A noite caiu sem que Marcela percebesse.
O dia tinha sido longo demais, pesado demais, cheio demais para que ela acompanhasse o tempo passando de forma normal. Quando finalmente se deu conta, já estava sentada no sofá da sala da casa da mãe, com o corpo cansado e a mente ainda mais.
Madalena tinha ido descansar cedo. O cansaço agora vinha mais rápido, mais intenso, e isso já começava a assustar Marcela de um jeito silencioso. Não era só o diagnóstico. Era o impacto visível que ele já começava a causar.
A casa estava quieta.
Grande demais para duas pessoas.
E naquele momento, parecia ainda maior.
Marcela pegou o celular sem muito objetivo, só para fugir do silêncio. Rolou a tela sem prestar atenção, passando por mensagens antigas, notificações que não importavam, até que algo chamou sua atenção.
O grupo.
“Meninas do plantão 💉🍷”.
Ela abriu.
As mensagens estavam rolando rápido.
Risos digitais, áudios, convites, aquelas interações leves que pareciam tão distantes da realidade dela naquele momento.
Uma mensagem apareceu no meio das outras: jantar aqui em casa hoje, nada chique, só vinho e música brega. Logo depois vieram respostas animadas, confirmações, gente dizendo que ia levar doce, outras perguntando quem mais iria.
Então apareceu o nome dela.
Marcela, você vem né?
Ela ficou olhando a tela por alguns segundos.
O convite parecia simples.
Mas pra ela… não era.
Sair, rir, fingir normalidade parecia quase impossível naquele estado. Mas, ao mesmo tempo, talvez fosse exatamente o que ela precisava. Um respiro, mesmo que pequeno, mesmo que temporário.
Ela digitou.
Eu vou sim.
Enviou.
E, pela primeira vez naquele dia, sentiu algo diferente do peso constante.
Não era felicidade.
Mas era um pequeno alívio.
Mais tarde, Marcela se arrumava no quarto. Nada elaborado, nada exagerado. Um vestido simples, confortável, cabelo solto, maquiagem leve só para esconder o cansaço.
Ela se olhou no espelho por alguns segundos, tentando se reconhecer, tentando ver ali a mulher que ela sempre foi e não a que estava se sentindo naquele momento.
Respirou fundo, pegou a bolsa e saiu.
A casa da amiga ficava em um bairro tranquilo, próximo ao hospital. Nada luxuoso, mas acolhedor. E foi exatamente isso que ela sentiu ao entrar.
Acolhimento.
O cheiro de comida.
O som de uma música antiga tocando baixo.
Risadas.
Vida.
Uma das meninas veio direto abraçar.
Marcela, sumida!
Ela riu, um riso leve, mas sincero.
Tô viva ainda.
Outra já puxou ela pra dentro, dizendo que naquela noite ela ia esquecer tudo e beber com elas.
Marcela assentiu, mesmo sabendo que não era tão simples assim.
A mesa já estava posta, com comida simples, mas feita com carinho. Vinho aberto, copos servidos.
As conversas começaram leves, com histórias do hospital, pacientes curiosos, situações absurdas que só quem vive aquele ambiente entende. Risadas vieram de verdade e, por alguns momentos, Marcela conseguiu se soltar, conseguiu respirar, conseguiu existir fora do problema.
Mas felicidade, quando é forçada, dura pouco.
A conversa foi mudando naturalmente, sem perceber, até que uma das meninas comentou de forma casual sobre o Lucas. O ex-marido de Marcela, ele era muito presente nas rodas de amigos, era comum almoços de amigos em casal.
Marcela travou por um segundo.
Pequeno, mas perceptível.
Ela respondeu tentando manter o tom leve, dizendo que ele não tinha sumido. Uma das amigas comentou que achava que ele já tinha desistido, mas Marcela soltou uma risada sem humor e disse que ele não desistia de nada, principalmente quando envolvia dinheiro.
As meninas trocaram olhares. Sabiam de algumas coisas, mas não sabiam tudo.
Perguntaram se ele ainda a procurava.
Marcela pegou o copo de vinho, deu um gole e respondeu que ele mandava mensagem quase todo dia. Disse também que às vezes ele aparecia no hospital e ficava esperando ela sair.
Uma das amigas se mostrou surpresa, dizendo que aquilo era absurdo.
Marcela confirmou, dizendo que ele falava que a amava, que queria voltar, que tinha errado, mas que sempre terminava pedindo dinheiro.
O clima mudou completamente.
