O estranho e o mar

890 Words
Capítulo 2 – O Estranho e o Mar O barulho da chuva batendo contra o telhado preenchia a casa de Marina enquanto ela esperava. O garoto ainda estava no banheiro, e a cada segundo que passava, sua inquietação crescia. Ele sabia seu nome. Ela não se lembrava de já tê-lo visto antes. São Brisas não era uma cidade grande—qualquer novo rosto logo se tornava conhecido por todos. E, mesmo se ele fosse um turista, ela teria se lembrado de alguém com aqueles olhos. Olhos prateados como o mar sob a luz do luar. Ela abraçou os próprios braços, tentando ignorar o arrepio que subia por sua espinha. Seu olhar vagou até a lareira, onde as chamas lançavam sombras dançantes pelas paredes. O calor deveria tê-la acalmado, mas tudo dentro dela parecia alerta, como se estivesse à beira de algo que não entendia. O ranger suave da porta do banheiro a fez se virar. Ele apareceu no corredor, agora vestido com a calça e o moletom de seu irmão. As roupas ficaram um pouco largas nele, mas o que mais chamou sua atenção foi como ele parecia… deslocado. Como se vestir roupas comuns fosse algo estranho para ele. Ou talvez fosse só sua imaginação. Ele deu um passo hesitante para dentro da sala, olhando ao redor como se estivesse memorizando cada detalhe. — Está melhor? — Marina perguntou, sua voz soando mais firme do que se sentia. Ele assentiu devagar. — Sim. Obrigado. O silêncio entre eles era denso, carregado de perguntas não feitas. Ela cruzou os braços. — Certo… agora talvez você possa me dizer seu nome. Ele hesitou. Por um instante, ela achou que ele não responderia. Mas então, ele suspirou, como se estivesse tomando uma decisão importante. — Ethan. — Ethan o quê? Ele desviou o olhar. — Só Ethan. Marina franziu o cenho. — Você não tem um sobrenome? Ele apertou os lábios, e Marina percebeu que ele não ia responder. Algo nele parecia… cauteloso. Como se tivesse medo de dizer a coisa errada. Ela soltou um suspiro. — Certo. Vamos tentar de outro jeito. Como você veio parar no mar? Ethan passou a língua pelos lábios, hesitante. — Eu… não me lembro direito. Apenas me lembro da água. — Da água? Ele assentiu. — Sim. Do frio, das ondas… e de uma voz. Marina se inclinou para frente. — Que tipo de voz? Os olhos prateados dele encontraram os dela. — A sua. Um arrepio percorreu a espinha de Marina. — O quê? Ethan abaixou a cabeça, os cabelos ainda um pouco úmidos caindo sobre sua testa. — Eu ouvi você me chamando. Foi isso que me trouxe até aqui. Marina piscou, tentando entender o que ele estava dizendo. — Isso não faz sentido. Eu só vi você quando seu corpo apareceu na água. Eu nunca… Ela parou. Porque a verdade era que ela tinha sentido algo naquela noite. Uma estranha urgência, como se o mar estivesse chamando por ela. Como se algo—ou alguém—precisasse dela. O silêncio entre os dois ficou mais pesado. Ela passou as mãos pelo rosto. — Isso é loucura. — Eu sei. Ethan disse isso de um jeito tão calmo, tão certo, que Marina sentiu um nó se formar em seu estômago. Ela o observou por mais alguns segundos, antes de se levantar. — Você deve estar com fome. Vou ver o que tem na cozinha. Ele a observou enquanto ela caminhava até a pequena cozinha da casa. Marina pegou pão e um pouco de chá quente, mas não conseguia afastar os pensamentos que giravam dentro de sua cabeça. Quando voltou para a sala, Ethan ainda estava de pé, olhando pela janela. — A tempestade passou — ele disse baixinho. Marina se aproximou, estendendo um prato para ele. — Aqui. Coma alguma coisa. Ele aceitou o prato, mas não comeu imediatamente. Seus olhos continuavam fixos no oceano escuro além da colina. — Você gosta do mar, não gosta? — Marina perguntou. Ethan finalmente desviou o olhar da janela para encará-la. — O mar é tudo o que eu conheço. A maneira como ele disse aquilo fez um calafrio subir pelo corpo dela. — Como assim? Ethan hesitou, como se estivesse escolhendo as palavras certas. — Eu… sempre estive perto dele. Marina franziu o cenho. — Você morava em um barco? Ele balançou a cabeça lentamente. — Algo assim. Ela esperou por mais detalhes, mas percebeu que ele não daria nenhum. Suspirando, ela se sentou no sofá e observou enquanto ele finalmente começava a comer. — Eu não sei o que aconteceu com você, Ethan, mas se precisar de um lugar para ficar… pode dormir aqui hoje. Amanhã, podemos ver se alguém está te procurando. Ele ficou em silêncio por um instante antes de assentir. — Obrigado. — Mas você precisa me prometer uma coisa — ela disse, estreitando os olhos. Ethan ergueu a sobrancelha. — O quê? — Sem mais segredos. Se eu vou te ajudar, você tem que ser honesto comigo. Ele observou o rosto dela por um longo tempo antes de finalmente responder. — Tudo bem, Marina. Mas, enquanto dizia isso, seus olhos diziam outra coisa. E Marina soube, naquele instante, que Ethan ainda escondia algo. Algo grande. E, de alguma forma, ela tinha certeza de que aquilo tinha a ver com o mar.
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