Capítulo 03

2093 Words
Alice narrando Hoje o dia prometia, e eu não tinha como ficar ali perdendo tempo procurando notícias de quem não quer ser achado. Dia seguinte de baile nunca é tranquilo, e eu já sabia que o plantão ia estar cheio de gente passando m*l, ressaca forte, desidratação, enjoo, moleque querendo atestado sem ter nada, confusão de quem misturou bebida com coisa errada e achou que o corpo ia aguentar. Já tô até acostumada com esse tipo de caos, porque no morro nada termina quando a música acaba, tudo continua extremamente movimentado no dia seguinte, nos corpos, nas casas, nas ruas porque a favela não para a não ser em dia de luto. Fui direto pro banheiro, tomei um banho demorado, tentando acordar de verdade enquanto a água caía quente nas costas, e depois me vesti com a mesma rotina de sempre, a calça branca passada, a blusa branca limpa, separando mentalmente o que eu ia enfrentar dali a algumas horas. Chegando no postinho era só vestir aquele pijaminha azul de enfermeira, que eu chamava de maravilhoso porque, apesar de simples, me lembrava quem eu era ali dentro, e o tanto que eu estudei pra chegar até aqui, e começar a trabalhar sem pensar muito, porque pensar demais naquele lugar quase sempre machuca. Quando saí do quarto ajeitando a bolsa no sofá, conferindo se não tinha esquecido nada, meus pais estavam na sala de jantar, sentados um de frente pro outro, com a mesa posta, café fresco passando e aquele barulho distante do baile ainda ecoando ao fundo, grave, insistente, como se a madrugada tivesse se recusado a ir embora. — Bom dia, minha linda, vem tomar café com a gente — meu pai me chamou com aquele sorriso cansado, mas sincero, enquanto eu fechava o zíper da bolsa e respirava fundo antes de ir até eles. — Ainda dá tempo. — ele fala feliz porque é raro conseguirmos tomar café juntos desde que eu comecei a estagiar e depois já fui efetivada, e nunca mais parei em casa direito. Eu fui, sentei à mesa, aceitei a xícara que minha mãe empurrou na minha direção, sentindo o cheiro do café misturado com o som distante da música que ainda vinha do morro, porque o baile claramente não tinha acabado de verdade. — Esse barulho ainda tá rolando desde ontem? — eu pergunto enquanto mexo o café devagar, olhando pela janela como se pudesse enxergar o caos lá fora. — Parece que nunca termina eu não sei como esse povo aguenta, daqui a pouco tá todo mundo lá no posto e eu que fique doida pra aturar um bando de bebado querendo atestado. — eu falo fazendo drama e eles dão risada — Terminou oficialmente, mas tu sabe como é — meu pai responde com a voz baixa, resignada, enquanto passa a manteiga no pão. — Sempre tem gente que não quer ir embora. A conversa segue leve por alguns minutos, falando do meu plantão, do movimento que eu já esperava, da bagunça que ia sobrar pra mim organizar, até que aquela pergunta escapa da minha boca antes mesmo de eu conseguir segurar, do mesmo jeito que sempre acontece. — Vocês viram a Lara por aí? — eu pergunto tentando soar casual, mas sabendo que nunca soa, porque meu tom sempre entrega demais. — Ou ouviram alguma coisa dela? — eu não sei, quem sabe ela tivesse vindo no baile ou algo assim, não dá pra duvidar de nada vindo dela O silêncio que se instala é pesado, daqueles que dizem mais do que qualquer resposta. Meus pais se entreolham rápido, sérios, e minha mãe desvia o olhar pra xícara, como se tivesse algo interessante demais ali dentro. — Não, Alice — meu pai responde por fim, com cuidado, como quem pisa em vidro. — Não vimos nada, aliás, tem meses que eu não vejo sua irmã…— ele solta um suspiro frustrado — E também não tivemos notícia nenhuma — minha mãe completa logo depois, a voz controlada demais, evitando