Capítulo 01
Alice narrando
Acordei cedo, como quase todos os dias, e antes mesmo de levantar da cama meu dedo já deslizava automático pela tela do celular, abrindo grupos, mensagens, perfis, qualquer canto onde o nome da minha irmã pudesse aparecer. Não era curiosidade mórbida, nem mania, muito menos prazer em saber das merdas que ela fazia; era necessidade pura, quase física, de confirmar se ela ainda estava viva, respirando, andando por aí, mesmo que errada, mesmo que quebrada, mesmo que se destruindo um pouco mais a cada dia. Eu acordava e precisava saber se Lara tinha atravessado mais uma noite sem morrer, porque quando ela some, quando passa dias ou semanas sem dar notícia, o desespero cresce dentro de mim de um jeito que não tem lógica, não tem explicação e muito menos controle.
Eu sei, racionalmente, que não tenho culpa nenhuma pelo caminho que ela escolheu, nem obrigação de ficar correndo atrás, limpando os estragos, juntando os cacos ou tentando salvar alguém que parece fazer questão de se perder. Eu sei disso tudo, repito pra mim mesma, tento acreditar, mas a verdade é que nada disso importa quando o instinto fala mais alto. Somos gêmeas idênticas, ligadas por algo que eu nunca consegui explicar direito, e quando Lara desaparece é como se metade de mim fosse arrancada sem aviso, como se o meu corpo continuasse inteiro, mas a alma ficasse faltando um pedaço essencial. Não vê-la pelo morro, não cruzar com aquele rosto que é igual ao meu, não saber onde ela está, é um vazio que não se preenche com razão.
Nós duas temos vinte e três anos, e nossa história começa antes mesmo de termos consciência de que existíamos. Fomos dadas para adoção ainda bebês, deixadas no orfanato onde meus pais adotivos trabalhavam. Meu pai era porteiro, minha mãe cuidava do berçário, e foi ali, entre turnos, choro de criança e mamadeiras, que nos crescemos nos braços dela antes mesmo de termos um lar. Ninguém queria adotar duas irmãs recém-nascidas, diziam que era trabalho demais, gasto demais, responsabilidade demais, e enquanto outras crianças iam embora com famílias sorridentes, nós ficávamos. Abandonadas eu não digo, porque minha mãe nunca deixou faltar colo, cuidado ou carinho, mas esquecidas, talvez. Até hoje ela guarda nossas roupinhas, os sapatinhos minúsculos, as primeiras mantas, como se aquilo fosse prova de que, mesmo antes de termos um sobrenome, alguém já nos amava profundamente.
Minha mãe conta que várias tentativas de adoção aconteceram ao longo daqueles meses, sempre separadas, sempre achando que duas bebês idênticas seriam mais fáceis se divididas, e todas fracassaram. Quando nos separavam, nada funcionava. Não dormíamos, não comíamos, não mamávamos direito, adoecíamos juntas, chorávamos até ficar roucas, como se o corpo de uma sentisse imediatamente a ausência da outra. As famílias devolviam, cansadas, assustadas, dizendo que nunca tinham visto duas crianças tão pequenas reagirem daquele jeito, e minha mãe sempre dizia que parecia que a gente sabia, mesmo sem saber, que não podia viver uma sem a outra.
No fim, foi ela quem decidiu. Foi ela quem disse que, se ninguém quisesse duas, então ela queria. E tudo aconteceu junto, no dia que me devolveram pro orfanato com 40 graus de febre, a minha mãe recebeu a notícia que o orfanato iria fechar, e seríamos divididas como todas as outras crianças que iríamos ser separadas e não seríamos mais da responsabilidade daquela instituição, nossos pais vendo a nossa situação, minha mãe já completamente envolvida conosco, eles decidiram que não deixariam nos separar, eles iriam ficar conosco custe o que custasse. E assim eles fizeram, eles que sempre cuidaram da gente, compravam roupinhas, acessórios e tudo mais, eles nos levaram embora junto com as suas demissões direto pro morro da rocinha, enquanto ainda não tínhamos nem 1 ano de idade.
Eles nos deram um lar, sobrenome, estrutura, amor e muita dignidade, dentro das condições deles, mas nunca nos deixaram faltar nada. Todas as apresentações de escola, desde a creche, eles estavam lá, todas as reuniões, as brincadeiras, as consultas médicas no postinho, as artes que aprontávamos quando criança, tudo!
