Capítulo 4 – O Chamado das Profundezas
O vento soprou mais forte, e Marina sentiu o frio se enroscar em sua pele como dedos invisíveis. O oceano à sua frente parecia ter ganhado vida própria, as ondas se agitando de maneira estranha, quase como se estivessem esperando. Chamando.
E Ethan estava prestes a atender esse chamado.
Ela ainda segurava o braço dele com força, como se sua mão fosse a única âncora que o prendia à terra firme.
— Ethan, por favor, me diz que isso é algum tipo de brincadeira — sua voz saiu mais trêmula do que queria.
Ele não respondeu imediatamente. Apenas ficou parado, os olhos prateados fixos nos dela, como se estivesse gravando cada detalhe de seu rosto.
E então, ele sorriu.
Não um sorriso de diversão ou alívio. Mas um sorriso triste.
— Eu queria que fosse.
O coração de Marina apertou.
— Então me explica! Me faz entender! Você está falando como se… como se fosse alguma coisa do mar.
Ethan desviou o olhar para o oceano, as ondas refletindo em seus olhos brilhantes.
— E se eu for?
O silêncio entre eles foi tão profundo que Marina sentiu como se o mundo ao redor tivesse se apagado por um instante.
Sua mente se recusava a aceitar o que ele estava dizendo. Pessoas normais não apareciam desacordadas na praia durante uma tempestade sem nenhuma explicação. Pessoas normais não faziam o oceano responder à sua presença.
Pessoas normais não tinham olhos que pareciam líquidos prateados.
— Isso não é possível — Marina sussurrou.
Ethan a observou por um longo momento antes de dar um meio sorriso.
— Eu disse o mesmo quando pisei em terra firme pela primeira vez.
Ela sentiu o chão sumir sob seus pés.
— Então é verdade?
Ele suspirou, passando uma das mãos pelo cabelo n***o ainda úmido.
— Eu não sou daqui, Marina. Eu nunca fui.
A respiração dela acelerou.
— Como… como isso é possível?
Ethan deu de ombros.
— O mesmo jeito que é possível para os pássaros voarem e os peixes respirarem debaixo d’água. Eu sou apenas… diferente.
Marina sentiu a mente girar.
— Mas isso significa que… que existem mais como você?
Ele ficou em silêncio por um momento, e então assentiu.
— Existem. Mas eu não deveria estar aqui.
Uma nova onda se ergueu e desabou atrás dele, molhando a barra de sua calça. Ele não se moveu.
Marina sentiu um arrepio subir por sua espinha.
— Você fugiu?
Ethan a olhou, e havia algo nos olhos dele—algo profundo e sombrio.
— Eu escapei.
Ela sentiu um nó se formar em sua garganta.
— Do quê?
Ele abriu a boca para responder, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, a voz voltou.
Dessa vez, era mais nítida.
Um sussurro arrastado, ecoando através do vento e da água, mas com uma urgência que fez o peito de Marina se apertar.
Ela sentiu Ethan enrijecer.
— Eles estão perto demais — ele murmurou.
O medo na voz dele foi o suficiente para Marina perceber o perigo.
— Quem está perto demais?
Antes que ele pudesse responder, algo aconteceu.
O mar, que já parecia agitado, se tornou violento em questão de segundos. Ondas se ergueram como muralhas, e a água, antes azul-escura, pareceu ganhar um brilho prateado e profundo, como o reflexo de uma noite sem estrelas.
E então, as silhuetas apareceram.
No início, Marina achou que fossem apenas sombras na água. Mas, conforme os segundos passaram, percebeu que eram algo mais.
Movimentos rápidos, corpos deslizando entre as ondas.
Criaturas.
Elas eram ágeis, quase indistinguíveis da própria água, mas seus olhos brilhavam. Prateados, como os de Ethan.
Seu coração bateu forte.
— Ethan…
Ele não desviou o olhar do oceano.
— Eles vieram me buscar.
Marina agarrou seu braço com mais força.
— Então não vá.
Ele finalmente se virou para encará-la, e ela viu algo novo nos olhos dele.
Medo.
— Eu não sei se tenho escolha.
A água continuava a se mover ao redor deles, e então uma das silhuetas emergiu completamente.
Era uma mulher.
Pele pálida e brilhante como pérola, cabelos escuros que escorriam como tinta n***a pelos ombros. Seus olhos, idênticos aos de Ethan, se fixaram neles com uma intensidade cortante.
Ela abriu um sorriso.
— Irmão.
Marina sentiu um arrepio na nuca.
A mulher ergueu uma das mãos, e o mar reagiu, as ondas girando ao redor dela como se fossem parte de seu corpo.
— Você demorou.
Ethan respirou fundo.
— Eu não voltarei.
A expressão da mulher não mudou.
— Você não tem essa escolha.
Foi então que Marina entendeu.
Ethan estava fugindo de sua própria família.
Ela sentiu sua respiração acelerar.
— Ele não tem que ir a lugar nenhum — ela disse, dando um passo para frente.
A mulher voltou seu olhar para ela, como se só agora tivesse percebido sua presença.
— Você é a garota.
O jeito como ela disse aquilo fez Marina sentir um calafrio.
— O que quer dizer com isso?
A mulher sorriu, mas não havia simpatia em seu rosto.
— Ele veio até você. Ele ouviu sua voz.
Marina trocou um olhar rápido com Ethan, lembrando-se das palavras dele mais cedo.
“Eu ouvi você me chamando.”
Mas ela não tinha chamado. Pelo menos, não conscientemente.
A mulher inclinou a cabeça levemente.
— Você não entende o que fez, não é?
— Me explique — Marina desafiou.
A mulher apenas sorriu mais.
— Você o puxou para este mundo. E agora… ele precisa voltar.
O vento uivou ao redor delas.
Marina sentiu Ethan endurecer ao seu lado.
— Eu não vou voltar.
A mulher suspirou.
— Você não tem escolha.
Ela ergueu a mão, e a água respondeu instantaneamente. Uma onda enorme começou a se erguer, crescendo cada vez mais.
Foi então que Marina percebeu.
Eles não estavam apenas ali para levar Ethan de volta.
Eles estavam dispostos a arrastá-lo à força.
Seu coração disparou.
Sem pensar, ela agarrou a mão dele com força.
— Ethan, corra!
Mas era tarde demais.
A onda desabou.
E o mundo escureceu.