Capítulo 04

1843 Words
Sorriso/dante narrando Eu fiquei puto com a resposta que a Alice me deu, puto num nível que não é só raiva, é orgulho ferido, é sensação de estar sendo enfrentado em público por alguém que não devia ter coragem pra isso. Ela me deixou calado ali na hora, e isso não é comum, porque eu não sou homem de engolir desaforo em silêncio, muito menos vindo de quem acha que pode me peitar na rua como se eu fosse qualquer um. Eu fiquei parado por segundos demais, sentindo o sangue bater na cabeça, enquanto ela sustentava o olhar sem baixar a cabeça, e aquilo foi o suficiente pra me tirar do eixo. Não deu nem tempo de processar direito, porque assim que ela virou o beco e desceu, o rádio já chiou no meu ouvido, a voz do segurança atravessando o barulho da favela. — Aí, patrão, qual foi? — a voz sai apressada do rádio, e eu já sinto o pressentimento r**m se formando. — A Lara foi achada numa lixeira, tá lá no postinho. Na mesma hora o sangue ferveu de vez, quente, rápido, sem espaço pra raciocínio, porque tudo encaixou na minha cabeça como um quebra-cabeça sujo. Eu sabia. Sabia que aquela vagabunda da Alice tava encobrindo a irmã dela, como sempre fez, como sempre faz, protegendo alguém que vive tentando fuder com a própria vida e com a dela também. A Lara passa a existência inteira humilhando a Alice, tirando com a cara dela como se fosse rica, como se tivesse dinheiro, como se não fosse uma fodida igual, sem merda no cu pra cagar, mas cheia de pose, cheia de desprezo por quem tenta ajudar. E a Alice, certinha, na dela, fazendo o corre dela na dela, trabalhando naquele posto igual uma filha da p**a, ainda insiste em proteger uma mulher que não merece amor nenhum, que não merece proteção de ninguém. Eu não pensei duas vezes. Peguei a moto e vazei pro postinho, acelerando como se a rua fosse minha, cortando o morro, ignorando tudo ao redor, porque naquele momento só existia uma coisa: a minha carga e a filha da p**a que tinha sumido com ela. Cheguei lá já indo pra cima, sem perguntar, sem ouvir, sem dar espaço pra explicação, porque explicação não paga prejuízo. Ela tava toda arrebentada, jogada na maca, suja, machucada, fedendo a rua, mas eu não quis nem saber. A mão foi direto no pescoço dela, apertando com raiva, puxando aquele corpo quebrado pra perto. — Cadê a p***a da minha droga, sua filha da p**a? — eu grito, sentindo o ódio sair junto com a voz, os dedos marcando a pele dela, porque naquele momento só existia dívida e desrespeito. Foi quando a Alice entrou no meio dos meus braços, sem pensar, sem medo, empurrando meu peito, se colocando entre mim e a irmã como se fosse escudo humano, como se o corpo dela fosse suficiente pra me parar. — Larga a minha irmã, larga! — ela grita, a voz desesperada, mas firme, empurrando de novo, sem recuar. — Para com isso, aqui não é a boca, chega! Ela me empurra, entra na frente da Lara, abre os braços protegendo aquele lixo humano como se estivesse defendendo alguma coisa sagrada, e ali alguma coisa estoura de vez dentro de mim. Não é só raiva. Não é só ódio. É cegueira pura. Eu fico cego. Completamente cego. Porque naquela cena eu não vejo mais dívida, não vejo mais carga, não vejo mais regra nenhuma, eu só vejo a Alice se colocando no meio do fogo por alguém que não faria o mesmo por ela, e isso me deixa fora de mim de um jeito que eu nunca senti antes. E naquele segundo eu sei, com uma clareza assustadora, que aquela história já saiu do controle faz tempo, e sem a minha droga ou o meu dinheiro eu não ia ficar, uma das duas filhas da p**a ia pagar, e se fosse a Alice eu ainda ia sair no lucro, porque sei que dinheiro ela não tem. — vai tomar no cu, p***a, tá achando o que quem manda nesse c*****o sou eu — eu empurro ela pra longe fazendo ela cair em cima do maquinário que estava ali pra cuidar da p**a da Lara — sorriso, vamos conversar, eu fui sequestrada — a Lara tenta argumentar achando que eu vou cair na mentira dela — me roubaram cara, eu passei o inferno, os caras queriam te pegar…— ela começa a fazer o show dela e eu corto na hora — tá achando que tem algum otario nessa p***a ? Eu tô cansado das tuas mentiras Lara, eu quero a p***a da minha droga ou quem paga vai ser tua irmã — eu falo pegando a Alice pelo pescoço e eu sei que a Lara estava armando alguma merda Ela não liga pra irmã, ela não liga pra ninguém a não ser o próprio bolso, a própria vida, e a p***a do seu próprio umbigo. — fala Lara, larga essa p***a, da a droga dele, eu não tenho que pagar por isso, fala a verdade nem que seja uma vez na tua vida — a Alice pede revoltada tentando se soltar de mim — eles querem a sua cabeça, eu juro pra você, eu não tenho porque mentir pra você, eu não ligo para o que você quiser fazer com ela, mas eu não ia ficar sem a minha grana — ela fala e eu dou risada A Lara realmente acha que eu sou burro, que eu