levava a Valéria, lesada, para dentro do Castelo, a própria olhou para o céu e percebeu um movimento diferente.
— O que é aquilo? — perguntou Valéria quase sem voz.
— É a Tardis, a Amimacae dos ventos, está ajudando o Reino. Depois te dou mais detalhe, agora, você precisa descansar.
Kanahlic, apesar de ter perdido muita coisa — principalmente uma luta no seu próprio domínio —, agora ficou mais contente.
Ela tinha o seu conselheiro de volta, a sua braço-direito Azaryn, a sua Allogaj, tinha os seus súditos mais poderosos, as misteriosas nuvens estavam sendo dispersadas pela Amimacae, parecia que tudo estava a voltar ao que era antes, ao seu favor.
Mas falta-lhe uma coisa para sentir-se em paz com o seu reinado.
Valéria teve um dia de princesa, foi servida, foi honrada, foi cuidada, foi tratada com todo a cautela possível para ser agradada em todos os aspectos, mas nada poderia fazê-la sorrir, a sua alegria se foi com o seu aborto.
A única coisa que ela já amou de verdade e com intensidade foi a sua criança e acabou a perdendo.
Antes de vestir-se, Valéria pediu que fizessem uma coisa para ela, e assim fizeram. Rasparam o seu cabelo completamente e deixaram apenas a franja e duas mexas grandes, uma de cada lado da orelha.
Aquela cabeça careca e branca a deixou com um aspecto exótico, mas era assim mesmo que ela queria expressar o seu humor. Usou maquiagem gótica, depois de tempos e pela primeira vez colocou um vestido preto para representar o luto pelo seu bebê.
Ela foi a última a aparecer no salão de reunião o que roubou toda a atenção da grande mesa redonda de madeira. A surpresa foi eminente e inevitável.
A única que não estava de preto fora a Zeynep, pois, usava roupas egípcias com tons de areia e tinha ataduras penduradas do corpo. Vincent foi o primeiro a ficar de pé para receber a prestigiada Allogaj e fez a reverência de praxe.
— Minha queria Audaxy, o seu lugar está reservado ao lado da rainha, sente-se, por favor.
Valéria obedeceu, calada e séria.
— Corte de cabelo interessante — comentou Ftali, mas Valéria não deu importância.
— Estou entediada, sobre o que vocês querem falar mesmo? — foi o que ela disse, quase como um grunhido.
Os serviçais apressaram-se para servi-la um pouco de sopa e ela aceitou.
Kanahlic limpou a garganta para chegarem ao assunto importante antes que Valéria deixasse o clima mais pesado.
— Meus fiéis súditos, meus amigos, meus irmãos, eu estou extremamente arrasada com este dia, tudo estava pronto para que Zadahtric fosse desmagnificada, mas aconteceram alguns imprevistos e eu não sei nem por onde começar. E até agora eu quero saber como o Feiticeiro Mascarado entrou no meu Castelo.
— Se me permite falar, Majestade — disse Azaryn —, mas a minha irmã, a falecida mestra Ézyan, avisou que o Feiticeiro Mascarado era muito poderoso e ele poderia se voltar contra nós por causa de uma integrante da sua tribo, a Fong. Ainda mais uma com um dom tão raro.
— O meu pecado foi tê-la como minha prisioneira por muito tempo — lamentou Kanahlic.
— Mas ela sabia demais — disse Vincent —, libertá-la não seria tão simples.
— Exatamente isso, meu conselheiro — confirmou Kanahlic. — E mesmo se ela não quisesse falar, o seu dom faria com que ela acabasse por revelar as piores partes. Cobaias humanas, morte de inocentes, necromancia...
— Necromancia? — interrompeu Valéria a fazer com que se calassem.
— Sim, minha querida — respondeu a rainha. — Estamos usando Espíritos Atormentantes para proteger os nossos bens de feiticeiros das luzes — isso fez Valéria lembrar-se de uma conversa que teve com Sarah e Alejandro há algum tempo, Kanahlic se voltou para o pessoal. — Meus caros súditos, a nossa Allogaj foi atacada no seu mundo por Espíritos Atormentantes materializados.
Houve grande murmúrio.
— Já é difícil materializá-los aqui em Dorbis, que dirás em Gorbis? — comentou Tereya, a líder dos Capas Vermelhas. — Quem poderia ter tamanho poder e conhecimento?
