O Que Não é Dele

1102 Words
O hospital era grande, movimentado, cheio de vida acontecendo ao mesmo tempo em diferentes direções. Ambulâncias chegando. Pessoas entrando apressadas. Outras saindo mais devagar, carregando cansaço, preocupação ou alívio. Um ambiente onde tudo era urgente, mas ao mesmo tempo… rotina. Abner estava dentro do carro, estacionado do outro lado da rua. Motor desligado. Vidros levemente escuros. O tipo de posição que permitia observar sem ser notado. Ele não costumava fazer aquilo. Nunca. Não seguia pessoas. Não perdia tempo. Não investigava além do necessário. Mas, com ela… Algo tinha mudado. E ele não gostava disso. Não gostava da curiosidade. Não gostava do interesse. Não gostava, principalmente, da necessidade de entender. Mas ainda assim… Estava ali. Observando. Esperando. Já fazia alguns dias que ele vinha. Sempre em horários diferentes. Manhã. Tarde. Noite. Testando padrões. Confirmando rotina. Marcela aparecia. Sempre. Pontual. Organizada. Focada. Entrava no hospital com a postura de quem sabia exatamente o que estava fazendo. E aquilo dizia muito. Ela não era fraca. Não era desorganizada. Não era alguém que se perderia fácil. Mas isso não respondia a pergunta principal. Ela ia pagar? Ou não? E Abner não trabalhava com dúvida. Naquela manhã, o movimento estava mais intenso. Abner apoiou o braço no volante, olhando fixamente para a entrada. Os olhos atentos. Calculando. Analisando. E então… Ela apareceu. Cabelos presos de forma prática. Rosto mais cansado do que ele lembrava. Mas ainda firme. Ainda… ela. Marcela caminhava em direção à entrada do hospital, ajustando a bolsa no ombro, completamente imersa nos próprios pensamentos. Até que algo mudou. Um movimento brusco. Um homem apareceu. Alto. Forte. Mas desleixado. Barba grande. Cabelo sem corte. Roupas amassadas. O tipo de aparência que carregava desgaste. E desespero. Ele foi direto até ela. Sem hesitar. Sem pedir espaço. Sem pedir nada. Apenas invadindo. Marcela parou na hora. O corpo tensionou. O olhar mudou. Não era surpresa total. Era… incômodo conhecido. Ela tentou continuar andando. Ignorar. Mas ele segurou o braço dela. Forte. Sem cuidado. Aquilo fez algo dentro do Abner acender. Imediato. Instintivo. A mão dele já foi para a porta do carro. Pronto para sair. Pronto para intervir. Mas ele parou. Ficou. Observando. O olhar agora mais fechado. Mais perigoso. Mais atento. O homem falava rápido. Gesticulava. Parecia implorar. Mas Abner não conseguia ouvir. Só via. Via o desespero. Via a insistência. Via a forma como ele segurava ela. Aquilo não era certo. Não era aceitável. Marcela tentava manter a calma. Mas o incômodo era visível. Ela falava pouco. Curto. Tentando encerrar. Mas ele não deixava. Insistia. Apertava mais o braço. Aquilo fez o maxilar do Abner travar. O corpo inteiro pronto para reagir. Mas ele continuou ali. Observando. Porque precisava entender. Quem era aquele homem? O que ele queria? Por que ela não reagia de forma mais dura? Por que não afastava? Por que não chamava alguém? E então… Ela cedeu. Foi rápido. Mas claro. Marcela suspirou. Cansada. Como se aquela situação já tivesse se repetido outras vezes. Abriu a bolsa. Procurou algo. E tirou dinheiro. Notas. Poucas. Mas suficientes. Entregou. Direto. Sem discussão. Sem negociação. O homem pegou na hora. Como se aquilo fosse o objetivo desde o início. Falou mais alguma coisa. Algo rápido. E saiu. Simples assim. Deixando ela ali. Parada. Respirando fundo. Se recompondo. E entrando no hospital logo em seguida. Abner ficou imóvel por alguns segundos. O olhar ainda preso no lugar onde tudo aconteceu. A mente funcionando rápido. Aquilo não encaixava. Não fazia sentido. Ela tinha pegado dinheiro com ele. Uma quantia alta. Muito alta. Tinha dívidas. Responsabilidades. E mesmo assim… Estava dando dinheiro para um homem? Por quê? Quem era ele? Aquilo não era só estranho. Era problema. E Abner não tolerava problema. Ele saiu do carro. Sem pensar muito. Sem planejar. Movido por algo mais direto. Mais bruto. Mais… instintivo. Caminhou rápido. Passos firmes. Direto. Alcançou Marcela antes dela atravessar completamente a entrada do hospital. — Por que você tá dando dinheiro praquele homem? A voz veio direta. Sem introdução. Sem aviso. Marcela travou. O corpo parou. O olhar virou na hora. E quando viu quem era… O susto foi claro. — O que você tá fazendo aqui? Ela perguntou, visivelmente surpresa. Mas ele não respondeu. Deu um passo mais próximo. E segurou levemente o braço dela. Não com força. Mas com firmeza. — Quem é ele? Agora a voz tinha peso. Mais baixa. Mais carregada. Marcela puxou o braço de volta na hora. Irritada. — Você tá me seguindo? A pergunta saiu mais alta do que ela queria. Mas o nervosismo estava ali. Claro. Abner ignorou. Completamente. — Eu perguntei quem é ele. Mais direto. Mais intenso. Os olhos presos nela. Marcela respirou fundo. O peito subindo e descendo mais rápido. — Isso não é da sua conta. A resposta veio seca. Fria. Mas controlada. Ele deu um passo mais perto. Invadindo o espaço. — É quando envolve o meu dinheiro. Silêncio. Curto. Marcela sustentou o olhar. Com raiva agora. — Eu não te devo explicação nenhuma. — Eu vou pagar. — E isso é tudo que importa pra você. Cada palavra saía firme. Sem recuo. Sem medo. Aquilo fez algo dentro dele apertar. Errado. Mas forte. — Então começa parando de dar dinheiro pra qualquer um na rua. A frase veio mais dura. Mais pessoal. E foi aí que ela perdeu a paciência. — Eu sei muito bem o que eu tô fazendo. O tom subiu. — E você não tem nada a ver com isso. Ela deu um passo para trás. Quebrando a proximidade. — A dívida é minha. — A responsabilidade é minha. — E a vida também. Os olhos dela estavam diferentes agora. Mais intensos. Mais vivos. — Então não se mete. Silêncio. Pesado. Abner não respondeu. Mas o olhar não saiu dela. Marcela virou as costas. Sem esperar resposta. Sem dar espaço. E entrou no hospital. Sem olhar para trás. Ele ficou ali. Parado. No mesmo lugar. Sem se mexer. Sem falar. Mas sentindo. E aquilo… Era o problema. Porque o que ele estava sentindo… Não era comum. Não era normal. Não era… ele. Era raiva. Mas não a raiva que ele conhecia. Não aquela fria. Calculada. Controlada. Era outra coisa. Mais impulsiva. Mais pessoal. Mais… confusa. Raiva de quê? Do homem? Da situação? Ou dela? Ele não sabia. E isso incomodava mais do que tudo. Porque Abner sempre sabia. Sempre controlava. Sempre dominava. Mas ali… Por alguns segundos… Ele não estava no controle. E isso… Era perigoso. Muito mais perigoso do que qualquer dívida não paga. Porque aquela sensação… Se não fosse cortada… Ia crescer. E se crescesse… Ia mudar tudo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD