CAPÍTULO 5

3115 Words
"Eu amo você de uma maneira incrível e contraditória. Vontade de ligar, uma saudade. Mas tô forte aqui!" — Tati Bernardi Todos me olhavam curiosos dentro do elevador. Concentrei-me em fitar os dedos das mãos e me encolher contando mentalmente os segundos para as portas se abrirem e me livrarem daquele calvário. Tinha ciência de que ele me seguiria, então procurei por um lugar neutro onde sabia que estaria segura contra seu ataque de histerismo. Esperei todos descerem do elevador no estacionamento e apertei o botão do vigésimo quinto andar. No andar da presidência pensei bem antes de ir até a secretária de Vicenzo. Não será muita imprudência levar esse problema para ele? Não! Ele era a pessoa que dava a última palavra ali... bem, tecnicamente, ele é! Athos abriu mão do cargo, não podia se utilizar de sua condição de sócio majoritário para agir da forma que bem quisesse apenas para satisfazer seu ego. — Srta. Guimarães. — A secretária sorriu educadamente ao me ver. — Posso ajuda-la? — Ela tinha um ar de desconfiança. Porque com certeza já conhece seu histórico e de Athos! E talvez as outras secretárias já tivessem passado adiante o que presenciaram poucos minutos antes. — Sei que o dr. Sanches tem uma agenda bem apertada, mas será que posso dar uma palavrinha rápida com ele? — Antes que Athos apareça, de preferência! Sendo profissional o bastante, ela olhou para uma agenda aberta em sua mesa. — Vocês têm algum horário? — Pegou o telefone. Você sabe que não, linda! — Não. — Sorri amarelo. — Mas eu prometo ser breve... isto, claro, se ele puder me atender. — Fiz o olhar do Gato de Botas. — Vou verificar neste instante. Ele está com o sr. Gonz... Vicenzo abriu a porta antes que ela pudesse me anunciar. Junto com ele saem Diógenes e outro homem de meia idade que não conheço. Eles apertam as mãos e então o Gonzalez mais velho me vê. Fiquei aflita. Diógenes veio em minha direção. — Esther! — Beijou meu rosto. — Olá, Dio. — Meu jeito ansioso dava pistas de que havia algo errado. Ele ergueu as duas sobrancelhas e me avaliou. — Posso ajudar você em algo? — Perguntou em tom conspiratório. Vicenzo também se aproximou e me apresentou ao homem que os acompanhava. — Dr. Sanches eu ia anunciar a srta. Guimarães... A secretária veio logo atrás de nós. — Não se preocupe. — Diferente de Athos, Vicenzo a tranquilizou. — Estamos terminando aqui, eu a receberei em seguida. — Ela assentiu, voltando para seu lugar. — Sr. Pereira, essa é a moça de quem lhe falei. — Dio falou de mim para esse homem? — Ah, então você é a famosa Esther? — O senhor com idade do meu avô sorriu mostrando seus implantes dentários. — Poxa vida. — Encolhi os ombros. — Espero que tenha ouvido coisas boas! — Afinal, não tenho sido uma boa menina ultimamente! — Só maravilhas, querida... só maravilhas! — Segurou minha mão. — Eu estou de saída, mas gostaria de vê-la outra vez. Fiquei sabendo que é uma excelente estagiária. — Olhou para Vicenzo — quem sabe eu não possa rouba-la para dar uma ajudinha aos meus estagiários. — Sorriu com ar de espertalhão, após dizer como se estivesse compartilhando um segredo comigo e beijou minha mão por fim. — Eu espero que não! — Vicenzo respondeu calmamente. — Mas isto é ela quem decide! Vicenzo e Dio o cumprimentam. E o presidente pediu para que a secretária o acompanhasse até o elevador. Acenamos de longe para ele e assim que a porta do elevador no final do corredor se fechou, parece que nós três voltamos a respirar. — E então... — Dio falou antes mesmo de desviar o olhar do elevador. — O que Athos aprontou desta vez? Sou tão óbvia assim? — Vamos falar sobre isso na minha sala. — Vicenzo inspirou fundo. **** Sentada no sofá de couro marrom da presidência, refletia se foi mesmo uma boa ideia ter buscado abrigo naquele lugar. — Athos mandou um dos estagiários embora! — Desembuchei após sucumbir aos dois pares de olhos curiosos. — Athos fez o quê? — Diógenes sentou-se na poltrona a minha frente. — Quando isso? — Vicenzo se aproximou. — Hoje! — Tentei não soar tão desesperada. — Me explique direito. — O presidente cruzou os braços encostando-se atrás da poltrona de Dio. Conte a eles sobre seu flerte com Gabriel, fofa! — Há um rapaz... — fiz uma pausa os encarando, ainda ponderava se era certo envolve-los nisso, eles me observavam calados. — É um estagiário que entrou poucos dias antes de mim. — Começou. Agora termine, querida! — Me