Cedro do Abaeté

1392 Words
O sol nascia preguiçoso sobre Cedro do Abaeté, tingindo de dourado os telhados simples e as ruas pacatas. A pequena cidade mineira acordava com o canto dos galos e o cheiro de pão fresco vindo da padaria da Dona Lurdes. Era um lugar onde o tempo parecia andar mais devagar, e os corações batiam em sintonia com a natureza. Na casa de número 42 da Rua das Acácias, Gisele Ricci, de apenas sete anos, observava o céu pela janela do quarto. Os olhos castanhos, grandes e curiosos, refletiam uma tristeza silenciosa. Naquela manhã, o mundo parecia diferente. A ausência da mãe, que partira há poucos dias, deixava um vazio impossível de preencher. Seu pai, Antônio Ricci, homem de mãos calejadas e coração imenso, tentava sorrir enquanto preparava o café. A dor também morava com nele, mas havia decidido que Gisele não seria criada pela tristeza. Seria criada pelo amor. — Bom dia, minha flor. — Disse ele, com a voz embargada, mas firme. — Hoje é dia de escola, e a mamãe ia querer te ver sorrindo. Gisele assentiu com um pequeno sorriso. Sabia que, mesmo sem entender tudo, o pai estava tentando. E ela também tentaria. Na escola primária da cidade, Gisele era conhecida por sua gentileza e inteligência. Naquele ano, na primeira série, ela conheceu Lucas Bueno. Um menino de cabelos escuros e sorriso fácil, que logo se tornou seu companheiro de brincadeiras, segredos e descobertas. — Quer ser minha amiga? — Perguntou ele, oferecendo um pedaço de goiabada embrulhado em papel de pão. — Só se for para sempre! — Respondeu Gisele, com a sinceridade que só as crianças têm. E foi. A amizade deles cresceu como as árvores do cerrado: forte, resistente, cheia de vida. Cedro do Abaeté os viu crescer lado a lado, como se o destino já tivesse escrito as suas histórias com a mesma tinta. Antônio Ricci segurava firme a mão da filha enquanto caminhavam em silêncio pela rua recém-asfaltada. O uniforme azul-claro da escola contrastava com o semblante sério de Gisele, que olhava para o chão, contando as pedras como se fossem passos para longe da saudade. Ao chegar ao portão da Escola Municipal Dona Clarice, nome da primeira professora que a cidade teve, Antônio se abaixou diante da filha, e sorrindo falou: — Vai dar tudo certo, minha flor. A professora Marta é uma boa pessoa. E seus amigos vão te ajudar a sorrir de novo. Gisele assentiu com um leve movimento de cabeça. Não havia palavras suficientes para explicar o que sentia, nenhuma criança está preparada para perder a mãe aos 7 anos de idade, mas confiava no pai como se ele fosse o próprio chão sob os seus pés. A professora Marta, uma mulher de meia-idade com olhos gentis e voz acolhedora, os recebeu com um sorriso suave. — Bom dia, Antônio. Bom dia, Gisele. Que bom ver vocês aqui. Seus amigos estavam com saudades de você. — Falou gentilmente. — Professora… — Começou Antônio, com a voz embargada. — Eu queria conversar um minutinho, se puder. Ela o conduziu até um canto do pátio, enquanto Gisele se sentava no banco perto da sala, observando os colegas que chegavam. — A Gisele… ela tá tentando ser forte. Mas perdeu a mãe há poucos dias. Foi tudo muito rápido. Eu tô fazendo o possível, mas sei que aqui na escola ela vai precisar de apoio também. Marta colocou a mão no ombro dele, com ternura. — Sinto muito, Antônio. A Maria era uma mulher maravilhosa. E Gisele é uma menina doce, sensível. Vamos cuidar dela com carinho. Vou ficar de olho, conversar com ela, e garantir que se sinta acolhida. — Obrigado, professora. Ela gosta muito da senhora. E dos amigos também. Acho que isso vai ajudar. — Vai sim. Criança tem uma força que a gente nem imagina. E com amor, tudo se transforma. Antônio respirou fundo, tentando conter a emoção. Olhou para a filha, que agora sorria timidamente ao ver Lucas se aproximar com um desenho nas mãos. — Ela vai ficar bem, aquele menino Lucas, faz tudo para vê-la sorrir. — Disse Marta, com convicção. E naquele instante, entre