Elisa ainda permaneceu alguns segundos parada no meio da sala depois que a porta se fechou.
O silêncio parecia maior agora.
Ela olhou para o lugar onde Rodolfo estivera e depois para o pai.
— Ele... gostou ou detestou o que viu?
Jorge ergueu os olhos.
— O quê?
Elisa sentiu vergonha assim que precisou repetir.
— Eu.
A palavra saiu baixa.
— O senhor viu a forma como ele me olhou. Depois simplesmente foi embora.
Jorge pegou o copo sobre a mesa.
— Rodolfo sempre foi difícil de ler.
Elisa apertou os dedos.
— Então o senhor não sabe.
— Não.
Jorge tomou um gole.
— Aquele homem é indecifrável quando quer ser. Trabalha comigo há anos e, muitas vezes, eu só descubro o que ele pensa quando decide abrir a boca.
Elisa desviou os olhos.
Aquilo não a tranquilizou.
— Talvez ele não queira mais.
Jorge soltou o copo sobre a mesa.
— Isso não diz respeito a você.
Ela levantou o rosto.
— Como não diz respeito a mim? É comigo que ele vai se casar.
— Exatamente. Então faça o que lhe cabe e deixe Rodolfo comigo.
Elisa respirou fundo.
Ainda tinha medo de contrariá-lo depois da noite anterior.
— Eu só pensei que...
— Pare de pensar pelo homem.
A resposta foi seca.
Elisa se calou.
Jorge olhou para ela.
— Vá descansar.
Ela assentiu e saiu.
Mas enquanto subia as escadas, uma única certeza continuava crescendo dentro dela.
Rodolfo não gostara do que vira.
Talvez tivesse achado o casamento desagradável antes.
Depois de conhecê-la, provavelmente achara pior.
Rodolfo apareceu no escritório de Jorge naquela mesma noite.
Não precisou mandar anunciar.
Abriu a porta, entrou e fechou atrás de si.
Jorge continuou lendo um documento.
— Achei que só apareceria amanhã.
— Não vou fazer isso.
Jorge levantou os olhos devagar.
Rodolfo permanecia diante da mesa.
A expressão fechada.
As mãos nos bolsos.
— Fazer o quê?
— Casar com ela.
Jorge deixou a caneta sobre o papel.
— Engraçado.
Rodolfo não respondeu.
— Não lembro de ter perguntado se ainda estava interessado.
O maxilar dele endureceu.
— Não estou.
— Eu percebi.
— Então encontramos uma coisa em que concordamos.
Jorge recostou-se na cadeira.
— Rodolfo, ser meu soldado mais fiel não lhe dá o direito de escolher quais ordens vai cumprir.
O olhar dos dois se encontrou.
— Isso não é mandar cobrar uma dívida.
— Nunca disse que era.
— Não é mandar alguém desaparecer.
— Também não.
— Está decidindo o resto da minha vida.
Jorge ficou em silêncio por um instante.
— Estou decidindo o futuro da minha família.
— À custa do meu.
— Você fala como se tivesse algum grande plano de vida esperando do lado de fora.
Rodolfo deu uma risada curta.
Sem humor.
— Não ter plano é diferente de querer uma esposa.
— Vai sobreviver.
— Esse não é o ponto.
Jorge levantou-se.
— Então qual é?
Rodolfo demorou a responder.
O rosto de Elisa apareceu em sua cabeça antes que pudesse impedir.
Os cabelos claros.
Os olhos enormes presos nele por alguns segundos antes de fugirem.
Aquele rosto inocente demais para estar dentro da casa de Jorge Bellini.
E o corpo.
Rodolfo fechou o maxilar.
Era justamente aquele o problema.
Ele tinha ido até aquela casa esperando encontrar uma obrigação.
Uma mulher qualquer.
Talvez alguém arrogante, acostumada ao dinheiro do pai e convencida de que o sobrenome Bellini fazia dela alguma espécie de prêmio.
Teria sido muito mais fácil.
Mas Elisa não se parecera com nada do que ele tinha imaginado.
E Rodolfo não gostava de surpresas.
Principalmente daquelas capazes de fazê-lo esquecer, por alguns segundos, por que tinha entrado numa sala.
— Ela parece mimada — disse.
Jorge franziu o cenho.
— Mimada?
— Criada dentro daquela casa, longe de tudo. Sem conhecer nada da vida real.
Era uma desculpa r**m.
Rodolfo sabia.
Jorge também parecia saber.
