Alice narrando
Eu não acreditei quando ele falou que ia prender nós duas por causa de uma dívida da minha irmã, porque parecia que o mundo inteiro insistia em me empurrar para dentro das merdas da Lara, mesmo quando eu sempre fiz de tudo para ficar fora desse caminho. Era sempre por causa dela, sempre o mesmo roteiro, e eu, que nunca tinha entrado no caminho do Sorriso, agora ia ficar presa por ele por causa das escolhas que eu não fiz. A incredulidade virou revolta rápido demais, mas não deu tempo nem de abrir a boca direito, porque ele já estava nos puxando com força, decidido, sem ouvir nada, como se nossas vozes não tivessem peso nenhum naquele lugar.
Ele nos arrastou até a sala do almoxarifado, e cada passo parecia pior que o outro. A minha irmã vinha na frente, apanhando na base do tapa, sendo jogada contra a parede, o rosto dela batendo no concreto, no ferro, em tudo o que aparecia pelo caminho, e eu vinha sendo carregada pelo outro braço dele, tentando me soltar, tentando gritar para ele parar, tentando proteger alguém que nunca quis ser protegida. Eu não conseguia. Não conseguia fazer ele parar, não conseguia impedir, não conseguia nada. Ele batia nela com ódio, batia com a cara dela na parede, batia em todo quanto é canto, enquanto comigo ele não fazia nada além de me arrastar, como se eu fosse só um peso inútil pendurado no braço dele.
Ele abriu a porta do almoxarifado e jogou nós duas lá dentro como se fôssemos dois sacos de lixo, literalmente no meio dos lixos, das caixas velhas, dos sacos descartáveis, do cheiro azedo de coisa jogada fora. A Lara caiu primeiro, gemendo, e antes que eu conseguisse me ajoelhar ao lado dela, ele sacou a arma e enfiou dentro da cara dela, o metal brilhando perto demais do rosto já todo machucado.
— Tenta qualquer gracinha que tu vai ver o que vai te acontecer — ele disse com a voz fria, sem emoção nenhuma, enquanto pressionava a arma no rosto dela. — Tu só sai das minhas mãos na hora que pagar tudo o que tu me deve, sua v***a.
A frase nem terminou e a coronhada veio seca, violenta, apagando a minha irmã ali mesmo, o corpo dela ficando mole no chão. Eu gritei, berrei, me joguei em cima dela, implorando para ele parar, o desespero rasgando meu peito, a garganta ardendo de tanto gritar. Ele me olhou sério, daquele jeito que não pede nem desculpa nem explicação, virou as costas, saiu e fechou a porta com força, trancando a gente ali dentro como se fosse um castigo definitivo.
O silêncio que ficou foi quebrado só pelos tiros ecoando lá fora e pela minha respiração descompassada. Eu me arrastei até a Lara, sacudi o corpo dela com cuidado e desespero, sentindo o pânico tomar conta de tudo quando vi o estado em que ela estava.
— Acorda, Lara, pelo amor de Deus, acorda — eu repetia, a voz falhando, as mãos tremendo enquanto tentava trazer ela de volta.
Ela estava muito machucada, o cabelo todo desgrenhado, a roupa rasgada, o rosto inchado e ensanguentado, e eu não fazia ideia de onde minha irmã tinha andado, mas tinha certeza absoluta de que, de todas as merdas que ela já tinha feito, aquela tinha passado de todos os limites possíveis. Todo mundo falava que ela e o Sorriso tinham um caso, mas se aquilo ali era ter um caso com alguém, eu já tinha tacado fogo em tudo fazia tempo.
Ela começou a acordar devagar, gemendo, confusa, e do nada me empurrou com força, me jogando longe. Eu bati com as costas na estante de ferro e caí no chão sem ar, sentindo uma dor horrível no peito enquanto já chorava de nervoso, de medo, de cansaço acumulado de uma vida inteira tentando segurar alguém que só queria cair.
— Pelo amor de Deus, Lara, por que toda vez você tem que fazer essas merdas? — eu falei ofegante, sentada no chão, tentando recuperar o ar. — Olha a situação que você enfiou a gente.
Ela deu uma risada torta, limpa o canto da boca com a mão, toda ensanguentada, e como se aquilo tudo fosse nada, enfiou a mão por dentro da roupa e puxou um celular de dentro da b****a dela, intacto, funcionando, como se fosse um troféu.
— Cala a boca, Alice — ela falou com desprezo, mexendo no aparelho como se estivesse na sala de casa. — Ninguém mandou você se envolver na p***a dos meus problemas. Burra é tu. Não era nem pra tu estar aqui, vagabunda. Para de querer ser a certinha da cabeça de tudo. Eu não aguento mais ouvir tua voz.