prolongar o assunto, porque eles nunca entram fundo quando se trata da Lara, não por falta de amor, mas por cansaço, por medo, por dor acumulada ao longo dos anos. Eu sei que isso magoa eles. Sei que cada vez que eu trago o nome da Lara pra mesa, é como se eu reabrisse uma ferida que eles passaram a vida tentando fechar. Mas às vezes é mais forte que eu. Às vezes parece que, se eu não perguntar, se eu fingir que não existe, alguma coisa muito errada vai acontecer, como se o silêncio fosse como se eu finalmente tivesse aberto mão dela, e esse sentimento é horrível, eu confesso. O café termina rápido depois disso. Eu me levanto, beijo os dois, abraço minha mãe mais tempo do que o normal, e ajeito a bolsa no ombro sentindo aquele aperto conhecido no peito, metade culpa, metade medo. — Se cuida, tá? — meu pai diz, levantando junto comigo, a mão pousando no meu ombro com aquele cuidado que nunca mudou. — Qualquer coisa liga. — Eu ligo — respondo, tentando sorrir, antes de caminhar até a porta. — Amo vocês. Saio de casa com o som do morro ainda vivo ao redor, o cheiro de manhã misturado com noite m*l dormida, e aquela sensação constante de que eu tô sempre andando entre dois mundos, um que me acolheu e outro que insiste em me puxar de volta. Ajusto o passo, respiro fundo e sigo em direção ao plantão, sabendo que, como quase todos os dias, meu trabalho não vai ser só cuidar de corpos, mas tentar, mais uma vez, salvar alguém que talvez nem queira ser salva. Falo com alguns moradores pelo caminho porque confesso que sou muito querida pela maioria aqui, até mesmo por algumas putas que eu sempre salvo com pilula anticoncepcional, ou com um teste de gravidez avisando o negativo, os moleques daqui a maioria eu já costurei, então eu digo que ando por aqui tranquila porque não tenho problema com ninguém, sempre fui muito correria, e todos que eu posso ajudar eu ajudo sem pensar duas vezes, eu tô sempre ajudando na pastoral da criança que é um evento mensal que nós fazemos pra verificar peso e vacinas das crianças aqui do morro, que é no mesmo dia que o sorriso distribui cesta básica, inclusive, eu tô sempre me esforçando pelo povo daqui, porque eu amo, eu escolhi esse lugar, como ele me acolheu a anos atrás graças aos meus pais, e mesmo com todos os problemas da favela eu nunca me vi fora daqui. Eu tomei um susto quando senti meu braço ser puxado de lateral, meu corpo batendo no beco com toda força a ponto de eu sentir as pedrinhas do chapisco batendo nas minhas costas, mas eu não demonstro isso pra ele. A mão dele no meu pescoço não me paralisa, mas acende alguma coisa feia dentro de mim, uma mistura de raiva, humilhação e cansaço acumulado de anos sendo confundida com alguém que eu não sou. O corpo inteiro reage antes mesmo da cabeça organizar o pensamento, porque não é a primeira vez que ele me encara como se eu carregasse culpa nos olhos, e talvez seja exatamente isso que mais me irrita. Eu tento me soltar, sinto a parede fria nas costas, o beco estreito, os olhares em volta, e mesmo assim não abaixo a cabeça, porque se tem uma coisa que eu aprendi no morro é que quem abaixa perde espaço. — Eu não tô maluca não, eu sei muito bem com quem eu tô falando — eu respondo com a voz firme, empurrando o peito dele com o antebraço, mesmo sabendo que não vou tirá-lo do lugar. — E você sabe muito bem que eu não tenho nenhum tipo de relação com a minha irmã. O aperto da mão dele no meu pescoço muda de pressão, não chega a machucar, mas deixa claro que ele quer me intimidar, quer me lembrar quem manda ali, e isso só me deixa mais p**a, porque eu não devo nada pra ele, nunca devo, nunca negociei, nunca aceitei nada vindo daquele mundo. — Então não tem porquê você tá