Ouro

784 Words
Saí da casa dele já tarde da noite. A rua estava quase vazia. Só o som distante de uma moto descendo o morro e a música baixa de algum bar aberto lá embaixo. O ar da noite estava fresco, mas meu corpo ainda estava quente. Caminhei devagar. Tentando organizar a cabeça. Tentando esquecer o que tinha acabado de acontecer. Mas era impossível. A cena no chuveiro voltava na minha mente como se estivesse acontecendo de novo. A água quente. O vapor. O corpo dele contra o meu. Passei a mão no rosto, irritada comigo mesma. — i****a… Murmurei. Como eu podia ter gostado daquilo? Barão não era gentil. Nunca foi. Ele era bruto, dominante, quase c***l às vezes. Mesmo assim… meu corpo tinha respondido. E isso me irritava ainda mais. Continuei descendo o morro. As luzes das casas iluminavam a rua de forma irregular, criando sombras nas paredes. Cruzei os braços, como se pudesse afastar aquele pensamento. — Para com isso, Cristal — falei baixinho para mim mesma. Mas minha mente insistia em voltar para o mesmo lugar. O olhar dele. O jeito como ele me segurava. A voz rouca no meu ouvido. Suspirei com força. — Você está se envolvendo demais. As palavras saíram quase como uma bronca. E eu sabia que eram verdade. Aquilo tinha começado como uma troca. Sexo por dinheiro. Nada mais. Era simples. Frio. Sem sentimento. Era assim que precisava continuar. Subi os últimos degraus da viela até minha casa. Antes de entrar, parei um momento na porta. Olhei para o céu escuro acima do morro. Respirei fundo. — Não esquece quem ele é. Abri a porta devagar e entrei. Meu pai já estava dormindo no quarto. Fui direto para o meu. Deitei na cama. Mas o sono demorou a chegar. Porque mesmo brigando comigo mesma… mesmo tentando me convencer do contrário… uma parte de mim ainda lembrava do calor da água no chuveiro… e do jeito que Barão tinha me olhado. E isso me assustava. Porque quanto mais eu voltava para a casa dele… mais difícil ficava fingir que aquilo não mexia comigo. Depois do almoço eu estava na cozinha lavando a louça quando ouvi o barulho da moto parando na frente da casa. Nem precisei olhar pela janela. Eu já sabia. Cabeça. Limpei as mãos no pano de prato e fui até a porta. Ele estava encostado na moto, como sempre. — Boa tarde, Cristal. — Boa tarde. Ele levantou o queixo na direção da moto. — O patrão mandou te buscar. Suspirei por dentro. Agora até durante o dia. Balancei a cabeça. — Já vou. Voltei um instante dentro de casa. Meu pai estava deitado no sofá assistindo televisão, o volume baixo. — Pai, vou ali na rua. Ele nem tirou os olhos da tela. — Tá bom, filha. Saí em silêncio. Subi na moto atrás de Cabeça e seguramos a subida do morro. O vento da tarde batia no rosto, levantando poeira nas vielas. Algumas crianças brincavam na rua, mulheres conversavam nas portas das casas. Mas minha cabeça estava longe. Barão me chamando no meio da tarde. Isso era novo. A moto parou na frente da casa dele poucos minutos depois. Desci. — Valeu, Cabeça. — Qualquer coisa eu tô por aí — respondeu ele. Empurrei a porta e entrei. Mas Barão não estava sozinho. Havia um homem de meia-idade sentado na sala com ele. Cabelo grisalho, camisa social aberta no pescoço, aparência de quem entendia exatamente o que estava fazendo ali. A mesa da sala estava coberta. Malas abertas. Dentro delas… ouro. Cordões grossos. Pulseiras pesadas. Brincos brilhando sob a luz. Parecia uma joalheria inteira espalhada pela mesa. Parei na porta. — Entra — disse Barão. A voz calma. Caminhei devagar até eles. O homem me olhou rapidamente, curioso. Barão encostou na mesa, cruzando os braços. — Escolhe. Franzi a testa. — O quê? Ele apontou para as malas abertas. — O que você quiser. Olhei para o ouro espalhado. — Barão… Ele deu um pequeno sorriso. — Eu falei que queria você cheia de ouro no baile. Meu coração apertou. O homem da joalheria abriu outra maleta. Mais peças. Mais brilho. — Temos peças novas — disse ele. — Tudo de primeira. Barão continuava me olhando. Esperando. — Escolhe, Cristal. Engoli seco. Peguei um dos cordões com cuidado. Pesado. Frio. O homem sorriu. — Esse é bom. Olhei para Barão. — Isso é muito. Ele deu de ombros. — Eu disse que pagava. Coloquei o cordão de volta na mesa por um instante. Porque naquele momento eu entendi algo. Quando eu aparecesse naquele baile… cheia de ouro… no camarote… ao lado dele… não haveria mais dúvida nenhuma no morro. Cristal… era do Barão.
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