Nunca fomos ricos, eles sempre batalharam muito para nos criar, nos proteger, e sempre nos amaram incondicionalmente. Eu nunca senti falta dos meus pais biológicos, pelo contrário, eu tinha os melhores pais do mundo, aliás, eu tenho. Porque por eles dois eu vivo, eu respiro, e eu agradeço sempre por tudo e por tanto. Por cada sacrifício que eles fizeram por nós, por cada dia que meu pai chegava tarde porque fazia serão pra nos dar uma vida melhor, por cada faxina que minha mãe pegava pra poder se dividir entre cuidar da gente e ter um dinheirinho pro nosso pao de cada dia.
E foi assim que eu cresci cercada de amor, estabilidade, regras e cuidado, enquanto Lara, por razões que a vida nunca fez questão de explicar direito, escorregou para longe de tudo isso. Às vezes eu me pergunto em que ponto exatamente nossos caminhos se dividiram de vez, quando foi que aquela ligação que nos mantinha vivas no berçário virou essa dor constante de amar alguém que foge de mim como se eu fosse o lembrete do que ela perdeu.
Ela sempre quis mais, mais dinheiro, mais luxo, mas ela nunca quis ir por caminhos certos, com 16 anos ela saiu de casa, falou que aquela vida não era pra ela, que ela queria mais, que ela queria luxo, que ela merecia luxo e não ficar me acabando nos livros como eu. Nós tínhamos bolsa numa escola particular que meu pai trabalhava, e ela foi expulsa e quase fez meu pai perder o emprego, foi a única vez que vi meu pai tão nervoso, porque pegaram ela transando com o diretor adjunto da escola na sala da secretaria, o diretor geral chegou, viu, deu a maior confusão, o cara foi demitido, queriam chamar polícia, deu um barraco gigante, meu pai só não foi demitido porque ele era um excelente funcionário, e eu quase perdi minha bolsa também por causa dela.
E enquanto eu lutei pra passar em primeiro lugar na federal, consegui uma bolsa 100% pra faculdade de enfermagem, ela vivia de farra, baile, e drogas.
Eu já salvei a minha irmã várias e várias vezes, já briguei muitas vezes com o sorriso, ou Dante, o dono daqui que ninguém nunca viu um sorriso, por isso esse é o vulgo dele. Já cansei de limpar as merdas dela, e eu sonho com o dia que ela vai acordar pra vida e largar essa merda toda, mas ela gosta, ela ama essa vida medíocre que ela leva.
Eu nunca vou me esquecer, no dia da minha formatura da faculdade, eu encontrei com ela bebendo com os vapores daqui no beco, eu tinha ido fazer meu cabelo e maquiagem depois de um plantão exaustivo no posto daqui que eu já trabalhava, e ela me humilhou, falou que eu nunca teria a grana que ela tem em uma noite, que eu nunca seria ela, que eu viveria uma vida de miséria como a dos nossos pais. Nesse dia não teve cabelo e maquiagem certa que me fizessem parar, foi a única vez que nós nos embolamos na porrada, e minha mãe ainda me chamou de burra, porque eu queria muito a minha família inteira na minha formatura, mas a minha irmã nos trata como lixo, como se nós tivéssemos cometido um grande erro, um grande pecado.
Ela já cansou de humilhar a minha mãe, mas sempre que eu ia na direção dela pra confrontar, minha mãe amenizava e ela sumia.
Eu não culpo os meus pais, tudo que eu tinha, ela tinha, a vida inteira. Mas a partir do momento que ela se afundou nas drogas, e começou a humilhar eles todas as vezes que eles iam tentar ajudar ou socorrer ela, eles cansaram, eles choraram muito, mas eles tiveram que abrir mão, e isso devastou a minha mãe a ponto dela entrar em depressao, mas agora, eles não vão mais atrás. Só que todas as vezes que algo acontece com ela, parece que eu sinto como se fosse comigo, e isso é uma merda, eu odeio isso, porque ela literalmente cafa pra todos nós
Tem dois meses que ela tá sumida, que ninguém tem notícias nenhuma dela, eu poderia ir na boca, querer saber dela, mas eu sei que serei humilhada como todas as outras vezes, então eu cansei, eu deixei pra lá, não porque eu não me preocupo, mas porque eu sei que todas as vezes que dá alguma merda bate nas minhas mãos mesmo sem eu procurar, quando a p**a aperta e atrás de nós que ela vem, sempre.
Desliguei o celular ainda sem respostas, sentindo aquele aperto conhecido no peito, e respirei fundo antes de levantar. Eu tinha um dia inteiro pela frente no morro, pacientes para atender, feridas para limpar, gente para cuidar, e mesmo assim tudo em mim girava em torno da mesma pergunta silenciosa: onde está Lara agora, e o que ela fez dessa vez que eu ainda não sei?