O movimento do hospital continuava o mesmo.
Caótico.
Constante.
Indiferente ao que tinha acabado de acontecer do lado de fora.
Mas para Abner…
Nada ali parecia normal.
Ele ficou parado por alguns segundos depois que Marcela entrou.
O olhar ainda fixo na porta automática que se abriu e se fechou, engolindo ela de volta para o mundo dela.
A mandíbula travada.
A respiração mais pesada do que deveria.
Aquilo não era sobre dinheiro.
Ele sabia.
E esse era o problema.
Sem pensar mais, virou o corpo e voltou para o carro.
Passos rápidos.
Decididos.
Entrou.
Bateu a porta com mais força do que o necessário.
Ligou o motor.
E saiu.
Não em direção à casa.
Mas em direção ao que ainda podia alcançar.
O homem.
Aquele homem.
O carro avançou pelas ruas ao redor do hospital, cortando trânsito, virando esquinas sem muito planejamento, apenas seguindo o impulso.
Os olhos atentos.
Procurando.
Analisando cada rosto.
Cada figura que passava.
Barba grande.
Cabelo desleixado.
Postura de quem carrega desespero.
Ele procurava exatamente aquilo.
E não encontrava.
Passou uma vez.
Duas.
Três.
Quatro.
Rodou mais longe.
Entrou em ruas paralelas.
Mais afastadas.
Mais vazias.
Nada.
Nenhum sinal.
Como se o homem tivesse evaporado.
Ou como se nunca tivesse estado ali.
O volante rangeu levemente sob a pressão dos dedos de Abner.
A irritação agora era clara.
Visível.
Diferente da calma calculada que sempre o acompanhava.
Aquilo não era comum.
E ele sabia.
Mas não conseguia parar.
Rodou mais alguns minutos.
Sem resultado.
Até que finalmente…
Parou.
O carro ficou imóvel no meio-fio.
Motor ainda ligado.
O silêncio dentro dele era mais pesado do que qualquer som lá fora.
Ele passou a mão pelo rosto.
Devagar.
Tentando organizar o que estava acontecendo.
Mas não fazia sentido.
Nada fazia sentido.
Por que aquilo estava incomodando tanto?
Por que ele se importava?
Por que estava perdendo tempo com isso?
A resposta era simples.
Mas ele não queria aceitar.
Então não aceitou.
Apenas colocou o carro em movimento novamente.
E dessa vez…
Seguiu para casa.
A cobertura ficava no ponto mais alto da cidade.
Vidro.
Concreto.
Luxo.
Tudo ali era pensado para impressionar.
Para dominar a vista.
Para deixar claro quem mandava.
O elevador abriu direto no apartamento.
Silencioso.
Imponente.
Abner entrou sem olhar para os lados.
Jogou a chave sobre a mesa de mármore.
Afrouxou levemente o paletó.
Mas não sentou.
Não relaxou.
Continuava inquieto.
E isso era raro.
Muito raro.
Ele pegou o celular.
Digitou rápido.
Uma mensagem curta.
Direta.
"Vem pra cá."
Nem precisou colocar nome.
Do outro lado…
Sabiam.
Killian chegou menos de vinte minutos depois.
Sem avisar.
Sem bater.
Entrando como sempre entrava.
Como alguém que não precisava de permissão.
Alto.
Elegante.
Terno ajustado perfeitamente ao corpo.
Cabelos pretos alinhados.
Barba bem feita.
Olhos verdes atentos.
E um sorriso que sempre parecia carregar algum tipo de provocação.
— Nossa, que urgência é essa?
A voz veio leve.
Debochada.
— Achei que tinha morrido alguém.
Ele caminhou até o bar, servindo um drink para si mesmo como se estivesse na própria casa.
Abner não respondeu de imediato.
Estava de pé, perto da janela, olhando a cidade lá embaixo.
— Eu preciso que você levante uma ficha pra mim.