desculpem estar aqui, trazendo esse problema... — Hesitei. — Tudo que acontece aqui dentro é da minha conta. — Vicenzo me encorajou a continuar. — Bom, ele esteve na confeitaria da minha mãe esse final de semana. Athos também estava lá... — Diógenes cruzou as pernas, apoiando o braço no joelho. — Eu o atendi e nós trocamos algumas palavras... Athos entendeu tudo errado... — cobri o rosto com as mãos. — Ele o dispensou ali mesmo. Eu tentei reverter a situação e quase consegui, mas acontece que Gabriel deixou seu telefone anotado em um papel, eu guardei em meu bolso... eu não tinha intenção alguma em ligar para ele, tanto que sequer abri o papel. — Soltei o ar com raiva. De Athos. De mim. — Mas o bendito papel caiu do meu bolso e Athos o encontrou... — Gabriel é o nome do estagiário? — Diógenes perguntou, tentando fingir desinteresse. — Sim! — Respondi de pronto. — O mesmo que estava te paquerando dias desses? — Olhou-me de lado à espreita. m***a! — Sim! — Soltei a resposta em um sopro de ar. — Esther, você sabe que temos algumas regras de conduta bastante severas aqui dentro e... — Vicenzo não chegou a concluir o sermão que dera início. — Meu irmão agiu certo! — O quê? Vicenzo e eu o olhamos abismados. Dio ajeitava-se desconfortável na poltrona. — Que ele não me ouça! – Emendou rapidamente. — As coisas não se resolvem assim. — O presidente sentou ao meu lado. — Há uma hierarquia a ser seguida. Isso consta nas atas de reuniões, alias! — Ele cruzou os dedos e olhou firme para o Gonzalez do bem. — A dra. Vilagrán deveria ser a primeira pessoa a tomar ciência do que acontece em seu departamento e se julgar certo o pedido para a demissão, ela tem autonomia para dispensa-los ou passar o caso para análise do conselho. A presidência ou vice são as últimas instâncias a serem recorridas. — Explicou com o profissionalismo de quem leu com afinco, todo o manual da empresa. — Vicenzo, a culpa é toda minha. Se alguém tem que ser punida pelo que aconteceu, que seja eu! — Tentei reverter a situação. — Você? Mas quem te paquerou foi ele. Vicenzo acabou de dizer que há uma cartilha de regras... ele as infringiu. Ponto final! — Diógenes fez um gesto impaciente, como quem dispensa aquela conversa dando o assunto por encerrado. — Mas no dia que ele tentou me paquerar aqui dentro, você o interrompeu, evitando que ele tivesse tempo. Logo, aquela situação não conta. — Arqueei a sobrancelha. — Não sou advogado, mas o nosso presidente aqui, pode melhor que ninguém nos explicar que a simples intenção conta como quebra das regras de conduta, ainda mais pelo agravante de que se eu não o tivesse detido a tempo, ele não desistiria de seu intento! — Diógenes tornara-se arrogante e formal como antigamente. Fechei a cara para ele, antes de lhe mandar mentalmente à m***a. — Justamente por não ser advogado é que não ouso suspeitar que está defendendo os interesses de seu irmão! — Repliquei irritada. — Suspeitaria corretamente! — Ele estalou a língua, sem mover qualquer outro músculo. — Isso não vem ao caso. — Vicenzo levantou-se impaciente. — Para que eu possa agir corretamente... — esfregou as mãos no rosto, tomando tempo para raciocinar. — Diga-me Esther, por que a culpa é sua? Você correspondeu às investidas dele? — Sim. — Endireitei as costas. — Digo... não... — sabia que estava prestes a gaguejar. — Não aqui! Não desrespeitaria meu local de trabalho. Mas como já disse, querendo ser gentil, enquanto o atendia na confeitaria, pedi seu telefone... — revirei os olhos. — Foi uma ideia i****a, admito! Mas eu apenas quis ser gentil... — insisti — deveria tê-lo ignorado. Ele acabou se encorajando e assim que Athos o despediu ali mesmo, ele me deixou um bilhete com seu número e então o i*****l do Athos achou que eu estava interessa em Gabriel, que correspondia suas investidas e... — joguei meu corpo cansado para trás e me esparramei no sofá. — Bem, pelo que entendi... — Vicenzo, com uma mão no bolso, caminhava de um lado ao outro. — O rapaz não infringiu as regras de fato... em tese, já estava demitido quando deixou um telefone de contato... — Dio fez menção de contrariá-lo, mas foi detido pelo dedo em riste do presidente. — E apenas a intenção não o torna um infrator, no episódio anterior, agradecemos a você por ter evitado que a infração ocorresse. — Piscou para o amigo e então voltou a caminhar pensativo — a vida dos funcionários não nos diz respeito fora de