Perguntaram se ele ainda estava jogando.
Marcela respondeu que mais do que antes.
O silêncio tomou conta da mesa.
Ela contou que recentemente ele apareceu dizendo que estava perto de ganhar uma grande quantia, que só precisava de ajuda para entrar em uma aposta maior. Disse que nem respondeu.
As vozes vieram indignadas, sugerindo que ela denunciasse, que bloqueasse tudo, mas Marcela explicou que já tinha bloqueado e que ele sempre arrumava outro número.
O silêncio voltou, mais profundo.
Foi ali que ela quebrou.
Disse que estava cansada.
A frase saiu baixa, mas carregada.
Os olhos encheram e, dessa vez, ela não conseguiu segurar.
Disse que estava cansada de tudo aquilo, que se separou porque não dava mais, porque ele tinha acabado com tudo, com o dinheiro, com a paz, com a cabeça dela.
As lágrimas começaram a cair sem controle.
Ela contou que juntou o que conseguiu, vendeu o carro, comprou um mais simples, guardou tudo que podia para tentar recomeçar, para ajudar a mãe, para ficarem bem.
E então disse que levou um golpe.
Perdeu tudo.
Tudo.
Uma das amigas sentou ao lado dela, tentando acalmar, mas Marcela continuou.
Disse que agora a mãe estava com câncer.
A reação foi imediata.
Choque.
Perguntas.
Preocupação.
Ela respondeu que descobriu naquele mesmo dia.
O ambiente mudou completamente. Não era mais um jantar, era dor compartilhada.
Marcela disse que não tinha dinheiro, que tinha dívida com banco porque pegou empréstimo para tentar resolver a situação da casa do pai.
Explicou sobre a herança, o inventário, os custos e o risco de perder tudo.
Disse que tentou banco, que conseguiu empréstimo, mas que levou o golpe e agora ficou só com a dívida.
O silêncio foi pesado.
As amigas disseram que queriam ajudar, que se pudessem fariam algo, mas que também não tinham como emprestar aquele valor tão alto.
Era sincero.
Era real.
E não resolvia.
O jantar terminou diferente do que começou.
Mais quieto.
Mais pesado.
Mais real.
Marcela se despediu com abraços longos, agradeceu de verdade, porque mesmo sem solução, elas estavam ali.
E isso importava.
Mas não resolvia.
Quando saiu da casa, a noite já estava avançada. A rua silenciosa, o ar mais frio.
Ela caminhava até o carro devagar, com a mente cheia e o peito apertado.
Foi então que ouviu alguém chamando seu nome.
Ela virou.
Era a enfermeira, uma das amigas que tinha ficado mais quieta durante a conversa.
Ela veio andando rápido, quase correndo.
Disse que não queria falar lá dentro.
Marcela perguntou sobre o que era.
A enfermeira hesitou por um momento, como se estivesse decidindo se devia mesmo dizer aquilo.
Então falou que conhecia um cara.
Marcela perguntou que tipo de cara.
A resposta veio baixa.
Um cara do morro.
O clima mudou na hora.
Ela explicou que era um agiota.
Disse que ele emprestava dinheiro, mas que precisava pagar sem atraso.
Marcela perguntou o que acontecia se não pagasse.
A resposta veio direta.
Ele mata.
O ar ficou pesado.
A enfermeira contou que já precisou pegar dinheiro com ele, que pagou tudo certo e não teve problema.
Disse que ele resolvia rápido, sem burocracia, sem banco. Os juros eram altos, mas ajudava.
Que sabia que era pesado, mas que Marcela não tinha muita opção.
E ela estava certa.
Marcela respirou fundo e perguntou como falava com ele.
A enfermeira explicou o caminho, com detalhes, como chegar, com quem falar.
Cada palavra aproximava Marcela de um mundo completamente diferente.
Antes de sair, a enfermeira disse para ela só fazer aquilo se tivesse certeza.
Marcela agradeceu.
Entrou no carro.
Fechou a porta.
Ligou o carro.
Mas não saiu.
Ficou ali parada, pensando.
A cabeça girando.
Banco não dava.
Amigas não podiam.
Tempo não existia.
A mãe precisava.
A casa precisava.
Ela precisava.
E a única opção era aquela.
Errada.
Perigosa.
Irreversível.
Marcela apertou o volante.
Respirou fundo.
E pensou.
Será que eu faço isso?
Do outro lado da cidade, sem saber, ela já tinha entrado no jogo.
E o pior ainda estava por vir.