Entre dois mundos

997 Words
Capítulo 5 – Entre Dois Mundos O impacto da onda foi como um soco contra o peito de Marina. A água fria engoliu seu corpo, arrancando o ar de seus pulmões e arrastando-a para baixo como se tivesse mãos invisíveis puxando seus tornozelos. Ela abriu os olhos em pânico, mas tudo o que viu foi escuridão. A água ao redor estava pesada, densa, como se tivesse se transformado em algo mais espesso que o próprio oceano. Seu corpo girava sem controle, afundando rápido demais. Marina tentou nadar para cima, mas algo segurava sua perna. O pavor a invadiu. Lutando contra a corrente, ela forçou seus braços a se moverem, chutou as pernas com toda a força, tentando se soltar. Mas a pressão era forte demais. Seu peito começou a arder. O ar que restava em seus pulmões escapou em bolhas prateadas, subindo até onde deveria estar a superfície. Ela não ia conseguir. Ela estava se afogando. Mas então, algo aconteceu. Mãos firmes a agarraram pelos braços. O calor percorreu sua pele, diferente de tudo o que já tinha sentido antes. Mesmo na água fria, a sensação foi intensa, como se pequenas faíscas estivessem dançando entre sua pele e a de Ethan. Ethan. Ela abriu os olhos novamente e o encontrou. Ele estava ali, segurando-a com força, seus olhos brilhando no escuro como faróis no meio da tempestade. E, por um instante, o oceano pareceu congelar ao redor deles. O peso que puxava Marina desapareceu de repente, como se algo invisível tivesse sido arrancado dela. Seu corpo parou de afundar. Ethan puxou-a contra si, e a próxima coisa que ela soube foi que estavam subindo. A água ao redor deles parecia abrir caminho, como se obedecesse a ele. Como se ele fosse parte dela. E então, eles emergiram. Marina arfou, sugando o ar para dentro de seus pulmões com um desespero que queimava sua garganta. Ela tossiu, sentindo o gosto de sal, seus braços tremendo ao se agarrar ao corpo de Ethan. Eles estavam de volta à superfície. Mas não estavam sozinhos. A mulher de olhos prateados estava ali, flutuando na água como se fosse parte dela, sem esforço algum. Seu olhar se fixou em Ethan. — Você ainda tenta resistir? Ethan não respondeu. Ele apenas segurou Marina mais forte e a manteve perto, como se estivesse se preparando para lutar. A mulher suspirou, como se estivesse lidando com uma criança teimosa. — Você não entende, irmão? O que você está fazendo é impossível. Marina engoliu em seco. Irmão. Aquilo se repetiu na mente dela, se fixando como um eco. Eles eram da mesma família. Mas Ethan ainda segurava Marina com força, como se estivesse deixando claro que não voltaria com eles. A mulher inclinou a cabeça. — Você já sentiu, não sentiu? O tempo correndo contra você? Ethan continuou em silêncio, mas algo em sua expressão mudou. Marina percebeu. Ele sabia do que a irmã estava falando. A voz dela se suavizou. — Você não pode ficar aqui. Seu corpo não foi feito para este mundo. O peito de Marina apertou. O que aquilo significava? Ethan hesitou. Sua mandíbula estava tensa, seus dedos pressionados contra a pele dela, como se estivesse lutando contra algo dentro de si. Então, ele sussurrou: — Eu sei. Marina sentiu o mundo desabar ao seu redor. — O quê? Ethan fechou os olhos por um momento antes de encará-la. — Eu não pertenço a este mundo, Marina. Nunca pertenci. Ela balançou a cabeça, sentindo seu coração bater mais forte. — Mas você… você está aqui. Isso não significa alguma coisa? Os olhos dele estavam cheios de dor quando respondeu: — Significa que eu fiz algo que nunca deveria ter feito. O silêncio entre eles foi cortado pela voz da irmã de Ethan. — Ele está morrendo. Marina congelou. — O quê? A mulher a olhou com algo que quase parecia pena. — Você realmente achou que ele poderia simplesmente viver aqui? Que poderia deixar nosso mundo e ficar preso ao seu sem consequências? Ela balançou a cabeça. — Ele está fora do lugar. Ele está se desfazendo. Marina olhou para Ethan em pânico, mas ele desviou o olhar. — Me diga que isso não é verdade. Ethan não respondeu. Mas ele não precisava. O silêncio dele dizia tudo. O peito de Marina se apertou. — Não… não pode ser. A irmã de Ethan observou a reação dela com uma expressão calculista. — Você acha que está salvando ele, mas só está adiando o inevitável. Ele precisa voltar para o mar. Marina sentiu o desespero crescer dentro de si. — E se ele não quiser? A mulher a olhou com calma. — Então ele morre. O mundo pareceu se partir ao meio. Marina sentiu as lágrimas queimarem seus olhos, mas recusou-se a deixar que caíssem. Ela olhou para Ethan, sua mente girando, procurando uma solução, uma resposta, qualquer coisa. Ele segurou suas mãos com delicadeza, seus olhos brilhando sob a luz da lua. — Eu queria mais tempo. A dor na voz dele quebrou Marina por dentro. — Ethan… Ele sorriu, mas era um sorriso triste. — Se eu tivesse escolha, eu ficaria. As lágrimas caíram antes que ela pudesse impedi-las. — Então fique. Ethan balançou a cabeça. — Eu não posso. O mar rugiu ao redor deles, como se estivesse impaciente. A irmã de Ethan estendeu a mão para ele. — Venha. Ethan fechou os olhos por um momento. Quando os abriu novamente, estavam cheios de algo que Marina não conseguia decifrar. Ele se virou para ela, e antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele tocou seu rosto suavemente. — Eu nunca quis que isso terminasse assim. A dor em sua voz foi como uma lâmina cortando Marina por dentro. — Ethan… Ele se inclinou para perto e sussurrou: — Me esqueça. E então, antes que ela pudesse responder, ele a soltou. O mar o puxou. Marina gritou, tentou segurá-lo, mas era tarde demais. Ethan foi engolido pelas águas. E desapareceu.
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