nossa competência, ou seja, se os estagiários paqueram ou namoram das portas para fora, não temos o direito de intervir... — mas então ele levantou o dedo indicador e virou-se para nós, que o acompanhamos atentamente. — Isto claro, desde que não interfira na sua vida profissional, trazendo problemas a essa respeitável empresa e seus colaboradores... — Então, meu irmão fez o certo! — O Gonzalez mais velho balançou a cabeça, satisfeito, quase aplaudindo a si mesmo. — Seu irmão será demitido! — Vicenzo era temerosamente calmo em sua conclusão. — Meu irmão!? — Diógenes inclinou a cabeça. — Athos? — Indaguei ao mesmo tempo que ele, enquanto me coloquei em pé num único salto. Vicenzo apenas encolheu os ombros. — Ele tem que ser referência aqui dentro. E, no entanto, quebrou regras importantes que são essenciais ao bom funcionamento. Começando por despedir um estagiário sem antes, sequer levar o "problema" até a superior direta do rapaz. — Ele olhou para o teto, provavelmente buscando mais informações. — Isso piora ao ponto que notadamente não há um problema em si que justifique a demissão. Pelo menos, não profissionalmente falando. Mais à adiante, também vemos que ele colocou seus anseios pessoais a frente de todas as regras de conduta e por fim... — respirou fundo, acredito eu que para tomar coragem de completar — aqui não é a casa da Mãe Joana e eu não irei tolerar nenhum desmando durante a minha gestão! Vicenzo não pareceu estar brincando ou ameaçando por ameaçar. Ao contrário, aparentava estar bem chateado. Ele ia mandar Athos embora de verdade! Meu Deus, sou uma anta! Procurei o presidente para resolver o problema de Gabriel, para que ele intercedesse em favor do pobre coitado e acabei arrumando outro maior. Eu não posso permitir que agora, depois de Athos tomar vergonha na cara e assumir suas responsabilidades, por minha causa ser expulso de sua própria empresa. Isso seria demais para mim. Carregar duas culpas em minhas costas. Mas no caso de Athos, não temo por minha consciência, temo pelo que possa ser dele, se a oportunidade de tomar as rédeas de seu patrimônio e de sua vida forem tirados tão estupidamente de suas mãos. — Você não pode manda-lo embora! — Cuspi as palavras desesperadamente. — Como? — Vicenzo me encarou confuso. — Eu já disse... a culpa é minha, mande a mim, embora! — Protesto sem fôlego. — Mande-me embora, mas não ele! Athos não pode sair daqui... essa empresa é dele! — Me senti um cão latindo em defesa do dono, mas não me importei. Se mais uma cabeça tiver que ser cortada, que seja a minha! — Sinto muito Esther, mas as regras valem para todos. E se nós não dermos o exemplo, logo não conseguiremos controlar esse escritório. — O irmão de consideração do deus Grego não estava nada feliz pelo que me dizia. — Vicenzo... — Dio levantou devagar — não está sendo extremista demais? Athos está apenas defendendo a mulher dele! — Murmurou. E Dio defendendo o irmão? — EU NÃO SOU MULHER DELE! — Perdi o controle e acabei ficando histérica, eles se entreolharam. — Estou vendo que fiz errado em procura-lo. — Murchei diante dos dois. — Em nome de um pedido profundamente importante para a sra. Gonzalez, é que Esther foi incluída em nosso quadro de estágio. — Ele sente-se visivelmente constrangido em ser sincero. — Já estamos abrindo exceção à uma regra bem significativa. Embora eu já imaginasse que algo do tipo poderia ocorrer a qualquer momento! Athos não consegue separar o profissional do pessoal. Desse jeito vamos perder o rumo das coisas... espero que você me entenda, estou apenas fazendo o meu trabalho! — Vicenzo desculpou-se por estar sendo extremamente profissional. Inalei fundo e tentei manter o pouco de calma que me restava. Mesmo sabendo que ele estava coberto de razão, ignorei suas palavras por um instante. Precisava salvar um de cada vez. — Eu posso... posso... — ganhava tempo, enquanto procurava uma saída. — Olha, você pode recontratar Gabriel? Eu prometo que me afasto, saio da empresa... faço o que for preciso... se o motivo dos problemas sou eu, está resolvido! — O que está feito, está feito! — O presidente estava decidido. — Não posso passar por cima da decisão de Athos, infelizmente... — ele o amaldiçoou baixinho. — Você pode achar que eu esteja sendo um tanto confuso, mas entenda: eu sou um gestor. Preciso ser imparcial. Antes das minhas vontades, vem as normas, regras, condutas que acima de qualquer um, eu