Aquilo me cortou mais do que qualquer tapa. Eu me levantei cambaleando, fui até ela e tentei tirar o celular da mão dela, tentando falar como gente, tentando fazer ela parar de me tratar como bicho, como lixo.
— Eu tô tentando te ajudar, sua i*****l — eu gritei, o choro misturado com a raiva. — Você só faz merda. Olha a situação que a gente tá por sua culpa.
Ela me empurrou de novo, me jogando em cima dos sacos de lixo descartável, o cheiro forte subindo, a humilhação grudando na pele.
— Eu não te pedi p***a nenhuma, Alice — ela rebateu, já discando um número no celular. — Tô mais uma vez entrando na p***a do meu caminho. Tô cansada de você se metendo nos meus bagulhos.
Ela levou o celular ao ouvido, começou a falar com alguém, e eu tentei tomar de novo da mão dela, desesperada para entender que mais merda ela estava fazendo, com quem estava falando, que fundo ela ainda podia cavar. Do lado de fora, os tiros continuavam ecoando, um atrás do outro, e eu só conseguia imaginar o tanto de gente que ia chegar ferida no posto, porque o morro ainda estava lotado por causa da merda do baile de ontem.
E ali, sentada no chão, suja de lixo, com a minha irmã rindo e ligando para alguém enquanto a guerra estourava do lado de fora, eu senti um cansaço profundo tomar conta de mim. Eu estava cansada de livrar a Lara de toda a merda que ela fazia, cansada de ser o escudo, o freio, a enfermeira da vida dela. Alguma coisa dentro de mim dizia que daquela vez ela tinha passado de todos os limites possíveis, que aquilo não ia acabar bem, e que, como sempre, não ia acabar bem para mim, que nunca quis me envolver com nada que tivesse cheiro de tráfico, arma ou sangue.
E mesmo assim, eu estava ali. Presa. No meio do lixo. Com o morro pegando fogo lá fora.
— tá feito, pai, agora toma essa p***a pra gente, não deixa o sorriso escapar, e ele vai ver o que perdeu, o senhor me deve isso — ela fala e quando eu escuto aquilo eu fico completamente fora de mim e voou em cima dela
— pai ? Você tá maluca ? Que pai é esse ? Que merda você se enfiou Lara ? — eu grito tentando tomar o celular das mãos dela e nos embolamos na porrada
Eu nunca tinha saído na mão com ninguém e nem me orgulharia de tampar na porrada com a minha irmã, mas eu sabia que ela estava fazendo uma merda muito grande e eu tinha que tentar impedir
Ela me acertou um soco na cara que me desorientou na hora, eu caí e puxei ela junto comigo, eu comecei a puxar o cabelo dela, a dar na cara dela, tentando olhar aquela merda daquele celular mas ela protegia aquilo com a vida.
Eu sabia que estar aqui pra ela tinha algum motivo, ela não veio pra cá atoa, talvez ela quisesse o ponto certo de onde o sorriso e o foguete estavam pra essa guerra começar, e como ela sabe do ódio que ele estava dela, ela sabia que ele vinha atrás
— tu nunca mais vai encostar em mim, tu nunca mais vai se meter nos meus negócios, na minha vida — ela pega uma barra de ferro que estava ali do suporte da porta e começa a me bater muito
— para Lara, você ficou maluca, que merda e essa ? Que pai é esse ? Para Lara, para — eu tentava grudar na barra de ferro e ela só dava na minha cara, na minha cabeça e eu já estava ficando sem forças pra segurar ela
Ela dava só na minha cabeça, e eu tentava me defender, tentava segurar aquela barra de ferro, mas ela é mais sagaz que eu, mais rata que eu, e quando aquela barra de ferro pegou na minha nuca tudo ficou turvo e eu apaguei completamente
Quando abri os olhos de novo eu não reconheci onde estava, eu tentei me levantar rápido e tudo rodou minha cabeça estalou me fazendo soltar um gemido de dor
— não se mexe — eu ouvi a voz grossa do sorriso e consegui ver ele muito desfocado, eu sentia meus olhos pesados, e não tinha a menor noção de quanto tempo eu havia ficado apagada, ou de onde eu estava
— o que aconteceu ? Meus pais ? A Lara ? Onde eu tô ? Que lugar é esse ? Me solta — eu falo ficando tonta e tentando me levantar mas ele me segura numa cama que era macia demais pra qualquer hospital e eu comecei a ficar apavorada…