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746 Words
Elisa trocou de roupa três vezes. Não porque quisesse impressioná-lo. Muito pelo contrário. Se pudesse escolher, Rodolfo Rinaldi jamais colocaria os pés naquela casa por causa dela. No fim, escolheu um vestido azul-claro de mangas curtas, cintura marcada e saia abaixo dos joelhos. Simples, discreto, sem decote. Prendeu parte dos cabelos loiros atrás da cabeça e deixou o restante cair pelas costas. Ficou alguns segundos diante do espelho. Parecia calma. Era mentira. Desde que acordara, sentia uma pressão desagradável no estômago. O pai lhe dissera apenas que Rodolfo chegaria às três. Nada mais. Como se estivesse anunciando uma visita qualquer. Como se Elisa não tivesse passado a noite inteira lembrando tudo o que já ouvira sobre aquele homem. Pouco antes do horário, uma empregada apareceu. — Seu pai está esperando na sala. Elisa assentiu. Desceu. Jorge estava de pé próximo à janela. Olhou para ela rapidamente. — Sente-se. Elisa sentou. — Ele já chegou? — Ainda não. Ela juntou as mãos sobre o colo. O silêncio daquela casa nunca lhe parecera tão grande. Então ouviu o carro. O coração bateu mais forte. Uma porta fechou do lado de fora. Depois outra. Passos atravessaram a entrada. Elisa abaixou os olhos por um instante. Respirou. Quando tornou a levantá-los, Rodolfo apareceu à porta da sala. E a primeira coisa que Elisa pensou foi: Ele era enorme. Não apenas alto. Grande. Ombros largos demais para a camisa escura que usava, braços fortes, mãos grandes. O tecido estava dobrado nos antebraços e deixava tatuagens à mostra. Uma delas, uma âncora escura, chamava atenção perto do pulso. Elisa sentiu o corpo enrijecer. Já o tinha visto de longe antes. Mas distância enganava. De perto, Rodolfo parecia ocupar espaço demais. A sala pareceu menor depois que ele entrou. Ele cumprimentou Jorge com um movimento curto da cabeça. — Chegou — Jorge disse. Rodolfo não respondeu. Então olhou para Elisa. O medo piorou. Ela não sabia explicar exatamente por quê. Talvez fosse porque ele não sorria. Talvez fossem as histórias. Talvez fosse o fato de aquele homem saber perfeitamente que estava ali para conhecer a mulher que deveria receber como esposa. Rodolfo ficou parado alguns segundos. Elisa tentou sustentar o olhar. Não conseguiu. Abaixou os olhos. Sentiu-se pequena. Muito pequena. — Elisa — Jorge disse. Ela não sabia se o pai a estava apresentando ou mandando que levantasse. Levantou mesmo assim. Foi um erro. Em pé, percebeu ainda melhor a diferença entre os dois. Rodolfo era muito maior. Elisa precisou erguer o rosto para olhá-lo. O coração começou a bater tão rápido que temeu que ele percebesse. Rodolfo não disse boa tarde. Não estendeu a mão. Não sorriu. Só olhou. Elisa sentiu o rosto esquentar. Os olhos dele passaram devagar por ela. Cabelo. Rosto. Vestido. Corpo. E voltaram. Ela engoliu em seco. O medo se misturou a outra coisa. Constrangimento. Ele estava avaliando-a. Era a única explicação. Provavelmente tentando entender por que Jorge Bellini precisava obrigar um homem a casar com a própria filha. Rodolfo deu um passo. Elisa quase recuou. Quase. O pai estava ali. Ela ficou parada. Rodolfo aproximou-se até ficar perto demais. Não tocou nela. Não precisou. Elisa sentia a presença dele como se houvesse uma parede à sua frente. Então ele começou a andar. Passou pelo lado dela. Devagar. Elisa acompanhou com os olhos, sem coragem de virar a cabeça. Ele passou por suas costas. O som dos passos parecia alto demais. Ela prendeu a respiração. Parecia um animal grande circulando algo que ainda não tinha decidido o que fazer. Quando Rodolfo tornou a aparecer diante dela, Elisa não conseguiu impedir que seus dedos tremessem. Ele percebeu. Os olhos dele desceram até as mãos. Depois voltaram ao rosto dela. Aquilo a deixou ainda mais assustada. Elisa queria que ele falasse. Qualquer coisa. O silêncio era pior. Porque no silêncio ela podia imaginar. Nojo. Arrependimento. Raiva. Talvez os três. Rodolfo permaneceu olhando para ela. Mas havia alguma coisa errada naquela conclusão. Porque aquele olhar não parecia nojo. Era escuro. Pesado. Intenso demais. Quase feroz. Elisa não soube interpretar. E o desconhecido a assustou mais ainda. Ele olhou para Jorge. Depois novamente para ela. E foi embora. Sem uma única palavra. Elisa ficou parada. Demorou alguns segundos para conseguir respirar normalmente. A primeira coisa que sentiu foi alívio. A segunda foi humilhação. Porque o homem que seu pai havia escolhido para ela acabara de examiná-la dos pés à cabeça e saído sem sequer achar que valia a pena dizer alguma coisa.
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