A Vida Dela

1140 Words
A noite já tinha tomado conta da cidade quando a cobertura voltou a ganhar movimento. As luzes estavam baixas, deixando o ambiente ainda mais sofisticado, mais silencioso, mais… isolado. Abner estava sentado no sofá, o corpo relaxado apenas na aparência, porque por dentro ainda existia aquele incômodo que não passava. O copo de whisky girava lentamente entre os dedos. Gelo batendo suave. Ritmo constante. Mas a mente… Longe de qualquer controle confortável. O nome dela ainda ecoava. Marcela. E junto com ele… A cena da manhã. O homem. O dinheiro. O olhar dela. A forma como cortou ele. Aquilo não tinha saído da cabeça. E não ia sair tão cedo. Foi quando a porta se abriu. Sem aviso. Como sempre. Killian entrou com energia completamente oposta ao ambiente. — Cheguei, meu amor! A voz veio alta, teatral, carregada de entusiasmo. Ele entrou carregando um notebook em uma mão e uma pasta na outra, como se estivesse prestes a fazer a apresentação mais importante da vida. O visual estava impecável. Terno ajustado, dessa vez em um tom mais ousado, camisa aberta o suficiente para deixar claro que ele sabia exatamente o efeito que causava, perfume forte e caro preenchendo o ambiente assim que entrou. Ele fechou a porta com o pé, sem cerimônia, já andando pelo espaço como se estivesse desfilando. — Você não tem noção do que eu preparei pra você. Abner nem virou o rosto de imediato. Só tomou mais um gole. — Só fala. Killian parou no meio da sala. Colocou a mão no peito. Ofendido. — Falar? Ele arregalou os olhos. — Você acha que eu fiz isso tudo pra “só falar”? Abner finalmente olhou. Expressão neutra. — Killian… — Não. Ele levantou o dedo, interrompendo. — Hoje não, Abner. Caminhou até a frente da televisão, conectando o notebook com movimentos rápidos. — Hoje você vai assistir. — Porque quando eu faço alguma coisa… Ele virou o rosto com um sorriso de canto. — Eu faço direito. A tela acendeu. Um fundo preto. Elegante. E então apareceu o título: "Marcela Dias — Muito Mais do Que Você Imagina" Killian cruzou os braços, satisfeito. — Ficou bom, né? Abner soltou um suspiro leve. — Você perdeu tempo com isso. Killian deu um sorriso debochado. — Eu investi tempo. Corrigiu. — É diferente. Apagou a luz principal, deixando só a iluminação da tela dominar o ambiente. E então… Começou. — Bom, vamos lá. A voz mudou. Mais teatral. Mais envolvente. — Nome completo: Marcela Dias. A foto dela apareceu. Linda. Séria. Profissional. Abner não desviou o olhar. Nem por um segundo. — Idade, formação impecável, médica, especialização sólida, histórico limpo, sem envolvimento em nada suspeito. Killian caminhava de um lado pro outro enquanto falava, completamente dentro da própria apresentação. — Traduzindo: certinha. Mudou o slide. — Agora vamos ao que interessa. A expressão dele mudou levemente. Mais afiada. — Vida pessoal. Apareceu uma foto antiga. Marcela com um homem. Abraçados. Sorrindo. Killian fez uma careta. — E aqui temos ele… Virou o corpo teatralmente. — O prêmio de pior escolha da vida dela. Abner estreitou levemente os olhos. O nome apareceu. Lucas. Killian continuou. — Ex-marido. Recente. Muito recente. Aproximou-se da tela, apontando como se estivesse dando aula. — E aqui a coisa começa a ficar interessante. Mudou o slide. Agora eram registros. Anotações. Histórico. — O nosso querido Lucas… Ele fez uma pausa dramática. — É um desastre ambulante. Abner não reagiu. Mas estava atento. Totalmente. — Ficha suja. — Envolvido em confusão. — Denúncias. Killian levantou as sobrancelhas. — Inclusive… Mudou novamente. — Agressão. Silêncio. O ambiente ficou mais pesado. — Não só com ela. Ele completou. — Outras mulheres também. Abner ficou imóvel. Mas o olhar… Endureceu. — E como se não bastasse… Killian continuou, agora com um sorriso irônico. — Viciado em jogo. Apontou para os dados. — E não é pouco. — É daquele nível que destrói tudo. Mudou o slide. — E adivinha? Virou o rosto para Abner. — Destruiu. Abner tomou mais um gole. Sem tirar os olhos da tela. — Ele torrou tudo. Killian disse, direto. — Economia. — Estabilidade. — Vida. — Tudo. As palavras vinham leves na forma. Mas pesadas no conteúdo. — Resultado? Ele abriu os braços. — Divórcio. Recente. Caótico. E extremamente previsível. A foto voltou. Mas agora… Diferente. Mais fria. Mais distante. — Ela saiu. — Sozinha. — Sem nada. Killian caminhou até o sofá, se apoiando levemente no encosto, olhando para Abner. — Agora você entende por que ela foi até você. Silêncio. Abner não respondeu. Mas estava ouvindo. Absorvendo. Ligando pontos. — Médica. Ele continuou. — Ganha bem. — Mas não o suficiente pra cobrir o rombo que esse traste deixou. Virou novamente para a tela. — E aí entra você. Apontou. — Nosso agiota favorito. Um sorriso de canto. — Com uma quantia absurda. — Juros absurdos. — E prazo… provavelmente absurdo também. Olhou de novo para Abner. — Acertei? Abner não respondeu. Mas não precisava. Killian sorriu. Satisfeito. — Claro que acertei. Caminhou de volta para a frente da tela. — Agora… Fez uma pausa. — O mais interessante. Mudou o slide. — O cara de hoje. Uma imagem aproximada. Lucas. Mais atual. Mais acabado. — É ele. Apontou. — O mesmo. — Só que pior. Abner ficou imóvel. Mas o olhar fixo. — Continua viciado. — Continua perdido. — E, pelo visto… Killian deu um meio sorriso. — Continua correndo atrás dela. Silêncio. Pesado. — Provavelmente pra pedir dinheiro. Completou. Sem rodeio. Abner apoiou o copo na mesa. Devagar. — Ele encostou nela. A frase saiu baixa. Killian olhou. Curioso. — Encostou? Abner assentiu levemente. — Hoje. Killian ficou em silêncio por um segundo. Processando. E então soltou um sorriso curto. Mas dessa vez… Sem humor. — Eu mataria. Simples. Direto. Como se fosse óbvio. Abner não respondeu. Mas a ideia… Não passou despercebida. Killian suspirou, quebrando o clima. — Enfim… Bateu as mãos uma vez. Voltando ao tom leve. — Resumo da ópera. Fechou o notebook. — Ela não é problema. — Ela é consequência. Caminhou até o bar. Serviu um drink para si. — E você, meu querido… Virou o corpo, encostando no balcão. — Tá começando a se meter onde não costuma. Abner levantou o olhar. — Cuida da sua parte. Killian levantou o copo, sorrindo. — Já cuidei. Tomou um gole. — Agora é você que decide o que fazer com essa informação. Silêncio. Mas dessa vez… Carregado de algo maior. Abner voltou a olhar para a cidade. Mas agora… Não era mais só curiosidade. Era entendimento. E junto com ele… Veio algo mais perigoso. Proteção. Mesmo que ele ainda não admitisse. Mesmo que ele ainda não entendesse. Mas já estava lá. E quando Abner começava a se importar… Alguém sempre pagava o preço.
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