A casa ainda estava silenciosa.
Lá em cima, Alice se arrumava.
Gavetas abrindo.
Passos pelo quarto.
Algum barulho de cabide batendo no armário.
Valente ainda estava parado na frente do espelho do corredor.
O reflexo dele devolvia exatamente a mesma imagem de sempre.
Boné para trás.
Camiseta escura.
Tatuagens subindo pelo braço.
Olhar duro.
O tipo de olhar que fazia gente atravessar a rua quando ele passava.
Ele apoiou as mãos ao lado do espelho.
Pensativo.
As palavras dela ainda ecoavam na cabeça.
“Você realmente tem cara de bandido.”
Ele soltou um pequeno suspiro.
— Talvez eu tenha mesmo…
Passou a mão pelo rosto.
Mas logo balançou a cabeça.
Ele tinha coisas para resolver.
Pegou o celular do bolso.
Rolou a lista de contatos.
E apertou em um nome.
Dioguinho.
A ligação foi atendida rápido.
— Fala, chefe.
— Arruma um carro pra mim.
— Que tipo de carro?
— Um bom.
— Bom tipo… bom mesmo?
— Isso.
Do outro lado da linha, Dioguinho soltou uma risada curta.
— Entendi.
— Tá indo pra cidade?
— Tô.
— Então já sei qual pegar.
— Dez minutos.
— Beleza.
Valente desligou.
Guardou o celular.
Olhou novamente para o espelho.
Por um segundo pensou em subir e avisar Alice que estavam quase saindo.
Mas desistiu.
Ela ainda devia estar se arrumando.
Ele caminhou até a porta da frente da casa.
Abriu.
O sol da manhã já iluminava o morro inteiro.
Algumas crianças brincavam na rua.
Homens conversavam perto de motos.
A vida seguia normal.
Ninguém imaginava que o chefe do morro estava ali…
Refletindo sobre a própria aparência.
Poucos minutos depois o som de um motor potente ecoou pela rua.
Um SUV preto apareceu subindo a ladeira.
Grande.
Imponente.
Vidros escuros.
Carro de gente rica.
Ou de gente perigosa.
O carro parou na frente da casa.
Dioguinho desceu.
Sorrindo.
— Tá aí, chefe.
Valente olhou o carro.
— Bom.
— Muito bom.
Dioguinho deu um tapinha no capô.
— Top.
— Cidade grande gosta de carro assim.
Valente assentiu.
Então olhou por cima do ombro.
A escada da casa.
Silêncio.
Alice ainda não tinha descido.
Ele pensou por um segundo.
Depois falou:
— Vem aqui.
Dioguinho franziu a testa.
— Onde?
— Lá dentro.
— Beleza.
Eles entraram na casa.
Valente subiu as escadas.
Dioguinho foi atrás.
Curioso.
Quando chegaram no quarto de Valente, ele fechou a porta.
Dioguinho ficou olhando em volta.
— O que foi?
Valente ficou alguns segundos em silêncio.
Como se estivesse escolhendo as palavras.
Então falou.
Meio sem jeito.
— Dioguinho…
— Fala.
Valente coçou a nuca.
— Você acha que eu tenho cara de bandido?
Por um segundo…
Dioguinho ficou completamente imóvel.
Depois começou a rir.
Mas rir mesmo.
Rir alto.
— É óbvio, cara!
Valente não riu.
Dioguinho continuou.
— Por isso todo mundo tem medo de você.
— Tu é o terror do morro.
— Tu entra num lugar e o povo já fica quieto.
Valente suspirou.
E simplesmente sentou na cama.
Desanimado.
— Hm.
Dioguinho parou de rir.
— Ué…
— Por que essa pergunta?
Valente deu de ombros.
— Nada.
— Só curiosidade.
Mas Dioguinho conhecia ele bem demais para cair nessa.
— Foi a Barbie, né?
Silêncio.
Valente não respondeu.
Mas também não negou.
Dioguinho abriu um sorriso divertido.
— Ela falou isso?
Valente encarou o chão.
— Mais ou menos.
— Falou que eu tenho cara de bandido.
Dioguinho deu de ombros.
— E tem.
Valente jogou um olhar cansado para ele.
— Valeu pelo apoio.
Dioguinho levantou as mãos.
— Ué, chefe.
— É a verdade.
— Tu quer que eu minta?
Valente ficou alguns segundos quieto.
Depois levantou.
Foi até o guarda-roupa.
Abriu.
Várias roupas organizadas.
Camisetas.
Jaquetas.
Calças.
Ele olhou para Dioguinho.
— Me ajuda aqui.
— Com o quê?
— Preciso me vestir bem.
Dioguinho piscou.
— Bem tipo…?
— Bem tipo… gente da cidade.
— Não quero parecer um bandido.
Dioguinho ficou olhando para ele.
Confuso.
