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1171 Words
Jorge chegou em casa pouco depois das dez. A casa estava silenciosa. Elisa ainda estava acordada. Sentada à mesa da sala menor, tinha diante de si um livro aberto e uma xícara de chá já fria. Usava um vestido simples, claro, de pequenas flores, preso nos ombros por laços finos. O cabelo loiro estava solto. Ela levantou assim que ouviu os passos do pai. Sempre fazia isso. — Boa noite, pai. Jorge entregou o casaco a uma das empregadas. — Boa noite. Ele seguiu para o escritório particular da casa. Elisa voltou os olhos para o livro. — Elisa. Ela levantou novamente. — Sim? — Venha comigo. O jeito como ele falou fez com que ela fechasse o livro sem perguntar nada. Seguiu o pai. Desde pequena aprendera que Jorge não gostava de repetir ordens. O escritório daquela casa era menor que o da empresa, mas não menos intimidador. Elisa conhecia cada detalhe daquele cômodo. Quando criança, fora proibida de entrar ali sem autorização. Mesmo adulta, ainda sentia que estava fazendo alguma coisa errada quando atravessava aquela porta. Jorge serviu uma bebida. — Sente-se. Elisa obedeceu. Juntou as mãos sobre o colo e esperou. Jorge permaneceu em pé por alguns segundos. — Você já está com vinte e sete anos. Ela piscou. Não esperava aquilo. — Sim. — E continua solteira. Elisa abaixou os olhos por um instante. Aquele assunto não era novo. Só nunca havia sido tratado de maneira tão direta. — Sim, pai. — Nunca trouxe homem algum para esta casa. — O senhor nunca permitiria. Jorge virou o rosto devagar. Elisa percebeu imediatamente que havia falado mais do que deveria. — Não estou reclamando — acrescentou depressa. — Só quis dizer que... — Você foi criada direito. Ela ficou em silêncio. — Sua mãe não teve tempo de fazer isso, então eu fiz. Você recebeu educação. Aprendeu a cuidar de uma casa. Aprendeu como uma esposa deve se comportar. Elisa apertou levemente os dedos. Não gostava de quando ele falava da mãe. Principalmente daquele jeito. Como se ela fosse uma ausência que precisava ser corrigida. — Eu sei. — Então também deve saber que isso não pode continuar. Elisa franziu a testa. — O quê? — Você dentro desta casa, envelhecendo sem marido. A palavra doeu mais do que deveria. Envelhecendo. Tinha vinte e sete anos. Mas vinda do pai, parecia que já tinha perdido alguma oportunidade que nem sabia que existia. — Eu não escolhi que fosse assim. — Não? Elisa ergueu os olhos. Jorge a encarava. — Nunca apareceu ninguém — disse ela, mais baixo. — Exatamente. O rosto dela esquentou. Jorge caminhou até a mesa. — Eu resolvi isso. Elisa demorou alguns segundos para entender. — Resolveu? — Você vai se casar. O silêncio foi imediato. Ela continuou olhando para ele. Esperando que viesse alguma explicação que tornasse aquilo menos absurdo. Não veio. — Com quem? Jorge tomou um gole. — Rodolfo Rinaldi. Elisa ficou imóvel. O nome pareceu mudar a temperatura da sala. — Rodolfo... Rinaldi? — Você sabe quem ele é. Sabia. Talvez não o conhecesse de verdade, mas sabia. Todo mundo naquela casa sabia. Rodolfo era um dos homens que entravam e saíam sem precisar anunciar presença. Um dos poucos que conversavam com Jorge a portas fechadas. E havia histórias. Histórias que as empregadas interrompiam quando Elisa chegava. Homens que mudavam de assunto. Nomes que não eram ditos perto dela. Rodolfo era um deles. Elisa começou a balançar lentamente a cabeça. — Não. Jorge pousou o copo. Ela própria pareceu assustada com a palavra. Nunca havia dito não daquela maneira. Não para ele. — O quê? Elisa respirou fundo. — Eu não quero. O olhar de Jorge endureceu. — Não perguntei se quer. Ela sentiu o coração acelerar. Durante vinte e sete anos, fizera tudo que ele esperava. Estudara onde ele mandou. Vestira o que considerava adequado. Nunca chegara tarde. Nunca tivera namorado. Nunca entrara em festas que ele não aprovasse. Nunca trouxera vergonha para aquela casa. Nunca sequer levantara a voz. — Pai, por favor... — Não comece. — Mas eu nem conheço esse homem. — Vai conhecer. — E se eu não gostar dele? Jorge soltou um sorriso frio. — Isso não é requisito. Elisa olhou para ele como se não tivesse entendido. — O senhor está falando do meu casamento. — Estou falando do seu dever. Alguma coisa dentro dela cedeu. Talvez porque tivesse passado a vida inteira obedecendo. Talvez porque justamente por isso esperasse receber ao menos uma escolha que fosse sua. — Eu fiz tudo que o senhor quis. Jorge ficou em silêncio. — Tudo. A voz dela tremia agora. — Nunca lhe dei problema. Nunca desobedeci. Nunca fiz nada que pudesse envergonhá-lo. — E? Elisa sentiu os olhos queimarem. — Então não pode simplesmente escolher um homem e mandar que eu me case com ele. Jorge deu um passo à frente. — Cuidado. Ela deveria ter parado. Sabia disso. Mas pela primeira vez não conseguiu. — Eu não quero Rodolfo Rinaldi. — Você nem o conhece. — Conheço o suficiente. — Pelas conversas de empregados? — Pelo jeito que as pessoas ficam quando ele entra em um lugar. Jorge a encarou. — Isso deveria tranquilizá-la. Elisa quase riu, mas não havia humor algum. — Tranquilizar? Ela se levantou. — As pessoas têm medo dele. — Exatamente. — Eu também tenho. Jorge perdeu a paciência. — Chega. Elisa fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, havia lágrimas, mas ela não permitiu que caíssem. — Eu prefiro ficar sozinha. Jorge ficou imóvel. — O quê? A voz dela saiu mais firme. — Eu prefiro ficar solteira. O rosto dele mudou. — Você não sabe o que está dizendo. — Sei. Elisa respirou fundo. Era a primeira vez na vida que se ouvia falando daquela maneira com o pai. — Prefiro chegar velha, sozinha, sem marido, sem filhos... prefiro tudo isso a me casar com um homem que eu temo. O tapa veio antes que ela percebesse que Jorge havia se aproximado. O rosto de Elisa virou para o lado. Ela ficou parada. Sem reação. A mão subiu devagar até a face. Jorge respirava pesado. — Nunca mais fale comigo desse jeito. Elisa não respondeu. Os olhos estavam cheios de lágrimas. Mas nenhuma caiu. Não ali. Jorge apontou para a porta. — Amanhã você conhecerá Rodolfo. Ela continuou imóvel. — E vai se comportar como foi criada para se comportar. Elisa engoliu em seco. Então assentiu. Uma vez. Apenas uma. Saiu do escritório sem dizer boa noite. Subiu as escadas devagar. Passou por uma empregada no corredor e conseguiu fazer o que fazia melhor. Fingir que estava bem. Só quando entrou no quarto e girou a chave na porta deixou os ombros caírem. As lágrimas vieram de uma vez. Silenciosas. Elisa sentou-se na beirada da cama e cobriu o rosto com as mãos. Não tinha ninguém para quem correr. Nunca tivera. E no dia seguinte conheceria o homem que seu pai havia escolhido para ser seu marido.
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