O Encontro

1322 Words
Marcela não dormiu. Ela até tentou. Deitou, fechou os olhos, virou de um lado, depois do outro, puxou o cobertor, tirou o cobertor… mas a mente não desligava. Era impossível. Cada vez que ela tentava relaxar, a realidade voltava com mais força. A casa. O inventário. O risco de perder tudo. A mãe. O câncer. O tempo correndo. E o dinheiro… inexistente. Ela abriu os olhos ainda no escuro do quarto e ficou encarando o teto. O silêncio era absoluto. Mas por dentro… um caos. A pergunta continuava ali, insistente. Será que eu faço isso? E a resposta, pela primeira vez, veio sem hesitação. Não era porque ela queria. Era porque precisava. Não tinha mais plano B. Não tinha mais tempo pra pensar em certo ou errado. Era sobrevivência. Marcela se levantou devagar, sentindo o corpo pesado, mas a decisão firme. Se arrumou em silêncio, sem acordar a mãe. Colocou uma roupa simples, mas arrumada. Mesmo nervosa, mesmo com medo, ela ainda era ela. Ainda existia um cuidado, uma postura, uma tentativa de manter o controle. Pegou a bolsa, o celular, as chaves. Parou por um segundo na porta do quarto da mãe. Olhou. Madalena dormia, respirando de forma tranquila, mas cansada. Aquilo apertou o peito. Marcela encostou levemente na porta. E ali, naquele instante, confirmou a decisão. Por ela. Tudo por ela. Saiu. A cidade à noite era outra coisa. Mais vazia, mais silenciosa, mas também mais perigosa. Marcela dirigia com as mãos firmes no volante, mas o coração acelerado. Cada rua que passava parecia levar ela mais fundo em algo que não tinha volta. O endereço que a enfermeira passou estava gravado na cabeça. Ela não usou GPS. Não queria registro, não queria rastro. Nem sabia exatamente por quê, mas parecia certo fazer assim. À medida que se afastava das áreas mais centrais, a cidade mudava. As ruas ficavam mais estreitas, a iluminação mais falha, o movimento mais estranho. O ar também mudava. Mais pesado. Mais tenso. E quando ela finalmente avistou a entrada do morro, soube. Era ali. Não tinha dúvida. O som veio primeiro. Música alta. Grave forte. Batida constante que ecoava pelas casas, pelas vielas, pelo ar. Uma espécie de festa. Mas não era uma festa comum. Era diferente. Mais crua. Mais desorganizada. Mais viva. Marcela diminuiu a velocidade do carro. O coração agora batia forte de verdade. Era medo. Real. Palpável. Mas ela não parou. Entrou. Os olhares vieram na hora. Não eram discretos. Não eram curiosos. Eram diretos. Pesados. Avaliando. Uma mulher como ela não passava despercebida ali. Loira, alta, bem vestida, carro organizado. Era contraste puro. E contraste chama atenção. Marcela sentia os olhos em cima dela enquanto dirigia devagar pelas ruas estreitas. Algumas pessoas paravam o que estavam fazendo só para olhar. Outras cochichavam. Algumas apenas observavam em silêncio. Aquilo não era o mundo dela. E todo mundo ali sabia disso. Ela continuou, tentando parecer segura, tentando não demonstrar o medo que crescia dentro dela a cada metro. Até que aconteceu. Dois homens surgiram na frente do carro, armados, sem aviso. Marcela freou na hora. O coração disparou. Um terceiro apareceu ao lado. Outro do outro lado. Em segundos, ela estava cercada. Um dos homens bateu no vidro com os nós dos dedos, forte. “Abaixa aí.” A voz era grossa, sem paciência. Marcela engoliu seco e abaixou devagar. O homem se aproximou, apoiando o braço na porta, olhando ela de cima a baixo sem disfarçar. “Tá perdida, princesa?” Os outros riram baixo, maliciosos. Marcela tentou manter a calma. “Eu preciso falar com alguém.” “Com quem?” Outro perguntou, mais agressivo. Ela hesitou por um segundo, mas respondeu. “Com o agiota.” O silêncio veio curto, pesado. E então eles riram. Alto. Sem