preciso seguir! — Então... — pisquei realizando tudo dentro da minha cabeça, já começando a me desesperar. — Se ainda não mandou Athos embora, significa que pode reconsiderar e lhe dar uma outra oportunidade... — Athos não é uma pessoa que mude de opinião ou postura... — ele tentou se justificar. — Você pode ao menos tentar? — Segurei em cada lado de seus ombros, sem me importar em demonstrar todo meu desespero. — Pode pelo menos lhe dar o benefício de uma segunda chance? — Athos já teve todas as chances, Esther... ele mesmo quis voltar como vice-presidente. Eu lhe ofereci o cargo e ele negou... melhor que ninguém, ele conhece as regras... sabe que terá que arcar com as consequências. — Mas antes ele não queria estar aqui. Então não dá pra levar essa época em consideração! — Sacudi seus braços sem perceber. — Dessa vez ele quer estar aqui. Ele quer fazer parte de tudo isto. Vicenzo... se o mandar embora, vai destruir o que resta de... — Eu sinto que vou me arrepender, mas por favor Vicenzo... — Dio gentilmente segurou meus braços, me afastando do homem à minha frente. — Ela tem razão. Meu irmão acabou de encontrar a rendição, não vamos colaborar para que ele seja enviado novamente ao inferno! — Mesmo assim... — Vicenzo abriu os braços em lamento. — Em todo caso, não posso interceder por Gabriel. — Mas vocês conhecem outras empresas por aí... conhecem grandes empresários e tenho certeza que muitos deles lhes devem favores, estou quase certa de que eles terão o maior prazer em acolher um jovem universitário indicado por vocês! — Olhei desafiadoramente para os dois. — Veremos... — Doutor Sanches, o sr. Gonza... — A voz da secretária soa no viva voz do aparelho de telefone, chamando a atenção de nós três. Mais ao fundo ouvimos outra pessoa completamente alterada. — Não vou esperar que me anuncie... onde já se viu? O dono da casa pedir autorização aos funcionários para usar o banheiro! — Inconfundível, Athos esbravejava do outro lado. Vicenzo lançou-me um olhar que posso interpretar facilmente como um "eu avisei!". — Deixe-o entrar! — Umedeci os lábios ansiosa. — Deixe-o entrar antes que ele derrube a porta! Vicenzo apertou o botão do aparelho e fechou os olhos buscando paciência e talvez sabedoria para não tomar nenhuma atitude movida por impulso. — Deixe-o entrar! Mas antes que pudesse terminar, Athos já estava na sala. — Irmão. A Flor sumi... — então ele conseguiu me enxergar encolhida em um canto. Diógenes me acomodou em suas costas os braços como um Leão de Chácara. — Sente-se, Athos! — Vicenzo indicou a poltrona. — Vamos conversar como cavalheiros. — Sua voz era tranquila, mas eu sabia que o noivo de MJ estava uma pilha de nervos. — Flor, precisamos conversar! Eu não vou... — Athos não deu a mínima ao amigo, disparando em minha direção. Dio empurrou suas costas contra mim e eu me senti blindada por uma parede. Que Athos é capaz de derrubar em poucos segundos! — Ou você se controla e senta nesse raio de poltrona ou eu o tiro dessa empresa com a força policial, se for o caso... — a voz de Vicenzo ecoa guturalmente pela sala. Eu mesma me senti intimidada por ele, pela primeira vez. — E se eu fizer isto, será definitivo! — Deu as cartas. Gelo. Athos parou bruscamente. Girando nos calcanhares, o sr. Encrenca virou-se para o presidente de sua empresa. — Perdão? — Ele quase riu. — Sente-se ou está demitido! — Vicenzo não titubeou, sequer piscou. — Você só pode estar brincando... — a voz do deus Grego era pura incredulidade. O irmão torto apenas cruzou os braços e com a cabeça indicou a poltrona. Senti a respiração de Diógenes diminuir o ritmo. Só então notei que suas costas estavam rígidas. Athos, fingindo ser um bom menino, sentou-se desconfiado enquanto nos observava. — E você? — Perguntou ao irmão. — Eu nada! — Dio era seco. — Então vai ficar aqui de plateia? — Foi a vez de Athos cruzar os braços. — Na verdade, eu ficarei para assegurar que você vai se comportar! — Dio mudou o peso do corpo de uma perna para outra. — Custe o que custar! Athos levantou as mãos rendido. Eram dois contra um e eu estava entre eles. — Vocês são uma piada! — Espiei entre os vãos dos braços de Dio e encontrei os olhos do caçula. — Isso não inclui você, Flor! Aliás, por que não vamos à minha sala, podemos falar com privacidade e... — Cale a boca Athos, por gentileza! — Vicenzo sentou em frente a ele.
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