— Tá…
— Agora eu tô curioso.
Mas mesmo assim se aproximou do guarda-roupa.
Começou a olhar as roupas.
— Vamos ver…
Ele puxou algumas peças.
Rejeitou outras.
Até que encontrou uma camisa.
— Aqui.
Era uma camisa polo azul.
Simples.
Elegante.
— Isso aqui é camisa de playboy.
Valente ergueu uma sobrancelha.
— Playboy?
— É.
— Casual.
— Mas elegante.
Valente pegou a camisa.
Observou.
— Pode ser.
Dioguinho continuou procurando.
— Calça…
Ele puxou uma preta.
— Essa aqui.
— Discreta.
— Sem muita firula.
Valente assentiu.
— E sapato…
Dioguinho abriu outra parte do armário.
— Não vai de tênis de quebrada.
— Melhor algo mais arrumado.
Ele puxou um sapatênis casual branco.
Bonito.
Simples.
— Esse.
Valente começou a sorrir.
— Tu entende disso, hein.
Dioguinho deu de ombros.
— Eu observo.
Ele pegou um relógio.
— Isso aqui também.
— Bonito.
— Sem parecer ostentação.
Depois encontrou uma correntinha dourada.
Pequena.
— Essa aqui.
— Simples.
— Nada exagerado.
Ele colocou tudo na cama.
— Pronto.
Valente olhou o conjunto.
Parecia realmente algo que alguém da cidade usaria.
— Agora vai tomar banho.
— Rápido.
— Enquanto isso eu ajeito isso aqui.
Valente assentiu.
Pegou uma toalha.
E foi para o banheiro.
A água do chuveiro começou a cair.
Do lado de fora, Dioguinho pegou um ferro portátil.
Passou a camisa.
Ajeitou a calça.
Organizou tudo na cama.
Minutos depois o chuveiro desligou.
Valente saiu do banheiro.
Com a toalha enrolada na cintura.
O cabelo ainda molhado.
Dioguinho apontou para a cama.
— Vai lá.
Valente começou a se vestir.
Primeiro a calça.
Depois a camisa polo.
Quando abotoou o último botão…
A diferença era visível.
Valente sempre foi um homem imponente.
Alto.
Ombros largos.
Corpo forte.
Treinado.
Os olhos claros contrastavam com o tom de pele mais bronzeado.
Mas agora…
A aparência dele tinha mudado.
A camisa azul valorizava os braços fortes.
A calça preta deixava a postura mais elegante.
O sapatênis completava tudo.
Dioguinho cruzou os braços.
Observando.
— Caraca…
Valente olhou para ele.
— O quê?
— Tu virou outra pessoa.
Valente deu uma pequena risada.
— Exagero.
— Nada.
Dioguinho pegou um perfume caro que estava na prateleira.
— Usa esse aqui.
Valente borrifou um pouco.
O cheiro era sofisticado.
Depois colocou o relógio.
A correntinha.
Discreta.
Elegante.
Mas ainda faltava algo.
Dioguinho pegou um pente.
— Vem aqui.
Valente se aproximou.
Dioguinho passou o pente no cabelo dele.
Ajeitou.
Criou um topete estiloso.
Arrumado.
Moderno.
Quando terminou, deu um passo para trás.
Observando.
— Cara…
— Se eu te visse assim na rua…
— Jamais acharia que tu é bandido.
Valente olhou no espelho.
E realmente…
Parecia outra pessoa.
Apesar do braço fechado de tatuagens.
Dioguinho percebeu.
— Relaxa.
— Hoje em dia os riquinhos também fecham o braço.
Valente virou para ele.
— Sério?
— Claro.
— Só que não é história.
— É moda.
Valente começou a rir.
— Então eu tô na moda sem saber.
— Exatamente.
Os dois riram.
Depois de alguns segundos…
Dioguinho falou:
— Pronto.
— Agora tu tá muito mauricinho.
Valente balançou a cabeça.
— Mauricinho é exagero.
— Nada.
— Tá parecendo herdeiro de empresa.
Valente sorriu.
— Tomara que funcione.
Dioguinho deu um tapinha no ombro dele.
— Relaxa.
— A Barbie vai até se assustar.
Valente soltou uma pequena risada.
— Vai mesmo.
Ele caminhou até a porta do quarto.
— Valeu pela ajuda.
— Sempre, chefe.
Dioguinho saiu.
Descendo as escadas.
Valente ficou sozinho no quarto.
Silêncio.
Ele caminhou até o espelho novamente.
E ficou se olhando.
A imagem refletida ali…
Era quase irreconhecível.
O mesmo homem.
Mas com outra presença.
Outra aparência.
Outra história.
Ele inclinou levemente a cabeça.
Observando os próprios olhos.
E murmurou baixinho:
— Será que agora eu ainda tenho cara de bandido… Barbie?