respeito. “Ouviu isso?” “A patricinha quer falar com o agiota.” “Tá achando que aqui é banco, porr4? O GPS te mandou pro lugar errado, madame.” Marcela sentiu o rosto esquentar, mas não recuou. “Eu preciso falar com ele.” A voz saiu mais firme dessa vez. Um dos homens abriu a porta do carro com força. “Desce.” Ela hesitou. “Eu mandei descer.” A voz veio mais pesada. Marcela saiu devagar, sentindo o coração na garganta. Assim que pisou fora do carro, percebeu melhor o ambiente. Mais gente. Mais olhares. Mais tensão. O homem se aproximou mais. Muito mais. “Quem te mandou aqui?” “Eu conheço uma pessoa que falou…” “Nome.” Ele cortou. Marcela travou. Não sabia se devia falar. O homem segurou o braço dela, forte, sem cuidado. “Tá achando que a gente é otári0?” “Isso aqui tá com cara de polícia”, outro comentou. “Disfarçada.” “Loirinha assim… só pode ser.” O aperto aumentou. Marcela tentou puxar o braço. “Eu não sou polícia.” “Então prova.” “Eu só preciso falar com o agiota.” Eles riram de novo, mas agora de forma mais ameaçadora. “Vai falar com ele sim…” Um deles disse, se aproximando. “Lá no inferno.” O homem puxou o braço dela com mais força. “Se não sair daqui agora… vai tomar tiro.” O mundo pareceu parar por um segundo. O medo veio com tudo. Cru. Real. Sem filtro. E foi exatamente nesse momento que tudo mudou. “Solta ela.” A voz veio de trás. Baixa. Mas firme. Não foi grito, não foi ameaça. Mas foi suficiente. O homem não soltou na hora, mas virou. E viu. Abner. Ele vinha andando sem pressa, postura reta, olhar direto. Sem precisar levantar a voz. Sem precisar mostrar arma. Porque ali, a presença dele já era suficiente. Os homens se ajeitaram na hora. Mudaram a postura. O clima mudou. “Ela tá comigo.” Abner disse, simples, direto. O homem soltou o braço de Marcela imediatamente. “Foi m*l, mano…” “A gente achou que…” “Ficou estranho…” As justificativas vieram rápidas, nervosas. Abner nem olhou direito para eles. O olhar estava nela. E naquele instante ele viu. De verdade. Não era só beleza. Mas ela era linda. Muito. Cabelo loiro caindo pelos ombros, olhos claros, expressivos. Mas não era isso. Era o contraste. O jeito que ela estava ali. Fora de lugar. Mas ainda firme. E aquilo chamou atenção. Abner inclinou levemente a cabeça. “Da próxima vez, aprende a reconhecer quem tá comigo.” A voz saiu calma, mas pesada. “Foi m*l, irmão… não vai acontecer de novo.” “Não precisa levar pro chefe, não…” “A gente só tava fazendo o nosso…” Abner fez um leve gesto com a mão, cortando. “Relaxa.” Silêncio. “Não vou falar nada.” O alívio foi imediato. “Valeu, mano…” “Desculpa aí, moça…” Um deles murmurou, sem coragem de olhar. Abner já não estava mais prestando atenção. Virou e começou a andar. Sem dizer nada, esperou. Marcela ficou parada por um segundo, processando, respirando, tentando voltar pro próprio corpo. E então foi. Seguiu ele. Caminharam alguns passos em silêncio. A música ao fundo ainda alta. O ambiente ainda caótico. Mas agora distante. Marcela finalmente falou. “Obrigada.” A voz saiu mais baixa, mas sincera. Abner não respondeu na hora. Continuou andando. Ela respirou fundo e disse: “Eu tô aqui porque preciso falar com o agiota do morro.” Foi aí que ele parou. Devagar. Sem pressa. Virou o corpo na direção dela. E pela primeira vez… Olhou de verdade. Direto. Nos olhos dela. Marcela sentiu na hora. Aquele olhar não era normal. Não era curioso. Não era gentil. Era profundo. Frio. Intenso. Como se ele estivesse vendo além. Analisando. Calculando. E então… Ele disse: “Achou.” Simples. Direto. Irreversível. E naquele instante, sem perceber, Marcela entrou no mundo dele. E não existia mais saída fácil. Nenhuma.
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