A noite já tinha tomado conta da cidade quando a cobertura voltou a ganhar movimento.
As luzes estavam baixas, deixando o ambiente ainda mais sofisticado, mais silencioso, mais… isolado. Abner estava sentado no sofá, o corpo relaxado apenas na aparência, porque por dentro ainda existia aquele incômodo que não passava.
O copo de whisky girava lentamente entre os dedos.
Gelo batendo suave.
Ritmo constante.
Mas a mente…
Longe de qualquer controle confortável.
O nome dela ainda ecoava.
Marcela.
E junto com ele…
A cena da manhã.
O homem.
O dinheiro.
O olhar dela.
A forma como cortou ele.
Aquilo não tinha saído da cabeça.
E não ia sair tão cedo.
Foi quando a porta se abriu.
Sem aviso.
Como sempre.
Killian entrou com energia completamente oposta ao ambiente.
— Cheguei, meu amor!
A voz veio alta, teatral, carregada de entusiasmo.
Ele entrou carregando um notebook em uma mão e uma pasta na outra, como se estivesse prestes a fazer a apresentação mais importante da vida.
O visual estava impecável.
Terno ajustado, dessa vez em um tom mais ousado, camisa aberta o suficiente para deixar claro que ele sabia exatamente o efeito que causava, perfume forte e caro preenchendo o ambiente assim que entrou.
Ele fechou a porta com o pé, sem cerimônia, já andando pelo espaço como se estivesse desfilando.
— Você não tem noção do que eu preparei pra você.
Abner nem virou o rosto de imediato.
Só tomou mais um gole.
— Só fala.
Killian parou no meio da sala.
Colocou a mão no peito.
Ofendido.
— Falar?
Ele arregalou os olhos.
— Você acha que eu fiz isso tudo pra “só falar”?
Abner finalmente olhou.
Expressão neutra.
— Killian…
— Não.
Ele levantou o dedo, interrompendo.
— Hoje não, Abner.
Caminhou até a frente da televisão, conectando o notebook com movimentos rápidos.
— Hoje você vai assistir.
— Porque quando eu faço alguma coisa…
Ele virou o rosto com um sorriso de canto.
— Eu faço direito.
A tela acendeu.
Um fundo preto.
Elegante.
E então apareceu o título:
"Marcela Dias — Muito Mais do Que Você Imagina"
Killian cruzou os braços, satisfeito.
— Ficou bom, né?
Abner soltou um suspiro leve.
— Você perdeu tempo com isso.
Killian deu um sorriso debochado.
— Eu investi tempo.
Corrigiu.
— É diferente.
Apagou a luz principal, deixando só a iluminação da tela dominar o ambiente.
E então…
Começou.
— Bom, vamos lá.
A voz mudou.
Mais teatral.
Mais envolvente.
— Nome completo: Marcela Dias.
A foto dela apareceu.
Linda.
Séria.
Profissional.
Abner não desviou o olhar.
Nem por um segundo.
— Idade, formação impecável, médica, especialização sólida, histórico limpo, sem envolvimento em nada suspeito.
Killian caminhava de um lado pro outro enquanto falava, completamente dentro da própria apresentação.
— Traduzindo: certinha.
Mudou o slide.
— Agora vamos ao que interessa.
A expressão dele mudou levemente.
Mais afiada.
— Vida pessoal.
Apareceu uma foto antiga.
Marcela com um homem.
Abraçados.
Sorrindo.
Killian fez uma careta.
— E aqui temos ele…
Virou o corpo teatralmente.
— O prêmio de pior escolha da vida dela.
Abner estreitou levemente os olhos.
O nome apareceu.
Lucas.
Killian continuou.
— Ex-marido.
Recente.
Muito recente.
Aproximou-se da tela, apontando como se estivesse dando aula.
— E aqui a coisa começa a ficar interessante.
Mudou o slide.
Agora eram registros.
Anotações.
Histórico.
— O nosso querido Lucas…
Ele fez uma pausa dramática.
— É um desastre ambulante.
Abner não reagiu.
Mas estava atento.
Totalmente.
— Ficha suja.