Valéria esmurrou a mesa e a comida do seu prato derramou-se um pouso pelos lados. Obteve a atenção que queria e vociferou:
— Estou cansada de tantas perguntas sem respostas. Chega de reunião, que m***a. Tanta conversa para nada. Vamos começar a agir, gente, que saco.
— Acalme-se, minha querida Allogaj — pediu Kanahlic, sempre paciente com ela. — Entendo o que está sentindo e sinto o mesmo, mas o autocontrole pode ajudar a não perdermos a razão. Esta reunião serve para que cheguemos a uma conclusão.
— Então vamos pular as perguntas e vamos para as hipóteses, esta maldita legião dos Luvas-de-Prata é extremamente suspeita e a senhora ainda continua confiando neles.
Legard, o líder do clã, exaltou-se e pôs-se de pé a empunhar o seu bastão. Era inegável que os Luvas-de-Prata tinham conhecimentos sobre magia muito além dos demais feiticeiros e feiticeiras e ninguém tinha acesso aos seu segredos. Legard não temeu o poder e aspecto ameaçador da Allogaj para confrontá-la.
— O meu clã não é mais suspeito de traição, nós temos ajudado a nossa rainha de todas as maneiras possíveis e o meu traidor e a sua corja já foram banidos para sempre do nosso meio.
Valéria levantou-se lentamente a olhar para o rapaz, bem apática.
— Era para tê-los matado, executado em praça pública, seu i****a. Não aprendeu nada com o que tem acontecido nos últimos meses?
Legard apontou o bastão roxo a brilhar para o rosto da Allogaj.
— Veja lá como fala comigo, criança.
Vincent ficou de pé para se pronunciar e Zeynep o auxiliou, enquanto a Bruxa Grupat gargalhava e a Tereya revirava os olhos.
— Amigos, vamos acalmar os ânimos, não somos os inimigos aqui. É melhor nos sentarmos e termos uma conversação racional. Nossos inimigos estão lá fora, Zadahtric está lá fora. Ainda tentos muito fluído de desmagnificação e vamos usá-lo para o plano da rainha, conversão em massa. Vamos fazer o necessário para que o reinado da nossa rainha se mantenha firme e forte.
— Eu vou me acalmar quando esta garotinha retirar o que disse sobre o mim — berrou Legard. — Trabalho há muito tempo para a nossa rainha Kanahlic para que uma...
— Cala essa boca, seu i****a — Valéria berrou e bateu o seu bastão mágico na mesa que se rachou e partiu ao meio a fazer com que todos os objetos caíssem para o centro.
Causou a maior bagunça.
Legard, com os lábios comprimidos, porém, temeroso, sentou-se bem devagar na sua cadeira e a rainha ficou boquiaberta.
— Esta mesa redonda tinha mais de quinhentos anos — comentou a Kanahlic atordoada, respirou fundo e se pôs de pé depois que os demais se sentaram. — Pessoal, a nossa Audaxy está passando por um momento difícil da sua vida, recentemente ela perdeu um filho qual ela tanto queria ter da maneira mais trágica, é natural que ela sinta tantas emoções. Justamente por ser mãe, ela não queria vir para cá, agora não há motivos para não atender ao meu chamado e espero que ela aceite o meu pedido para ela ser a minha Maga Real. Eu sinto muito pela perda e sei que os nossos aliados não sabiam do ocorrido, mas vamos deixar este assunto para outra ocasião, esta reunião foi programado para falarmos sobre a desmagnificação da minha irmã. Eu cometi vários erros, não tinha um conselheiro, não tenho um Castelão, não tinha um Mago Real, estava completamente sozinha com meus guerreiros e guardiões que não serviram para nada. Vou chegar aonde eu queria com esta preliminar, pelo Protocolo Mundial dos Reinos, quando alguém resgata um prisioneiro registrado na Organização Mundial de Magia, ele, automaticamente, declara guerra e nós temos todos os recursos para levar isto a diante.
Grupat, a líder das Bruxas Verdes comentou:
— Mas a Transcendentis n******e ser derrotada, não há nada neste mundo que possa atingi-la.
— Ela não trabalhou sozinha, Grupat, tudo foi meticulosamente arquitetado para que o resgate acontecesse. A Transcendentis tinha um medalhão com uma porção do Coração de Noldá — esta afirmação causou mais murmúrios. — Vamos destruir aquele medalhão, e eu tenho certeza de que a Audaxy pode combatê-la.
