Capítulo 3 – Vozes no mar
A casa de Marina estava mergulhada em silêncio. Apenas o som da madeira estalando sob o vento e o eco distante das ondas quebrando na praia preenchiam o ambiente.
Ethan dormia no sofá, sua respiração ritmada, quase em sintonia com o mar. Marina, por outro lado, não conseguia dormir.
Ela se revirou na cama, encarando o teto, a mente girando sem descanso.
Nada daquilo fazia sentido.
Ela encontrou um garoto misterioso, quase inconsciente, no meio da tempestade. Ele não sabia como chegou ali. Não tinha sobrenome. E, de alguma forma, sabia o nome dela antes que ela o dissesse.
E a maneira como ele olhava para o oceano…
Marina suspirou, sentando-se na cama. Seus dedos brincavam com a borda do cobertor enquanto sua mente tentava encontrar alguma explicação lógica para tudo aquilo.
Mas, no fundo, algo lhe dizia que não havia lógica.
O relógio ao lado da cama marcava 2h43 da manhã quando ela finalmente desistiu de tentar dormir.
Talvez uma caminhada ajudasse a clarear a mente.
Colocando um moletom por cima do pijama, ela desceu as escadas com cuidado para não acordar Ethan. Mas, ao chegar à sala, percebeu que não precisaria se preocupar.
O sofá estava vazio.
Seu coração deu um salto.
— Ethan?
Nenhuma resposta.
Ela deu alguns passos hesitantes pela casa, olhando ao redor. O moletom que havia emprestado a ele ainda estava dobrado sobre o encosto do sofá. As roupas molhadas que ele usava antes tinham sumido.
A porta da frente estava entreaberta.
Um calafrio subiu por sua espinha.
Marina correu para fora, sentindo o vento gelado da madrugada arrepiar sua pele.
O caminho até a praia era curto, e seus pés afundavam na areia fria a cada passo apressado. O céu estava limpo agora, as estrelas refletindo no oceano calmo, como se a tempestade nunca tivesse existido.
E então ela o viu.
Ethan estava na beira da água, com as ondas lamendo seus pés descalços. Sua postura era estranhamente rígida, os braços ao lado do corpo, os olhos fixos no horizonte.
Mas não era isso que fez o coração de Marina parar.
Era a forma como a água parecia reagir a ele.
As ondas vinham e iam em um ritmo diferente do normal, como se respondessem à sua presença. Pequenos redemoinhos se formavam ao redor de seus tornozelos, girando devagar.
Ela sentiu um nó se formar em sua garganta.
— Ethan?
Ele não se virou imediatamente. Por um instante, ela achou que ele nem tinha ouvido. Mas então, lentamente, ele desviou o olhar do mar para encará-la.
Seus olhos estavam mais brilhantes do que antes.
Como prata líquida.
— O que você está fazendo aqui? — Ela se aproximou, a voz saindo mais hesitante do que pretendia.
Ele piscou algumas vezes, como se estivesse despertando de um transe.
— Eu… não sei.
— Você saiu da casa sem dizer nada.
Ethan olhou para o chão, como se tivesse acabado de perceber.
— Eu senti algo me chamando.
Ela franziu o cenho.
— Chamando? Quem?
Ethan hesitou.
— O mar.
Marina cruzou os braços.
— Você está falando como se o oceano tivesse uma voz.
Ele manteve o olhar fixo nela, e Marina sentiu um arrepio na nuca.
— E se tiver?
O ar pareceu mais pesado entre eles.
Ela respirou fundo.
— Ethan, o que está acontecendo com você? Quem você realmente é?
Ele abriu a boca, como se fosse dizer algo, mas então o som de uma onda mais forte quebrando os interrompeu.
E, junto com o barulho da água, veio outra coisa.
Uma voz.
Fraca, distante, carregada pelo vento.
Marina ficou rígida.
— Você ouviu isso?
Ethan permaneceu parado, mas ela viu seu maxilar se apertar.
— Sim.
O som veio de novo, um sussurro indecifrável misturado ao barulho do oceano.
Marina olhou ao redor, tentando encontrar alguma explicação, mas a praia estava vazia.
— O que está acontecendo? — Sua voz saiu mais baixa, quase temerosa.
Ethan finalmente desviou os olhos dela e olhou para o mar.
— Eles me encontraram.
Marina sentiu um arrepio gelado subir por seu corpo.
— Quem?
Ele deu um passo para trás, deixando a água molhar um pouco mais suas pernas.
— Eu tenho que ir.
O pânico bateu no peito de Marina antes que ela pudesse raciocinar.
— Ir para onde?! Ethan, espera!
Ela agarrou seu braço, e o contato entre eles fez algo acontecer.
Um arrepio percorreu a pele de Marina, mas não era apenas frio. Era algo mais profundo, como se uma corrente invisível passasse entre os dois.
Ethan arregalou os olhos, respirando fundo.
— Você não devia me tocar.
Mas ela não soltou.
— Não até você me dizer o que está acontecendo!
Ethan fechou os olhos por um momento, como se lutasse contra algo dentro de si. Quando abriu novamente, havia algo diferente neles.
Resignação.
— Eu não sou como você, Marina.
O coração dela martelava.
— Como assim?
Ele olhou para o mar, depois para ela.
— Eu não pertenço a esse mundo.
O vento soprou forte, e Marina sentiu o gosto do sal nos lábios.
— Você está falando como se…
Ela parou.
Como se fosse uma criatura do mar.
Seu corpo ficou tenso.
— Ethan… isso é impossível.
Ele sorriu, mas não era um sorriso feliz.
— Eu queria que fosse.
O mar rugiu atrás deles, e a voz voltou, mais forte dessa vez.
Marina sentiu um medo inexplicável tomar conta de seu peito.
Ela não sabia exatamente o que Ethan era, mas tinha certeza de uma coisa.
Se ele entrasse naquela água agora…
Ela nunca mais o veria.