Sorriso narrando
Eu fechei a porta do almoxarifado com a mão pesada, senti a tranca encaixar com aquele “clac” seco e fiquei um segundo parado, ouvindo a gritaria abafada lá dentro, a Alice berrando e a Lara gemendo, e por mais que eu dissesse pra mim mesmo que aquilo era só procedimento, só contenção, só garantia de que elas não iam atrapalhar na hora errada, eu senti uma raiva quente me subir de novo, porque tudo naquele dia tava fedendo a desgraça desde cedo. A p***a da minha carga tinha sumido, a Lara tinha sido achada numa lixeira, a Alice tinha entrado na frente como se fosse dona do mundo, e agora a favela tava prestes a virar campo de guerra em plena luz do dia, com gente ainda saindo do baile, bêbado cambaleando, morador abrindo a janela pra ver o que tava acontecendo, criança chorando de susto, e eu sem colete, porque eu tinha saído no impulso, cego, indo resolver a merda dela e acabei me enfiando na pior hora possível.
O barulho lá fora crescia como se o morro tivesse acordado com um soco na boca, e eu já vinha descendo o corredor do posto com a arma na mão, os nervos no talo, o ouvido colado no rádio, quando o Foguete apareceu no meu lado, ofegante, olho arregalado, aquela cara de quem sabe que o bagulho é sério de verdade, não é susto nem boato.
— Tá feio lá fora, patrão, os cara tão metendo bala sem dó, e não é polícia não, é inimigo de verdade, os filha da p**a tão querendo tomar no susto — ele fala rápido, e eu sinto o estômago dar aquela virada que só dá quando o cheiro de guerra entra pela narina. — Tá rolando na parte de cima e já tá descendo pra parte mais aberta, tá lotado de gente, tá dando r**m pra morador.
Eu engulo seco, sinto a saliva grossa, e minha cabeça já começa a funcionar no modo sujo, no modo que eu odeio, mas que eu sei fazer bem, porque aqui não tem escolha bonita, não tem debate, não tem “depois eu vejo”, aqui é agora ou nunca, porque se tu dá mole, os caras comem tua favela com farinha e ainda riem da tua cara.
— Então vambora, p***a, porque hoje ninguém vai fazer a Rocinha de puteiro não — eu respondo com o sangue batendo na têmpora, já avançando pra porta, sentindo a luz da manhã estourar na cara e o som do tiroteio bater no peito como tambor. — E se for pra morrer, vai morrer tentando, mas hoje eu não vou deixar esses arrombado cantar vitória aqui dentro.
Do lado de fora, o morro parecia um bicho acordando apavorado, uma confusão absurda, e era cedo, cedo de um jeito que deixa tudo mais sinistro, porque a claridade expõe tudo, não tem escuridão pra esconder, não tem noite pra camuflar o medo. Tinha gente saindo do baile ainda, com a roupa amassada, maquiagem borrada, n**o com a camisa aberta, rindo ainda de qualquer p***a, até entender que aquilo não era brincadeira, e o riso virar grito em dois segundos. O som de tiro cortava o ar, estourava perto, estourava longe, e a favela inteira parecia se encolher e expandir ao mesmo tempo, porque quando bala canta, todo mundo tenta achar um canto e ninguém sabe qual canto é seguro.
Eu e o Foguete metemos o pé sem cerimônia, e a cada passo eu sentia o corpo mais leve, mais quente, mais pronto pra fazer coisa que depois pesa na consciência, porque guerra não tem poesia, não tem beleza, é só barulho, correria, sangue e o cheiro de pólvora que gruda na garganta. Um menino passou correndo com a mão no braço, sangue escorrendo pelo antebraço e pingando no chão, a cara dele branca de choque, e atrás dele uma mulher berrava com uma criança no colo, tentando entrar numa casa, mas a perna não obedecia, o pânico travava tudo.
— Entra pra dentro, c*****o, entra pra dentro agora — eu grito pra mulher, sentindo a garganta arranhar, apontando com a arma pra porta mais próxima, e ela obedece no susto, quase tropeçando, porque morador sabe quando não dá pra discutir. — Fica no chão e não inventa de olhar pela janela, p***a.
O Foguete corre do meu lado, olhando pra cima, pra frente, pra tudo ao mesmo tempo, e o rádio não parava, um chiado nervoso, voz sobre voz, n**o pedindo munição, n**o avisando direção, n**o xingando, e no meio disso tudo eu tentando entender que p***a de inimigo era aquele, porque não tinha caveirão, não tinha sirene, não tinha helicóptero, não tinha polícia gritando “perdeu”, era outra coisa, era invasão mesmo, invasão de inimigo querendo fazer nome, querendo tomar território, querendo humilhar.
A rua principal, que normalmente já é uma zona, tava virando inferno. Barraca derrubada, moto largada, gente se escondendo atrás de carro, n**o se jogando no chão com a cara na poeira, e o som de vidro quebrando, de tiro estourando em parede, de grito cortando o ar, tudo misturado num caos só. Eu senti uma bala passar zunindo perto demais, aquele assobio do demônio, e o corpo respondeu com adrenalina na veia, o coração socando o peito, porque tu pode ser o mais frio do mundo, mas a bala lembra que carne é carne.
— Foguete, cola comigo e abre o olho, porque os cara tão espalhado e tá cheio de playboy e patricinha nessa p***a, c*****o — eu falo, e ele faz que sim com a cabeça, já suado, já com a respiração pesada, e a gente vai avançando no instinto, no ouvido, na visão rápida, sem tempo pra pensamento bonito.
