Capítulo 6 – O Silêncio do Mar
O mar ficou quieto.
O rugido das ondas que antes ameaçava engolir tudo se transformou em um sussurro baixo, como se estivesse satisfeito por ter levado Ethan de volta. Marina ficou ali, no meio da água, sentindo o frio penetrar sua pele, mas o que realmente doía era a ausência dele.
Ele se foi.
As palavras ecoavam em sua mente, mas ela se recusava a aceitá-las. Não podia.
O corpo dela tremia, não só pelo frio, mas pela sensação esmagadora de perda. A irmã de Ethan não estava mais ali—nenhuma das criaturas do oceano estava. Eles tinham conseguido o que queriam.
Mas Marina não conseguia sair dali.
Suas mãos estavam fechadas em punhos, como se ainda segurassem Ethan. Como se, de alguma forma, se tentasse com mais força, pudesse puxá-lo de volta.
O vento soprou contra seu rosto, bagunçando seus cabelos molhados. E então, lentamente, o oceano começou a empurrá-la para a praia.
Ela cambaleou ao sair da água, os pés afundando na areia fria. Seu corpo estava pesado, exausto, mas sua mente estava em caos. Ela não sabia quanto tempo ficou parada ali, encarando o horizonte, esperando que Ethan emergisse das ondas como antes.
Mas ele não apareceu.
E não apareceria.
A verdade caiu sobre ela como uma onda ainda maior do que as que a tinham derrubado antes.
Ele realmente tinha ido embora.
⋅•⋅⊰⋅•⋅
Marina não se lembrava de como conseguiu chegar em casa naquela noite.
Tudo parecia um borrão. O caminho pela praia, os passos lentos pela rua deserta, a sensação da areia grudada em sua pele. Quando finalmente entrou em seu quarto, ainda com as roupas molhadas e os cabelos pingando, sentiu como se estivesse carregando toneladas de peso sobre os ombros.
Se jogou na cama sem forças para tirar a roupa, sem forças para pensar em mais nada além do vazio deixado por Ethan.
Ela fechou os olhos, mas não conseguiu dormir.
As imagens do que aconteceu se repetiam sem parar em sua cabeça.
O jeito como Ethan segurou seu rosto antes de soltá-la.
O olhar nos olhos dele.
O toque quente de suas mãos, que agora parecia apenas um eco distante.
“Me esqueça.”
Mas como ela poderia esquecê-lo?
Era impossível.
⋅•⋅⊰⋅•⋅
Os dias passaram como se estivessem presos em uma névoa.
Marina não falava muito. Na escola, as vozes ao redor pareciam abafadas, como se viessem de um mundo distante. Quando seus amigos perguntavam se ela estava bem, ela apenas assentia, sem realmente saber como responder.
A verdade era que não estava.
Ela sentia a ausência de Ethan em tudo.
Cada vez que olhava para o mar, seu coração se apertava, como se esperasse vê-lo ali, parado na areia, sorrindo para ela como antes. Mas ele nunca estava.
As palavras da irmã dele voltavam à sua mente o tempo todo.
“Ele não pode ficar aqui. Seu corpo não foi feito para este mundo.”
“Ele está morrendo.”
Marina queria odiá-la pelo que fez. Queria odiar qualquer um que tivesse tirado Ethan dela. Mas, no fundo, sabia que a culpa não era da irmã dele.
A culpa era do próprio oceano.
O mar que trouxe Ethan para ela… também o levou embora.
⋅•⋅⊰⋅•⋅
Foi no sétimo dia sem Ethan que algo mudou.
Marina estava sentada na areia, encarando as ondas sem realmente vê-las, quando sentiu algo.
Foi fraco, como um sussurro no vento, mas real o suficiente para fazê-la se levantar de repente.
Ela olhou para a água, o coração disparado.
A sensação… era a mesma de antes. A mesma que sentiu no primeiro dia em que Ethan apareceu.
Uma espécie de chamado.
Ela não sabia explicar como sabia disso, mas sabia.
Algo estava ali.
Sem pensar, começou a andar em direção ao mar.
A água tocou seus pés, depois seus tornozelos, mas ela não parou.
Seu coração batia forte.
Então, sentiu.
Fraco, mas real.
Um toque.
Ela arfou e olhou para baixo.
E ali, entre a espuma das ondas, viu algo que fez seu peito apertar ainda mais.
Uma pulseira.
A mesma pulseira que Ethan usava no pulso desde que ela o conheceu.
Marina se abaixou e pegou o objeto, os dedos tremendo. O couro escuro estava úmido e levemente desgastado pelo sal, mas ainda era a mesma peça que Ethan nunca tirava.
Ele estava tentando se comunicar com ela?
Ou isso era apenas um lembrete c***l de que ele não voltaria?
Ela apertou a pulseira contra o peito, fechando os olhos.
E então, tomou uma decisão.
Ela não ia aceitar isso.
Não sem lutar.
Se Ethan estava preso do outro lado do oceano…
Ela encontraria um jeito de trazê-lo de volta.
⋅•⋅⊰⋅•⋅
Naquela noite, Marina fez algo que nunca tinha feito antes.
Ela se sentou no chão do quarto, abriu seu notebook e começou a pesquisar.
Lendas sobre o oceano.
Histórias sobre criaturas marinhas.
Casos de pessoas desaparecidas no mar que foram encontradas anos depois.
Qualquer coisa que pudesse lhe dar uma pista sobre Ethan.
A maioria dos artigos falava sobre mitos antigos—sereias, espíritos da água, reinos submarinos escondidos da humanidade.
Mas então, encontrou algo que fez seu coração acelerar.
Um texto antigo, de origem desconhecida, falava sobre um povo que vivia entre dois mundos.
Seres que pertenciam ao oceano, mas que às vezes cruzavam para o mundo humano.
E, o mais importante…
Seres que podiam ser chamados de volta.
Seu peito apertou.
Ela leu a passagem em voz alta, tentando absorver cada palavra.
“Aqueles que pertencem ao mar ouvem a voz daqueles que amam.”
“E se a ligação for forte o suficiente, eles encontram um caminho de volta.”
A ligação.
Marina apertou a pulseira de Ethan em sua mão.
Se isso fosse verdade…
Se havia uma chance, mesmo que mínima…
Então ela ia tentar.
Ela não sabia como.
Ainda.
Mas ia encontrar um jeito.
Porque Ethan não era apenas um garoto misterioso que apareceu em sua vida.
Ele era parte dela agora.
E ela não estava pronta para deixá-lo ir.