— O Sumo-Sacerdote jamais daria algo tão valioso para uma abençoada por um Primevo, é contra os princípios — argumentou Grupat. — Alguém o recebeu e o entregou para ela.
Tereya entrou no assunto
— Fora que para se obter o Coração de Noldá seria necessário entrar na Cúpula da Cidade dos Immunus. Impossível alguém voltar de lá com vida. Creio que quem está contra a senhora, minha rainha, tem uma comitiva de feiticeiros poderosos e experientes. Somente pelo fato de uma Transcendentis ter resgatado Zadahtric, outros abençoados também podem estar fazendo parte da tramoia,
Kanahlic raciocinou antes de falar:
— Alguém se arriscou para obter a essência de Dorbis e a entregou à Transcendentis, com isso, ela passaria por nós sem ser percebida e levou embora os meus prisioneiros. Eu sabia que estavam tramando para impedirem a desmagnificação de Zadahtric, só não sabia que a única Transcendentis deste mundo iria ajudar, e não sei ainda quem pode ser o traidor, ou traidora que a orientou. Mas eu ainda tenho um último recurso, e agora que Audaxy está aqui, sei que poderei sair vitoriosa mais uma vez neste Reino. Vamos descobrir os possíveis traidores...
— E vamos matá-los — completou Valéria com sangue nos olhos.
— Sim, minha Allogaj, haverá um julgamento e execução...
— Não, a pena de morte será na hora, quanto mais vocês deixam para depois, mais chances tem de perder, parem de tanta lerdeza — Valéria levantou-se da cadeira. — Eu vou me deitar, vocês me dão dor de cabeça.
Antes que Valéria pudesse estar mais distante, ela sentiu o seu corpo travar, a sua tatuagem da Grande Serpente no seu braço queimou e a magia fê-la obedecer aos comandos de quem ainda tinha domínio sobre ela. Ao se virar, viu o Conselheiro Vincent com o bastão com cristal roxo apontado.
— Deixe de insolência, garota mimada, a sua rainha ainda não terminou a reunião. Temos muito o que falar e você ainda a deve lealdade. O seu Pacto conosco me permite ter domínio sobre você, então seja uma jovem descente e cumpra com o seu voto que tu fizeste há muito tempo.
Valéria olhou para o seu ombro com desdém. Não sabia se podia fazer aquilo, mas usou o seu bastão mágico, qual ganhara assim que chegou lá, e sem conhecimento usou toda a sua intensidade mágica para remover a tatuagem.
— Não é possível — surpreendeu-se Vincent.
Uma fumaça preta saiu do ombro de Valéria de maneira descomunal e a tatuagem sumiu, a fumaça esmaeceu no ar até virar nada, com isso, o Pacto foi quebrado e Vincent desmaiou, Zeynep com o pessoal tentou socorrê-lo.
Apenas a rainha continuou parada, com as mãos nos quadris a olhar para a garota poderosa ir embora sem nem se despedir, mas com um sorriso no rosto.
Ela admirava a Valéria de maneira inegável, assim como a falecida Ézyan, e prezava a sua presença mais do que a de qualquer outra pessoa ali. Valéria era a sua galinha dos ovos de ouro.
Minutos depois, despertaram o Vincent e foram dar continuidade à reunião em outro lugar já que a mesa redonda fora quebrada, mais tarde Valéria ficaria a par de todos os detalhes.
***
Naquele mesmo dia, antes de dar meia-noite, Valéria se parecia com um cadáver, pálida e mórbida, prestes a dormir, deitada na sua cama do seu espaçoso quarto gótico decorado com ossos, como ela pediu, ela jamais abandonaria alguns velhos costumes, ainda mais agora que ficou extremamente amargurada pela sua perda, começou a expressar os seus sentimentos.
O seu quarto se assemelhava com uma arrumação para uma festa de Halloween.
Ela usava uma camisola preta de cetim e os seus s***s ficaram avantajados por causa do leite que estava a ser produzido devido à gestação que para a sua infelicidade foi interrompida.
Por ímpeto, ela pegou o seu bastão mágico e levitou na cama a fazer com que tudo ao redor flutuasse, mirou em cinco pessoas encapuzadas na sua frente, eram luvas-de-prata, mas estavam sem as luvas. De qualquer modo, da última vez que entraram no seu quarto tentaram matá-la.