sou o****o, não é possível. Ela acha que eu não sei que ela foi jogada nessa lixeira pela manhã ? Que os machucados dela são só superficiais, e que ela tá armando pra mim ? Tá mais do que claro pô. Eu posso não saber com quem, mas eu sei que ela tá armando pra mim, isso é fato. E eu não ia cair na dela — me solta, sorriso, eu preciso cuidar dela — a Alice fala e eu me irrito em como uma pessoa pode amar tanto alguém assim, pode ser tão parte de alguém assim que não vê a armação contra ela mesma ali bem escrachada na sua própria cara. A Lara cospe uma risada fraca, dolorida, mas cheia de veneno, vira o rosto um pouco e responde com desprezo, como se aquela situação toda fosse só mais um teatro. — Para de se meter na minha vida, Alice — ela diz, fazendo força pra se sentar, mesmo toda quebrada, a voz carregada de deboche. — Eu fui sequestrada, p***a. Os caras me pegaram, me largaram naquela lixeira e acabou. Não tem nada pra você resolver aqui. Some. A Alice balança a cabeça na hora, o rosto vermelho, os olhos marejados de raiva e frustração, porque ela conhece aquela mentira desde sempre, conhece o tom, conhece o jeito, conhece o cheiro de mentira da irmã melhor do que qualquer um ali. — Você tá mentindo de novo — ela rebate, a mão tremendo enquanto ajeita a Lara na maca à força, tentando cuidar mesmo contra a vontade dela. — Você sempre mente, sempre se enfia em merda e depois manda eu sair fora, como se eu não fosse tua irmã. Você não vai sair daqui desse jeito, eu vou te cuidar, querendo você ou não. — Eu não preciso de você, c*****o — a Lara explode, tentando empurrar a Alice, mesmo sem força, o ódio vazando junto com a dor. — Para de pagar de salvadora, você não é melhor do que ninguém aqui. Some da minha frente. Eu observo aquilo com o maxilar travado, o sangue fervendo, porque ali não é só briga de irmãs, é uma sucessão de mentiras, dívidas e desgraça que eu já conheço bem. A Alice tentando segurar o mundo sozinha, a Lara tentando destruir tudo ao redor pra não ter que assumir nada, e eu no meio dessa p***a toda com uma carga sumida, um nome em jogo e o morro fervendo. Antes que eu consiga falar qualquer coisa, o barulho estoura lá fora. Não é grito comum, não é correria normal, é tiro seco, sequência rápida, rádio chiando ao mesmo tempo. A porta do posto abre com tudo e o Foguete entra correndo, suado, com o olho arregalado e o fuzil pendurado no peito. — Sorriso, começou — ele fala rápido, quase sem fôlego, olhando em volta pra garantir que ninguém mais tá ouvindo. — tão invadindo p***a, fala p*****a, pra quem tu entregou nos, fala v***a — o foguete acerta um murro na boca da Lara que tomba toda pro lado quase caindo da maca Na mesma hora o clima muda. O posto, que já tava tenso, vira panela de pressão. Gente se mexendo, enfermeiro se encolhendo, barulho de tiro ficando mais perto. Eu sinto aquele frio velho subir pela espinha, junto com a clareza que só aparece na hora da guerra. — Fecha isso aqui agora e vaza — eu falo com o Foguete, já me virando, sentindo o corpo entrar no automático. — Chama os moleque e segura essa p***a. Mas antes de sair, eu olho pras duas. A Alice grudada na irmã, tentando proteger, tentando cuidar, tentando salvar quem não quer ser salva. A Lara olhando pra mim com ódio, medo e desafio misturado. E ali eu tomo a decisão que ninguém gosta, mas que resolve problema. — Vocês duas tão vindo comigo — eu digo, puxando a arma pra perto do corpo, o olhar duro, sem espaço pra negociação. — As duas. Agora. — Você enlouqueceu? — a Alice reage na hora, se colocando de novo na frente da Lara, o corpo tenso, a voz firme mesmo com o caos estourando lá fora. — Você não vai prender a gente, isso aqui é um posto de saúde. — Vai sim — eu respondo, sem elevar a voz, mas deixando claro que acabou conversa, enquanto sinalizo pros meus homens. — Porque se essa invasão estourar aqui dentro, ninguém vai sobrar pra contar história, e essa p**a vai me pagar, e na que tu protege tanto essa vagabunda você fica junto — eu falo e a Alice tenta contestar, a Lara parecia satisfeita com essa invasão e ali eu já tive a certeza Essa p*****a me entregou pra alguém, e eu precisava descobrir quem tava subindo a p***a da minha favela em plena luz do dia, com o morro lotado pós baile ainda Os tiros lá fora aumentam, o rádio não para, e eu já tô puxando as duas, uma pela força, a outra pela maca improvisada, porque naquela hora não tem escolha bonita, não tem conversa certa, só tem sobrevivência. A Alice me xinga, a Lara me ameaça com o olhar, e eu sigo em frente, porque guerra não espera ninguém se resolver emocionalmente. E enquanto a favela começa a pegar fogo do lado de fora, eu sei que prender aquelas duas antes de entrar no confronto foi a única decisão possível, mesmo sabendo que isso ia custar caro depois.
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