— Envolvido em confusão.
— Denúncias.
Killian levantou as sobrancelhas.
— Inclusive…
Mudou novamente.
— Agressão.
Silêncio.
O ambiente ficou mais pesado.
— Não só com ela.
Ele completou.
— Outras mulheres também.
Abner ficou imóvel.
Mas o olhar…
Endureceu.
— E como se não bastasse…
Killian continuou, agora com um sorriso irônico.
— Viciado em jogo.
Apontou para os dados.
— E não é pouco.
— É daquele nível que destrói tudo.
Mudou o slide.
— E adivinha?
Virou o rosto para Abner.
— Destruiu.
Abner tomou mais um gole.
Sem tirar os olhos da tela.
— Ele torrou tudo.
Killian disse, direto.
— Economia.
— Estabilidade.
— Vida.
— Tudo.
As palavras vinham leves na forma.
Mas pesadas no conteúdo.
— Resultado?
Ele abriu os braços.
— Divórcio.
Recente.
Caótico.
E extremamente previsível.
A foto voltou.
Mas agora…
Diferente.
Mais fria.
Mais distante.
— Ela saiu.
— Sozinha.
— Sem nada.
Killian caminhou até o sofá, se apoiando levemente no encosto, olhando para Abner.
— Agora você entende por que ela foi até você.
Silêncio.
Abner não respondeu.
Mas estava ouvindo.
Absorvendo.
Ligando pontos.
— Médica.
Ele continuou.
— Ganha bem.
— Mas não o suficiente pra cobrir o rombo que esse traste deixou.
Virou novamente para a tela.
— E aí entra você.
Apontou.
— Nosso agiota favorito.
Um sorriso de canto.
— Com uma quantia absurda.
— Juros absurdos.
— E prazo… provavelmente absurdo também.
Olhou de novo para Abner.
— Acertei?
Abner não respondeu.
Mas não precisava.
Killian sorriu.
Satisfeito.
— Claro que acertei.
Caminhou de volta para a frente da tela.
— Agora…
Fez uma pausa.
— O mais interessante.
Mudou o slide.
— O cara de hoje.
Uma imagem aproximada.
Lucas.
Mais atual.
Mais acabado.
— É ele.
Apontou.
— O mesmo.
— Só que pior.
Abner ficou imóvel.
Mas o olhar fixo.
— Continua viciado.
— Continua perdido.
— E, pelo visto…
Killian deu um meio sorriso.
— Continua correndo atrás dela.
Silêncio.
Pesado.
— Provavelmente pra pedir dinheiro.
Completou.
Sem rodeio.
Abner apoiou o copo na mesa.
Devagar.
— Ele encostou nela.
A frase saiu baixa.
Killian olhou.
Curioso.
— Encostou?
Abner assentiu levemente.
— Hoje.
Killian ficou em silêncio por um segundo.
Processando.
E então soltou um sorriso curto.
Mas dessa vez…
Sem humor.
— Eu mataria.
Simples.
Direto.
Como se fosse óbvio.
Abner não respondeu.
Mas a ideia…
Não passou despercebida.
Killian suspirou, quebrando o clima.
— Enfim…
Bateu as mãos uma vez.
Voltando ao tom leve.
— Resumo da ópera.
Fechou o notebook.
— Ela não é problema.
— Ela é consequência.
Caminhou até o bar.
Serviu um drink para si.
— E você, meu querido…
Virou o corpo, encostando no balcão.
— Tá começando a se meter onde não costuma.
Abner levantou o olhar.
— Cuida da sua parte.
Killian levantou o copo, sorrindo.
— Já cuidei.
Tomou um gole.
— Agora é você que decide o que fazer com essa informação.
Silêncio.
Mas dessa vez…
Carregado de algo maior.
Abner voltou a olhar para a cidade.
Mas agora…
Não era mais só curiosidade.
Era entendimento.
E junto com ele…
Veio algo mais perigoso.
Proteção.
Mesmo que ele ainda não admitisse.
Mesmo que ele ainda não entendesse.
Mas já estava lá.
E quando Abner começava a se importar…
Alguém sempre pagava o preço.