— Você passou menos de quinze minutos na mesma sala que ela.
— Foi suficiente.
— Para quê?
Rodolfo sustentou o olhar dele.
— Para saber que não quero isso.
Jorge deu de ombros.
Rodolfo o encarou.
— Não vou passar meus dias cuidando de uma mulher que provavelmente não sabe fazer nada sem alguém atrás dela.
Jorge soltou uma risada seca.
— Então você não prestou atenção quando falei sobre minha filha.
Rodolfo permaneceu calado.
— Elisa sabe administrar uma casa. Foi educada para isso. Sabe receber, organizar, cuidar do que é dela. Nunca me deu escândalo, nunca apareceu bêbada, nunca trouxe homem para dentro da minha casa.
Jorge aproximou-se.
— Se está procurando uma desculpa, encontre uma melhor.
Os olhos de Rodolfo escureceram.
— Não preciso inventar desculpa para não querer casar.
— Precisa quando está tentando recusar uma ordem minha.
O silêncio caiu entre os dois.
Rodolfo não desviou.
Jorge também não.
— Escolha outro homem — disse Rodolfo.
— Não.
— Você tem dezenas.
— Tenho dezenas de soldados.
Jorge apontou discretamente para ele.
— Tenho um Rodolfo.
Aquilo não soou como elogio.
Era pior.
Era uma sentença.
— Quero você no meu lugar quando eu morrer. Quero Elisa casada. Quero filhos dessa união. E quero meu sangue ligado ao homem que vai comandar tudo isso depois de mim.
Rodolfo passou a mão pela barba.
— Você planejou tudo.
— Sim.
— Menos a possibilidade de eu não querer.
— Considerei.
— E?
Jorge voltou para trás da mesa.
— Não achei importante.
Rodolfo soltou uma risada baixa e incrédula.
— Você é um desgraçado.
— E ainda assim está aqui há anos.
Isso era verdade.
Jorge pegou o copo.
— Você não precisa amá-la.
A frase atingiu Rodolfo de uma maneira que Jorge jamais poderia imaginar.
Ele ficou imóvel.
— Não preciso que faça poesia, compre flores ou fique olhando para ela durante o jantar — continuou Jorge. — Preciso que case com ela. Que coloque filhos naquela casa. O resto vocês resolvem.
Rodolfo desviou o rosto.
Amor.
A palavra nem sequer fazia parte da vida dele.
Nunca fizera.
Mulheres haviam passado por sua cama sem deixar mais do que perfume nos lençóis.
Nenhuma permanecera em sua cabeça depois de fechar uma porta.
Elisa estava lá havia horas.
E isso o irritava profundamente.
— Não quero ela — repetiu.
Jorge observou-o por alguns segundos.
— Está tentando me convencer ou convencer a si mesmo?
Rodolfo voltou os olhos para ele.
Perigosamente.
Jorge não recuou.
— Cuidado com o que está insinuando.
— Não estou insinuando nada.
Jorge tomou um gole.
— Estou dizendo que a decisão está tomada.
— Por você.
— Sou seu chefe.
Rodolfo ficou em silêncio.
— Você pode não gostar — Jorge continuou. — Pode passar esta noite inteira me odiando. Amanhã continuará sendo o homem que escolhi para minha filha.
Rodolfo deu um passo em direção à mesa.
— E se eu disser não?
Jorge pousou o copo.
— Então será a primeira ordem direta que você recusou desde que entrou para esta família.
Aquilo bastou.
Rodolfo permaneceu olhando para ele.
Não havia medo em seu rosto.
Havia raiva.
Muita.
Mas Jorge sabia onde atingira.
Lealdade era uma das poucas coisas que Rodolfo levava mais a sério do que a própria vontade.
— Quando? — perguntou, por fim.
Jorge não sorriu.
— Ainda vou decidir.
Rodolfo se virou para sair.
— E Rodolfo.
Ele parou.
— Pare de procurar defeitos na minha filha. Se realmente tivesse detestado o que viu, não teria voltado aqui na mesma noite.
Rodolfo olhou por cima do ombro.
O rosto não revelou absolutamente nada.
— Não sabe o que está falando.
E saiu.
Dessa vez, Jorge sorriu.
Não porque soubesse o que Rodolfo sentira.
Não sabia.
Mas conhecia aquele homem havia tempo suficiente para perceber quando alguma coisa conseguia incomodá-lo.
Elisa tinha conseguido.
E Rodolfo odiava isso.