Dois Mundos

924 Words
Os dias passaram. Rápidos demais para quem precisava de tempo. Lentos demais para quem precisava de solução. Para Marcela… eram dias de sobrevivência. Para Abner… eram apenas dias normais. E essa diferença dizia tudo. Marcela quitou as dívidas da casa em poucos dias. O dinheiro saiu rápido. Rápido demais. Cada transferência, cada pagamento, cada documento resolvido trazia um alívio momentâneo… mas também um peso novo. Agora não era mais só um problema. Era uma dívida viva. Respirando. Crescendo. Esperando. A mansão, antes ameaçada, agora estava segura. Legalmente dela. Legalmente da mãe. Mas nada ali parecia leve. Porque cada parede agora carregava um preço. Alto. Perigoso. Irreversível. Ela se mudou de vez. Levou as poucas coisas que ainda estavam no antigo apartamento. Organizou o quarto. Ajustou a rotina. E passou a viver ali. Não como alguém de passagem. Mas como alguém que precisava estar presente. Porque Madalena… precisava. O tratamento começou. E com ele… Veio a realidade. Não era só um diagnóstico. Era um processo. Doloroso. Cansativo. Cruel. Os primeiros dias foram os mais difíceis. Exames. Consultas. Medicamentos. Horários. Rotinas novas. E, principalmente… O impacto físico. Madalena ainda tentava manter o sorriso. Tentava manter o jeito doce. Tentava agir como se nada estivesse mudando. Mas estava. E muito. O corpo já não respondia da mesma forma. O cansaço vinha mais rápido. Mais forte. Mais constante. Mesmo assim… Ela continuava. Forte. Do jeito dela. — Eu tô bem, filha. Ela dizia. Mesmo quando claramente não estava. Marcela sabia. Mas não confrontava. Só cuidava. Mais presente. Mais atenta. Mais protetora. Os plantões aumentaram. As noites diminuíram. O descanso praticamente desapareceu. Mas ela não reclamava. Não podia. Não agora. Enquanto isso… Do outro lado da cidade… A vida seguia de forma completamente diferente. Abner não mudou. Nem um pouco. O encontro com Marcela… Não alterou sua rotina. Não suavizou suas decisões. Não mexeu com sua essência. Ou pelo menos… Era o que ele acreditava. As noites continuavam cheias. Luxo. Festas. Eventos. Mulheres. Sempre diferentes. Sempre interessadas. Sempre disponíveis. Nenhuma importante. Nenhuma repetida. Ele não se envolvia. Nunca. Era físico. Rápido. Controlado. Sem espaço para sentimento. Sem espaço para vínculo. E isso funcionava. Sempre funcionou. Durante o dia… Os negócios cresciam. Joalherias movimentando valores absurdos. Construtoras erguendo prédios inteiros. Empresas limpas. Organizadas. Intocáveis. Ele transitava entre salas de reunião, contratos, investidores, com a mesma facilidade que transitava no morro. Dois mundos. Uma mesma pessoa. E nenhum conflito. Porque para ele… Tudo era estratégia. Mas a noite… A noite era onde ele realmente existia. A cobrança veio. Como sempre vinha. Sem aviso. Sem gentileza. Um homem devia. Muito. Mais do que podia pagar. E já tinha passado do prazo. Abner entrou no local sem pressa. Como sempre. O ambiente fechou na hora. O silêncio veio automático. O homem estava lá. Sentado. Suado. Nervoso. Sabia. Já sabia. — Eu ia pagar… A voz falhou. Antes mesmo de terminar. Abner parou na frente dele. Olhou. Sem expressão. Sem pressa. — Ia. Repetiu. Baixo. O homem engoliu seco. — Só preciso de mais tempo… Abner inclinou levemente a cabeça. — Tempo você teve. Silêncio. Pesado. O homem tentou levantar. Erro. O primeiro golpe veio seco. Direto. Sem aviso. O corpo caiu de lado. Tentando reagir. Sem conseguir. O segundo veio mais forte. Mais preciso. Agora não era mais negociação. Era consequência. Os outros ao redor não se mexiam. Ninguém interferia. Ninguém ousava. O som dos impactos preenchia o ambiente. Cru. Real. Sem filtro. Abner não estava com raiva. Não estava alterado. Estava… normal. Como se estivesse executando uma tarefa qualquer. Quando parou… O homem já não reagia. Respirava. Mas m*l. Abner ajeitou o paletó. Calmo. Controlado. — Da próxima vez… Ele disse, olhando para o corpo no chão. — Não atrasa. Virou as costas. E saiu. Simples assim. Em outra noite… Outro cenário. Outra dívida. Outro fim. Dessa vez… Não teve segunda chance. O disparo foi único. Preciso. Silencioso. E definitivo. Abner não hesitou. Nunca hesitava. Porque, para ele… Aquilo não era pessoal. Era regra. E regra… Era seguida. Mas, no meio de tudo isso… Algo novo começou a acontecer. Pequeno. Sutil. Quase imperceptível. Marcela aparecia na mente dele. Às vezes. Sem aviso. Sem motivo claro. O olhar. A postura. A forma como enfrentou. A forma como não teve medo. Ou fingiu não ter. E aquilo… Incomodava. Porque não fazia sentido. Ela não era do mundo dele. Não deveria importar. E, mesmo assim… Ficava. Marcela, por outro lado… Sentia o peso todos os dias. Não só da rotina. Mas da escolha. O dinheiro estava ali. Guardado. Usado. Transformado em solução. Mas também… Em dívida. Ela sabia. Cada dia que passava… Os juros cresciam. Silenciosamente. Constantemente. E o prazo… Se aproximava. Mesmo parecendo distante. À noite, quando tudo ficava em silêncio… Quando a mãe dormia… Quando o cansaço finalmente alcançava o corpo… Era ali que a mente dela voltava. Para ele. Para o olhar. Para a voz. Para a ameaça. E para o momento na cozinha. O chá. A forma como ele tratou a mãe. Aquilo não encaixava. Não combinava. Não fazia sentido. E talvez… Esse fosse o maior problema. Porque monstros são fáceis de odiar. Fáceis de evitar. Fáceis de definir. Mas quando o monstro… Sabe ser humano… As coisas mudam. E ficam perigosas. De um jeito diferente. Dois mundos seguiam. Separados. Distantes. Mas conectados por algo que nenhum dos dois podia ignorar. Um contrato. Uma dívida. E algo que ainda não tinha nome. Mas que já existia. Crescendo. Em silêncio. E quando finalmente esses dois mundos colidissem de verdade… Nada sairia intacto.
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