Negociação

1197 Words
Marcela não respondeu na hora. O cérebro demorou alguns segundos para processar o que ele tinha acabado de dizer. “Achou.” A palavra ficou ecoando. Simples. Direta. Mas carregada de um significado que ela não esperava. Ela piscou uma vez, como se isso fosse ajudar a reorganizar a realidade, e olhou para ele de novo. De verdade agora. Dos pés à cabeça. E quanto mais olhava… menos aquilo fazia sentido. Ele não parecia o que ela imaginava. Nada. Nem de longe. Abner era alto, postura firme, ombros largos, o tipo de presença que naturalmente ocupava espaço. O terno que ele usava não era chamativo, mas era claramente caro, perfeitamente ajustado ao corpo. O relógio no pulso brilhava discretamente sob a luz, denunciando um valor alto sem precisar ser exibido. O rosto… chamava atenção. Não só pela beleza, mas pela composição. Cabelo loiro alinhado, barba bem feita, o bigode com as pontas levemente curvadas, como se tivesse sido moldado com cuidado. Os olhos verdes claros eram o que mais prendia, não pela cor em si, mas pela intensidade. Frio. Profundo. Calculista. Aquilo não combinava com o resto do cenário ao redor. Não combinava com o morro. Não combinava com a ideia de um agiota. E, mesmo assim… Era ele. Marcela engoliu seco. — Você…? A voz saiu mais baixa do que ela gostaria. Um pouco falha. — Você é o… Ela nem terminou a frase. Não precisou. Abner manteve o olhar nela por mais alguns segundos, como se estivesse avaliando cada reação, cada microexpressão. E então virou o corpo, começando a andar. — Vem. Simples. Sem explicação. Sem confirmação direta. Mas não precisava. Marcela hesitou por um segundo. Olhou ao redor. A música ainda ecoava. Os homens que antes estavam agressivos agora evitavam olhar diretamente para eles. E foi aí que ela percebeu. O respeito. Ou talvez… O medo. As pessoas não encostavam. Não questionavam. Não se aproximavam. Era como se existisse uma linha invisível ao redor dele. E ninguém ousava atravessar. Marcela respirou fundo. E foi. Seguiu ele. O caminho não era longo, mas parecia. Cada passo aumentava a sensação de que ela estava entrando em algo maior do que imaginava. Mais fundo. Mais sério. Mais perigoso. Eles passaram por algumas casas, por pessoas que diminuíam o volume da conversa ao ver Abner passar, por olhares rápidos que logo se desviavam. Ninguém falava nada. Mas todo mundo reagia. Aquilo dizia muito. Muito mais do que qualquer palavra. Até que chegaram. Uma porta simples. Nada extravagante. Nada chamativo. Mas quando ele abriu… O contraste apareceu de novo. O espaço era pequeno. Mas extremamente organizado. Limpo. Arrumado. Cada coisa no lugar certo. Mesa bem posicionada. Cadeiras alinhadas. Documentos organizados. Era funcional. Mas também… estratégico. Ali não existia bagunça. E isso dizia muito sobre ele. Abner entrou primeiro. Marcela entrou logo atrás. A porta fechou. O som foi seco. E o mundo lá fora ficou distante. De repente… Era só os dois. Ele caminhou até a mesa, puxou levemente a cadeira e fez um gesto sutil para ela. — Senta. A voz era calma. Controlada. Marcela obedeceu. Sem questionar. Se sentou, ajustando a postura, tentando recuperar o controle que sentia escapar desde que entrou naquele lugar. Abner se sentou do outro lado da mesa. Encostou as costas na cadeira. E ficou em silêncio por alguns segundos. Olhando. Aquilo era desconfortável. Muito. Mas ela não desviou. Não dessa vez. — Pode começar. Ele disse, finalmente. Simples. Direto. Marcela respirou fundo. Organizou as palavras. Ou tentou. — Eu… preciso