1
— Você mandou me chamar.
Jorge Bellini ergueu os olhos.
Rodolfo estava parado diante da porta do escritório, ainda com o sobretudo escuro nos ombros. Tinha chegado havia poucos minutos e não parecia disposto a permanecer mais do que o necessário.
— Entre.
Rodolfo entrou e fechou a porta.
Jorge indicou a cadeira à frente da mesa.
Ele preferiu ficar de pé.
Jorge não insistiu.
Conhecia aquele homem havia anos demais para perder tempo com pequenas disputas. Rodolfo obedecia ordens. Não costumes.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou.
— Não.
Rodolfo esperou.
Jorge fechou a pasta que tinha diante de si.
— Quero falar sobre Elisa.
A expressão de Rodolfo não mudou.
Sabia quem era.
A filha única de Jorge.
Quase nunca a via. Jorge a mantinha afastada dos negócios e, pelo que Rodolfo sabia, também afastada da maior parte dos homens que circulavam pela casa.
— O que tem ela?
Jorge levantou-se.
— Vinte e sete anos.
Rodolfo acompanhou-o com os olhos.
— E?
— E continua solteira.
Houve uma pequena pausa.
— Isso é um problema?
Jorge caminhou até o móvel das bebidas.
— Para mim, é.
Serviu uísque no copo.
— Meu pai teve três filhos. Meu avô, cinco. A família Bellini sempre continuou através dos filhos.
Tomou um gole.
— Eu não tive essa sorte.
Rodolfo percebeu a amargura.
Jorge nunca falava da esposa.
Muito menos do nascimento da filha.
— Quando minha mulher engravidou, eu queria um menino.
A voz dele não carregava tristeza.
Carregava ressentimento.
— Um filho para preparar. Alguém que aprendesse desde cedo como as coisas funcionam. Que assumisse meu lugar quando chegasse a hora.
Rodolfo permaneceu calado.
— Veio Elisa.
Jorge bebeu novamente.
— E minha mulher morreu no parto.
O silêncio pesou por alguns segundos.
— Elisa não teve culpa disso — Rodolfo disse.
O olhar de Jorge encontrou o dele.
Frio.
— Eu sei o que os médicos disseram.
Não era uma resposta.
Rodolfo entendeu e não insistiu.
Jorge continuou:
— Não tive outro filho. Não vou ter. E agora tenho uma filha de vinte e sete anos dentro da minha casa sem marido, sem filhos e sem qualquer perspectiva de mudar isso.
— Talvez ela não queira casar.
Jorge soltou uma pequena risada.
— Elisa foi criada para casar.
Rodolfo franziu levemente a testa.
— Como assim?
Jorge voltou para a mesa.
— Minha filha recebeu a educação que deveria receber. Sabe administrar uma casa. Sabe receber pessoas. Sabe cuidar de tudo que diz respeito a um lar. Foi ensinada a respeitar o homem com quem se casar, a preservar o nome da família e a não se envolver em assuntos que não lhe pertencem.
Rodolfo continuava escutando.
— Nunca houve homem algum na vida dela — acrescentou Jorge. — Nunca namorado. Nunca amante. Nada.
Jorge apoiou o copo sobre a mesa.
— Ela chega ao casamento como foi criada para chegar.
Rodolfo respirou pelo nariz.
Começava a perceber que aquela conversa tinha um destino.
— E mesmo assim ninguém apareceu?
Aquilo irritou Jorge.
— Elisa não circula por aí como essas mulheres que vocês conhecem.
— Então você a escondeu do mundo e agora está irritado porque o mundo não veio procurá-la.
Jorge apertou a mandíbula.
— Eu a protegi.
— Chame como quiser.
Os dois se encararam.
Rodolfo não baixou os olhos.
Jorge tampouco.
Depois de alguns segundos, Jorge retomou:
— O problema não é apenas ela estar solteira.
Caminhou até a janela.
— Quando eu morrer, o que acontece?
— Alguém assume.
— Exatamente.
Jorge virou-se.
— E eu não vou entregar o que construí para qualquer homem.