A gente começou a subir por um caminho mais estreito, desviando de onde tava mais lotado, porque ali o problema era que o baile tinha cuspido gente demais pro morro, e agora a invasão tava comendo por cima, e quem tava no meio era morador, era gente normal, era quem não tem nada a ver com essa p***a, mas que sempre paga o preço. Eu via n**o sangrando na calçada, um cara sentado com a mão no abdômen, o rosto contorcido de dor, e eu queria parar, mas não dava, porque se eu parasse ali, eu virava alvo, e aí não ajudava ninguém, só virava mais um corpo no chão.
Foi quando a explosão veio, um estouro que jogou poeira e estilhaço pro alto, e a favela inteira pareceu tremer. O barulho bateu no ouvido e eu senti a onda de choque no peito, e por um segundo o mundo ficou abafado, como se eu tivesse mergulhado em água, até o som voltar com mais raiva ainda. Gente gritou, gente caiu, e eu vi um moleque do meu lado levar um estilhaço na perna e desabar, xingando, chorando de ódio, tentando se arrastar.
— Levanta e vai pra dentro, p***a, não fica deitado no meio da rua que tu vai morrer igual peixe fora d’água — eu grito, puxando o braço dele com força, e ele se levanta mancando, segurando a perna, tentando não berrar, porque vergonha e dor brigam dentro do homem.
A gente subiu mais um pouco, e eu comecei a ver movimento diferente, uns caras que não eram do morro, a postura não era de morador, o jeito de andar era perdido, eles estavam disfarçando. A v***a dá para deu meu morro pra alguém, e eu tinha que descobrir quem tava por trás dessa p***a.
Meus soldados estavam com sangue nos olhos igual eu, doido pra tirar a cabeça de filho da pita que entrou pra tentar fazer meu morro de puteiro, mas não iam conseguir.
O Foguete apontou com o queixo, mostrando um canto mais adiante, e eu vi dois caras tentando se esconder atrás de uma parede, mas o jeito que olhavam, procurando alvo, denunciava. Eu senti o ódio subir junto com uma calma estranha, aquela calma r**m que vem antes da merda, e meu corpo já tava entrando no automático, porque nessa hora não tem filosofia, não tem dúvida, é sobrevivência e controle do teu chão.
A correria continuou, laje, escada, beco, gente se encolhendo dentro de casa, cachorro latindo, porta batendo, e o cheiro de pólvora se misturando com o cheiro de cerveja velha do baile, com o suor da manhã, com o lixo da rua, uma mistura nojenta e real que só quem vive sabe. Eu ouvi um rádio chiando com voz que eu não reconhecia, e isso foi como um tapa na cara, porque rádio estranho dentro do meu morro é ofensa, é invasão dentro da invasão.
— Tá ouvindo? — o Foguete fala no meu ouvido, o olho apertado, e eu faço que sim, sentindo a raiva virar coisa sólida. — Tem mais de um grupo, tem n**o espalhado, tão tentando confundir, tão tentando fazer a gente atirar no vazio e deixar eles passar.
Eu ia responder, mas foi nessa hora que eu senti o impacto.
Não foi dor primeiro, foi pancada. Um soco quente no ombro, do lado direito, como se alguém tivesse enfiado ferro em brasa dentro de mim. Eu tropecei um passo, o braço perdeu força, e na hora o sangue começou a escorrer, quente, rápido, molhando a camisa, e aí a dor veio de verdade, rasgando, queimando, me fazendo ranger os dentes pra não gritar feito moleque.
— Filho da p**a — eu rosno pra mim mesmo, sentindo o corpo inteiro querer reagir, e o Foguete me agarra pela cintura, me puxando pro canto de uma parede, porque ele viu antes de mim que eu tinha virado alvo.
— Tu tá sem colete, p***a, tu tá maluco? — ele fala com o desespero contido, olhando meu ombro, vendo o sangue. — traz a p***a do colete pro patrão c*****o — ele fala com meu segurança que ia tirando o próprio e na mesma hora tomou um tiro na cabeça morrendo do nosso lado
— enfia o colete no cu, eu quero a cabeça de quem tá achando que vai dominar a p***a do meu morro c*****o — eu falo puto e o foguete ia tirando o colete dele pra me dar mas eu impeço — vai se fuder foguete, eu quero sangue, c*****o, essa p***a não me faz não — eu tava muito puto
Só pensava na filha da p**a presa lá dentro e na mesa hora me afastei ligando lá pra casa
— já to no cofre meu filho, a Thaís tá segura, eu tô com ela — a coroa que cuida da minha filha fala e eu desligo sem falar nada.
Minha filha é meu segredo de estado, ninguém sabe dela, só o foguete, e eu não deixo ela sair pra nada, desde que a p**a da mãe dela abandonou ela na minha casa eu nunca mais fui atrás, é só eu e ela, a mãe do foguete que toma conta dela pra mim, e eu mantenho tudo no sigilo pela segurança da minha menina, ela é a única nesse mundo que tem outra versão de mim que ninguém nunca vai ter, ela é a minha única preocupação tirando a minha favela.
Eu sempre mantive isso aqui impenetrável, pra vim uma p**a e dar o mapa da minha favela ?
Aquela vagabunda morre hoje!
— se liga aí p***a — o foguete grita e meu outro segurança larga uma rajada num grupo de menor completamente despreparado que vinha na direção atirando pra todos os lados sem preparo nenhum e aquela p***a me deixou ainda mais puto. Porque gente sem preparo faz mais arruaça do que tiro certo, é isso e ainda mais perigoso pros meus morador e o tanto de inocente que tinha na rua.