metendo o dedo na minha cara como se eu soubesse alguma coisa de alguém que trabalha pra você — continuo, sentindo o sangue bater forte no ouvido, o coração acelerado, mas a língua afiada do mesmo jeito. — Eu não faço parte dos seus acordos, eu nunca fiz acordo nenhum com você. Eu vejo um fogo crescendo no seu olhar, com o ódio que ele tem não sei se de mim, ou da minha irmã, mas eu sabia que naquele momento ele queria me matar só pela forma como ele me olhava. — Eu até queria muito saber dela — digo em seguida, e minha voz falha só um milímetro, o suficiente pra me irritar comigo mesma, mas não pra me calar. — Queria saber se ela tá viva, se tá respirando, se não morreu em algum canto dessa cidade. Mas eu não sei. Eu respiro fundo, tentando manter o controle enquanto o corpo inteiro treme por dentro, não de medo, mas de frustração, de impotência, de estar sempre no meio de uma guerra que eu não escolhi lutar. — E não me pega desse jeito na rua — eu completo, encarando ele sem desviar o olhar, mesmo com o coração martelando no peito. — Porque eu não devo nada pra você. O silêncio que se forma entre nós é pesado, quase físico, e eu sinto que ali não é só uma cobrança, não é só sobre a Lara, não é só sobre uma carga que eu nem sei qual é. Tem algo torto naquele olhar, algo que mistura raiva, reconhecimento e uma confusão que ele claramente não sabe lidar, e isso me deixa ainda mais alerta, ainda mais armada por dentro. Eu não sou a minha irmã. Nunca fui. E mesmo assim, parece que naquele beco, com a mão dele ainda no meu pescoço e o morro inteiro respirando em volta, eu tô sendo julgada pelo reflexo de alguém que carrega o meu rosto, mas fez escolhas que eu nunca fiz. E isso, mais do que a violência do toque, é o que mais machuca. — se a tua irmã não aparecer em 48h tu se prepara porque a tua vida vai virar um inferno, e se eu descobrir que tu tá protegendo aquela p*****a tu morre junto com ela — ele me solta e eu reviro os olhos — você sabe meu endereço e onde eu trabalho, só não seja covarde e lembra quem ajuda a manter esse morro de pé quando explode uma merda de uma operação — eu rebato sem medo dele e saio descendo o beco p**a com o coração vibrando de ódio Ele é um escroto, machista do c*****o, que se acha só porque é o dono daqui, mas eu não vou aceitar ser humilhada pelas coisas que a minha irmã faz, pelos acordos sujos deles… — aí Lara, o que você aprontou agora, você não vai cansar nunca ? — eu falo sozinha chegando no posto e vejo uma movimentação gigante lá — Alice ainda bem que você chegou, corre aqui, sua irmã foi achada dentro de uma lixeira, olha o estado dela — a Isadora uma amiga minha me chama e eu nem troco de roupa já saio correndo na direção que ela foi pra tentar saber o que estava acontecendo com o coração batendo na boca de desespero — me solta, p***a, me solta, eu quero sair daqui, me solta c*****o — ela gritava se debatendo e quando eu olho o estado da minha irmã meus olhos enchem de lágrimas, não era o meu reflexo, nem de longe chegava a parecer um ser humano — Alice manda esses filha da p**a me soltar, p***a, faz alguma coisa c*****o — ela grita e quando eu ia me virar pra sair daquela situação por não aguentar ver minha irmã naquele estado, eu dou de cara com uma parede de músculos e quando olho pra cima eu vejo ele que tinha acabado de quase me matar naquele beco e agora o olhar dele era de puro ódio pra cima da única pessoa que tem meu sangue nesse mundo — sua filha da p**a onde você estava, vagabunda ? — ele vai pra cima dela quase passando por cima de mim e eu saio correndo entrando no meio sentindo o meu corpo tremer mais que bateria de escola de samba na avenida
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