Rodolfo permaneceu imóvel.
— Há homens comigo há vinte anos que eu não colocaria naquela cadeira por uma semana.
— Então escolha melhor seus homens.
— Eu escolhi.
Silêncio.
Jorge encarou-o diretamente.
— Você.
Rodolfo não reagiu de imediato.
Jorge continuou:
— É o único em quem confio para manter o que é meu de pé depois que eu não estiver aqui.
— Eu não sou Bellini.
— Ainda não.
Foi aí que Rodolfo entendeu.
Seu rosto endureceu.
— Não.
Jorge nem piscou.
— Ainda não fiz a proposta.
— Não precisa.
Rodolfo afastou-se alguns passos.
— Escolha outro.
— Não quero outro.
— Eu não quero casamento.
— Eu sei.
— Então sabe que está perdendo seu tempo.
Jorge aproximou-se lentamente da mesa.
— Estou resolvendo dois problemas de uma vez.
Rodolfo soltou uma respiração pesada.
— Não sou babá de ninguém, Jorge.
— E eu não estou lhe entregando uma criança.
A resposta veio rápida.
— Elisa sabe cuidar de uma casa. Sabe obedecer. Sabe se comportar. Não vai lhe dar trabalho.
Rodolfo virou o rosto.
— Você fala da sua filha como se estivesse descrevendo uma propriedade.
— Estou descrevendo a mulher que vai levar meu nome adiante.
Aquilo fez Rodolfo olhar novamente para ele.
Jorge prosseguiu:
— Você assume meu lugar quando chegar a hora. Casa com Elisa. Vocês têm filhos.
— Está planejando meus filhos agora?
— Estou planejando o futuro da minha família.
— Sem perguntar a nenhum dos dois.
— Não preciso.
Rodolfo riu uma única vez, sem humor.
— E ela sabe?
— Ainda não.
— Claro.
Jorge ignorou o tom.
— Vou contar.
— E se ela disser não?
Dessa vez Jorge realmente pareceu ofendido com a pergunta.
— Elisa não foi criada para desafiar o pai.
Rodolfo ficou em silêncio.
Agora entendia melhor o tipo de casa em que aquela mulher havia crescido.
— Você não está procurando um marido para ela — disse. — Está procurando alguém que mantenha tudo exatamente como você quer.
Jorge não negou.
— Estou procurando um homem que tenha pulso.
— Para controlar sua filha.
— Para ser marido dela.
— Não é a mesma coisa.
— Para mim, é.
O silêncio voltou.
Rodolfo passou a mão pela barba.
— Não quero uma mulher na minha casa.
— Vai ter.
Os olhos de Rodolfo se estreitaram.
— Não fale como se isso já estivesse decidido.
Jorge se aproximou.
A voz permaneceu baixa.
— Está.
Rodolfo ficou completamente imóvel.
— Isso é uma ordem?
— É.
A atmosfera mudou.
Rodolfo sustentou o olhar do chefe por vários segundos.
Não havia medo nele.
Havia raiva.
Mas também havia uma coisa que Jorge conhecia muito bem.
Lealdade.
Rodolfo podia odiar aquela decisão.
Podia discordar.
Podia até pensar que Jorge tinha enlouquecido.
Mas havia ordens que ele não quebrava.
— Quero conhecê-la primeiro.
Jorge assentiu.
— Amanhã.
— Conhecer não significa que gostei da ideia.
— Não precisa gostar.
Rodolfo pegou o sobretudo que havia deixado sobre o encosto da cadeira.
— Você está cometendo um erro.
— Talvez.
Rodolfo caminhou até a porta.
— Rodolfo.
Ele parou.
— Ela é obediente — Jorge disse. — Não terá problemas com ela.
Rodolfo olhou por cima do ombro.
— Se precisa repetir tanto isso, talvez esteja tentando convencer a si mesmo.
E saiu.
Jorge permaneceu sozinho.
O olhar voltou para a janela.
Rodolfo ainda resistia.
Não importava.
No fim, obedeceria.
Elisa também.
E o nome Bellini continuaria.