Killian levantou uma sobrancelha.
— Que específico.
Tomou um gole.
— Quem morreu dessa vez?
Abner virou o rosto.
— Ninguém.
Pausa.
— Ainda.
Killian soltou uma risada curta.
— Agora sim parece você.
Encostou no balcão, cruzando os braços.
— Fala.
Abner foi direto.
— Nome: Marcela Dias.
— Médica.
— Trabalha naquele hospital do centro.
Killian ficou em silêncio por um segundo.
Processando.
— Só isso?
Abner assentiu.
— Quero tudo.
A resposta veio sem hesitação.
— Tudo?
Killian repetiu, com um leve sorriso de lado.
— Você normalmente não pede “tudo”.
— Só pede o suficiente pra cobrar.
Abner manteve o olhar nele.
Frio.
— Eu quero tudo.
Killian girou o copo lentamente entre os dedos.
Observando.
Analisando.
— Devedora?
Abner respondeu sem rodeio.
— É.
— Dívida alta.
Killian inclinou levemente a cabeça.
— E já venceu?
— Não.
Silêncio.
Curto.
Mas significativo.
Killian deu um passo à frente.
— Então por que exatamente você tá querendo levantar a vida inteira da mulher?
O tom ainda era leve.
Mas agora tinha curiosidade real.
— Você nunca fez isso antes do prazo estourar.
Abner não respondeu na hora.
E aquilo…
Já era resposta suficiente.
Killian sorriu.
Lento.
Perigoso.
— Ah…
Tomou mais um gole.
— Entendi.
Abner fechou a expressão.
— Não entendeu nada.
Killian riu.
— Claro que entendi.
Aproximou mais um passo.
— Ou ela é um problema…
— Ou você quer que ela seja.
Silêncio.
Pesado.
Abner encarou.
Direto.
— Faz o que eu mandei.
A voz veio mais dura agora.
Sem espaço.
Killian levantou as mãos, teatral.
— Calma, chefe.
— Não precisa desse tom.
Virou de costas, indo até o sofá.
— Eu só tô dizendo que é… curioso.
Se jogou no encosto, relaxado.
— Mas ok.
Deu um sorriso de canto.
— Se você quer tudo…
— Eu te dou tudo.
Pegou o celular.
Já digitando.
— Nome completo, histórico, financeiro, família, rotina, ex, atual, passado, presente…
Olhou rapidamente para Abner.
— Quer até o signo dela também?
Abner não reagiu.
Nem um músculo.
Killian riu sozinho.
— Tá bom, entendi.
Continuou digitando.
— Vou puxar tudo.
— Mas olha…
Ergueu o olhar novamente.
Mais sério agora.
— Se ela não pagou ainda…
— Isso aqui não é sobre dinheiro.
Silêncio.
Abner não respondeu.
Mas o olhar dele…
Dizia o suficiente.
Killian assentiu devagar.
— É.
— Eu imaginei.
Bloqueou o celular.
Levantou.
— Te dou retorno rápido.
Caminhou em direção à saída.
Mas antes de sair…
Parou.
Virou o rosto.
— E só pra constar…
Um sorriso leve apareceu.
— Eu adoro quando você fica assim.
Abner estreitou levemente os olhos.
— Assim como?
Killian abriu a porta.
— Desorganizado.
E saiu.
Deixando o silêncio para trás.
Abner voltou a olhar para a cidade.
Mas agora…
Não via nada.
Porque a única coisa que passava na cabeça dele…
Era ela.
Marcela.
E o homem.
E o dinheiro.
E a forma como ela disse que não devia explicação.
Aquilo ainda ecoava.
Incomodava.
Mais do que deveria.
Mais do que fazia sentido.
E pela primeira vez em muito tempo…
Abner não estava preocupado com uma dívida.
Estava preocupado com alguém.
E isso…
Era um erro.
Que ele ainda não sabia…
Mas ia custar caro.