de dinheiro. A frase saiu mais firme do que ela esperava. Bom. — Emprestado. Ela completou. Abner não reagiu na hora. Só continuou olhando. — Quanto? A pergunta veio seca. Sem rodeio. Marcela sentiu o coração acelerar. Era o momento. Sem volta. Ela falou. O valor. Alto. Muito alto. O tipo de valor que não se pede. O tipo de valor que se negocia com banco, com garantia, com papel, com contrato. E mesmo assim… com dificuldade. Abner ficou em silêncio por um segundo. Dois. E então riu. Baixo. Sem humor. — Isso é piada? Marcela não sorriu. Não desviou. Não recuou. — Não. A resposta veio firme. E aquilo… Mudou o clima. O sorriso dele sumiu. — Eu não costumo emprestar esse tipo de quantia. A voz agora era mais fria. Mais direta. — Muito menos pra quem eu não conheço. Marcela se inclinou levemente para frente. — Mas deveria considerar. Ele arqueou uma sobrancelha. — Por quê? Ela sustentou o olhar. — Porque quanto maior o valor… maior o seu lucro. Silêncio. Curto. Pesado. Aquilo não era o tipo de resposta que ele esperava. Não daquela forma. Não daquele jeito. — Não. Ele respondeu. Simples. Final. — Eu não vou emprestar. Marcela sentiu o impacto. Mas não recuou. — Eu preciso desse dinheiro. A voz saiu mais firme agora. Mais carregada. Abner inclinou levemente a cabeça. — Precisa pra quê? Ela travou. Por um segundo. Mas então respondeu. — Não interessa. Silêncio. Denso. — Eu vou pagar. Ela completou. Direta. Aquilo fez algo nos olhos dele mudar. Sutil. Mas mudou. — O que você faz? Ele perguntou. Marcela respondeu sem hesitar. — Sou médica. — E ganha bem? — Sim. — Então por que não pega no banco? Ela travou por um instante. Mas se recompôs. — Já peguei. — E? — Não tenho mais acesso. Ele observou. Analisando. — E você acha que eu vou confiar em você? Marcela se inclinou um pouco mais. — Não precisa confiar. Silêncio. — Só precisa cobrar. Aquilo fez ele rir de novo. Mas dessa vez… diferente. Mais interessado. — E você pretende pagar como? — Trabalhando. Ela respondeu. — Mais plantões. — Mais horas. — Mais tudo. Ela respirou fundo. — Se você me der um bom prazo, tão grande quanto a quantia. Ele bateu a mão na mesa. O som ecoou no espaço pequeno. Forte. Seco. — Prazo grande? A voz subiu pela primeira vez. — Você tá brincando comigo? Marcela não se mexeu. Não recuou. — Não. — Eu tô falando sério. O olhar dele endureceu. — Você tá pedindo uma quantia absurda. — Quer prazo longo. — E acha que isso aqui funciona como? Silêncio. Ela sustentou. — Eu vou pagar. A voz saiu firme. Sem tremor. — Cada centavo. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos. Se encarando. Direto. Sem desvio. E foi ali… Que algo diferente aconteceu. Porque ninguém falava com ele assim. Ninguém sustentava o olhar assim. Ninguém peitava. E, mesmo sem perceber… Marcela não estava pedindo. Estava enfrentando. E aquilo… Chamou atenção. Mais do que deveria. Abner inclinou levemente a cabeça. Os olhos ainda fixos nela. Agora mais atentos. Mais curiosos. Mais… interessados. Não nela como mulher. Ainda não. Mas na postura. Na coragem. Na ausência de medo. Ou na habilidade de esconder. E isso… Era raro. Muito raro. Ele ficou em silêncio por mais alguns segundos. Pensando. Calculando. Pesando. E pela primeira vez… Considerando. Porque aquilo não era um pedido comum. E ela… Definitivamente não era uma pessoa comum. E talvez… Só talvez… Aquilo fosse interessante demais pra simplesmente recusar. O problema… Era o preço. E ele ainda não tinha decidido… Qual seria.
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