o som da sineta e o cheiro de giz, Gisele deu o seu primeiro passo rumo à reconstrução. A escola não seria apenas um lugar de aprendizado, mas também de cura. O sol do meio-dia iluminava o pátio da Escola Municipal Dona Clarice, onde o recreio era o momento mais aguardado pelas crianças. Gisele, ainda um pouco retraída, começava a se soltar entre as brincadeiras das amigas. Leonor, Iva e outras meninas da turma brincavam de amarelinha, pulando com leveza sobre os quadrados riscados com giz no chão. — Vai, Gisele! Pula no sete! — Gritava Iva, rindo. Gisele sorriu. Pela primeira vez em dias, o riso escapou sem esforço. Sentia-se acolhida, como se o carinho das amigas fosse um cobertor sobre a dor. Do outro lado do pátio, os meninos jogavam futebol com uma bola de borracha já meio gasta. Lucas, sempre animado, corria com agilidade, tentando driblar Junior e Cássio. — Passa para mim! — Gritou Cássio. Lucas chutou com força, tentando fazer o gol. Mas a bola tomou um rumo inesperado, voou alto, atravessou o pátio e acertou Gisele bem nas costas. — Ai! — Ela exclamou, surpresa, caindo sentada no chão da amarelinha. As meninas correram para ajudá-la, enquanto Lucas parou, pálido, com os olhos arregalados. — Desculpa! Desculpa, Gisele! Eu não queria! — Disse ele, correndo até ela com o rosto cheio de culpa. Gisele olhou para ele, ainda assustada, mas logo percebeu que não foi por m*l. Lucas estendeu a mão, e ela aceitou. — Tá tudo bem… só me assustei — Disse ela, limpando a poeira do uniforme. — Eu sou péssimo de mira. — Brincou Lucas, tentando arrancar um sorriso. — Péssimo mesmo! — Disse Leonor, cruzando os braços. — Vai treinar com cones, não com gente! Todos riram, inclusive Gisele. E naquele instante, entre risos e desculpas, algo começou a se formar entre os dois uma conexão que ia além da amizade. Um laço que, mesmo entre boladas e tropeços, começava a se fortalecer. O sino da escola tocou anunciando o fim das aulas, e as crianças saíram em grupos animados, carregando mochilas nas costas e histórias fresquinhas para contar. Gisele caminhava ao lado de Lucas, Leonor, Cassio, Iva e Junior, os seis tornaram-se inseparáveis desde o primeiro dia de aula. A rua que levava às casas era ladeada por árvores altas e flores silvestres. O grupo seguia em fila desorganizada, rindo e conversando sobre as lições do dia, os desenhos que gostavam e os planos para o fim de semana. — Vocês viram o desenho que o Lucas fez na aula de artes? — Perguntou Junior, com um sorriso zombeteiro. — Era para desenhar uma casa e ele fez um foguete! — Era uma casa moderna! — Defendeu Lucas, rindo. — Vai ver um dia eu moro num foguete mesmo. — Eu quero morar numa farmácia — Disse Gisele, com os olhos brilhando. — Igual à da tia Marlene. Tem cheiro de remédio e tudo é tão limpinho… e ajuda as pessoas a ficarem boas. — Que estranho, Gisele! — Disse Iva, fazendo careta. — Eu quero morar numa loja de roupas. Toda a semana com um vestido novo! — Eu só quero morar onde tenha pão de queijo todo o dia. — Disse Cassio, arrancando gargalhadas do grupo. Leonor caminhava ao lado de Gisele, segurando a sua mão discretamente. Sabia que a amiga ainda estava triste, mas também percebia que o riso estava voltando aos poucos. — Você tá melhor hoje, né? — Perguntou baixinho. Gisele assentiu. — Tô. Quando tô com vocês, parece que a saudade fica mais leve. O grupo chegou à bifurcação onde cada um seguia para sua casa. Foram se despedindo com abraços e promessas de brincar no fim da tarde. — Até mais, foguete humano! — Gritou Junior para Lucas, correndo para o outro lado da rua. — Até amanhã, turma! — Disse Gisele, acenando com a mão. Enquanto caminhava com o pai, que a esperava no portão da escola, Gisele olhou para trás e viu os amigos se afastando. Sentiu que, mesmo com a dor da perda, havia algo precioso crescendo ali, uma amizade que seria sua fortaleza por muitos e muitos anos.
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