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991 Words
Elisa fechou a porta do quarto e permaneceu alguns segundos com as costas apoiadas nela. Silêncio. Finalmente. Não havia o pai observando cada movimento. Não havia empregados passando pelos corredores. Não havia Rodolfo. Só ela. Elisa caminhou até a cama e sentou-se devagar, ainda tentando entender como sua vida conseguira mudar tanto em menos de dois dias. Ia se casar. Aquela frase ainda parecia absurda. Ia se casar com Rodolfo Rinaldi. Pior. Aquele homem agora era seu noivo. Noivo. Elisa soltou o ar e deixou o corpo cair para trás sobre a cama. Cobriu os olhos com as mãos. — Meu Deus... Tentou imaginar Rodolfo como marido. Não conseguiu. O que aparecia em sua cabeça era o homem que entrara naquela sala horas antes. Enorme. Foi a primeira coisa que pensou quando o viu. Rodolfo era alto, mas não era apenas isso. Havia alguma coisa na largura dos ombros, nos braços fortes, no jeito firme de caminhar que fazia com que ele parecesse ocupar mais espaço do que realmente ocupava. E as tatuagens. Elisa nunca estivera tão perto de um homem tatuado. A âncora no braço tinha chamado sua atenção imediatamente, embora tivesse feito de tudo para não olhar. Depois havia o rosto. Ela tirou lentamente as mãos dos olhos. Rodolfo era... Bonito? Elisa franziu a testa para o teto. Aquilo era ridículo. Sim. Ele era bonito. Muito. De uma maneira que quase a irritava. Cabelos escuros, barba, olhos igualmente escuros e aquele rosto sempre fechado, como se sorrir fosse alguma coisa que ele tivesse decidido abandonar muitos anos antes. Mas bonito não era a palavra que mais combinava com ele. Assustador. Essa servia melhor. Elisa virou-se de lado. E se ele fosse tão r**m quanto diziam? As histórias sobre Rodolfo nunca eram completas. Ninguém dizia exatamente o que ele havia feito. Era sempre pior assim. Frases interrompidas. Olhares. Um homem dizendo que não gostaria de ter Rodolfo procurando por ele. Outro comentando que Jorge só o chamava quando não havia espaço para erro. Ela sabia o que o pai fazia. Talvez não conhecesse os detalhes, mas não era estúpida. E Rodolfo estava ao lado dele havia anos. O que um homem precisava fazer para conquistar a confiança de alguém como Jorge Bellini? Elisa sentiu um arrepio. E se ele a machucasse? A pergunta surgiu tão depressa que ela se sentou. Abraçou as próprias pernas por alguns segundos. O pai não perguntara se Rodolfo era gentil. Provavelmente nem considerara aquilo importante. Na verdade, conhecendo Jorge, talvez tivesse escolhido Rodolfo justamente por não ser. Elisa passou os dedos pelos cabelos. Não. Não deveria pensar assim. Ainda nem conhecia o homem. Rodolfo sequer havia falado com ela. Essa lembrança trouxe outro desconforto. Ele a observara. Muito. Elisa voltou a sentir aquele olhar percorrendo seu corpo. Fechou os olhos. Tinha certeza de que ele não gostara do que viu. Por que gostaria? Rodolfo provavelmente estava acostumado a mulheres completamente diferentes dela. Mulheres bonitas de verdade. Seguras. Elegantes. Magras. Mulheres que sabiam entrar em uma sala e fazer um homem olhar. Elisa nunca soubera fazer nada disso. A vida inteira ouvira comentários suficientes para entender onde se encaixava. Seu corpo tinha curvas demais para os padrões que conhecia. Seus quadris eram mais largos, suas pernas mais cheias, sua cintura não parecia a das mulheres que apareciam acompanhando os homens do pai em festas. Talvez por isso ninguém tivesse aparecido. Ela já tinha pensado nisso inúmeras vezes. Mesmo assim, alguma parte dela lembrava o olhar de Rodolfo e encontrava dificuldade em chamá-lo de repulsa. Não parecia. Parecia outra coisa. Elisa não sabia o quê. Talvez irritação. Sim. Provavelmente irritação. Ele também não queria aquele casamento. Seu pai tinha acabado de colocar os dois dentro da mesma prisão. A diferença era que Rodolfo pelo menos parecia alguém capaz de quebrar as grades. Ela não. Elisa levantou-se e caminhou até o espelho. Olhou o próprio reflexo. O vestido azul ainda estava perfeitamente ajustado. O cabelo continuava preso da maneira como havia arrumado antes de descer. Passou as mãos pela cintura. Depois as afastou imediatamente. Não adiantava. Mesmo que Rodolfo aceitasse o casamento, aquilo não significava que a desejaria. E casamento significava coisas sobre as quais Elisa sempre evitara pensar. Seu rosto esquentou. Ela fora criada sabendo exatamente o que se esperava de uma esposa. Havia recebido conselhos suficientes, embora sempre vagos e desconfortáveis. Mas saber que alguma coisa existia era muito diferente de saber fazê-la. Elisa nunca estivera com homem algum. Nunca chegara perto disso. Nunca beijara ninguém de verdade. E Rodolfo... Ela quase riu de nervoso. Um homem de trinta e oito anos com aquela aparência, aquela segurança, aquela vida... É claro que já tivera mulheres. Provavelmente muitas. Mulheres que sabiam exatamente como agradá-lo. Mulheres que não ficariam tremendo só porque ele chegara perto demais. Elisa voltou a sentar-se. — Isso vai ser um desastre. Falou para ninguém. Porque não havia ninguém. Ela segurou o travesseiro contra o peito e fechou os olhos. Tentou imaginar a cerimônia. Não conseguiu. Tentou imaginar vivendo na casa dele. Pior ainda. Então, contra toda lógica, a imagem que voltou foi outra. Rodolfo diante dela. O olhar escuro. Silencioso. Percorrendo-a. Elisa apertou o travesseiro. O homem a assustava. Muito. Mas havia uma verdade ainda mais perturbadora que ela não queria admitir. Alguma coisa nele também a atraía. Talvez justamente porque fosse tão diferente de tudo que conhecia. Talvez porque, pela primeira vez na vida, um homem tivesse olhado para ela daquela maneira. Ou talvez estivesse inventando aquilo apenas porque queria desesperadamente acreditar que não havia visto nojo nos olhos dele. Elisa abriu os olhos. Não. Rodolfo Rinaldi jamais olharia para uma mulher como ela e pensaria alguma coisa bonita. Isso era fantasia. E Elisa aprendera cedo demais que mulheres como ela não deveriam alimentar fantasias. Mesmo assim, naquela noite, quando fechou os olhos para dormir, não foi o tapa do pai que apareceu primeiro em sua cabeça. Foi o rosto de Rodolfo.
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