O sacrifício da verdade

1351 Words
Capítulo 10 – O Sacrifício da Verdade Marina acordou no dia seguinte com a sensação de que o mundo ao seu redor estava em ruínas. Ela se levantou da cama sem um propósito claro, os olhos pesados e a mente tumultuada. Os eventos da noite anterior ainda reverberavam em sua alma, como uma melodia distante e dolorosa. Ela sabia que, de algum modo, algo dentro dela tinha mudado para sempre, mas não sabia exatamente o que fazer com essa mudança. O que estava em jogo agora? O que ela estava disposta a sacrificar para trazer Ethan de volta? A presença dele ainda pairava em seu coração, como uma chama que nunca se apagaria. Mesmo depois da última visão, quando ele desapareceu nas ondas, Marina sentia como se ele estivesse com ela, uma força invisível que a guiava. Mas a dor do que ele disse, a verdade amarga de que o mar tomava o que queria e não devolvia, a fez vacilar. Ele estava certo? O preço que ela estava disposta a pagar realmente valeria a pena? ⋅•⋅⊰⋅•⋅ O mar estava mais agitado naquela manhã, como se fosse um reflexo de sua própria turbulência interna. As ondas quebravam com mais força do que o normal, e o vento parecia mais feroz. Marina sabia que precisava voltar à praia, precisava entender mais profundamente o que estava acontecendo com ela e o que ela poderia fazer para lidar com as consequências de suas escolhas. Ela vestiu algo simples e saiu sem falar com ninguém. O mundo ao seu redor parecia distante, quase irreconhecível. Os rostos das pessoas que passavam por ela pareciam borrados, como se o tempo estivesse se distorcendo. E o mar, o imenso e imponente mar, chamava por ela mais uma vez. Chegando à praia, Marina se aproximou da beira da água com o coração apertado. Cada passo era pesado, como se o oceano estivesse puxando suas pernas para dentro de suas profundezas. Ela sentou-se na areia, os pés submersos na água fria, e deixou-se levar pela sensação de imersão. O vento estava forte, e a espuma das ondas batia contra seus pés, mas nada disso parecia importar. Ela sentia algo maior a envolvê-la, uma conexão com o próprio oceano, com o espírito de Ethan, com aquilo que os unia, embora estivesse além de sua compreensão. O mar parecia entender sua dor, suas perdas, seus anseios. Mas ele não era gentil. Ele não oferecia consolo, apenas desafiava. Marina fechou os olhos e falou em voz baixa, como se estivesse conversando com o próprio vento. “Eu não vou desistir de você, Ethan. Eu sei que você está aí. Eu sei que existe uma maneira de trazê-lo de volta. Eu não vou permitir que o mar nos separe para sempre. Não posso… Não posso viver com isso.” Ela repetia essas palavras, não porque acreditava que alguém estava ouvindo, mas porque seu coração não sabia fazer outra coisa senão continuar gritando por ele. As palavras, embora vazias de resposta imediata, davam-lhe uma sensação de alívio temporário, como se a simples repetição a ajudasse a lidar com o peso de sua própria decisão. Foi então que, entre as ondas, algo se mexeu. Uma figura se formou lentamente na água, como se o próprio oceano estivesse moldando-a. Marina piscou, tentando entender o que estava acontecendo. Ela sabia que não poderia ser uma ilusão — o mar, a água, tudo ao seu redor, parecia pulsar com uma força que ela não compreendia. A figura diante dela tomou forma, e o coração de Marina disparou. Era Ethan. Mas não da maneira que ela lembrava. Ele estava parcialmente translúcido, como uma presença que ainda não havia se dissipado completamente. Seus olhos estavam fixos nela, e a dor que ela viu refletida neles fez seu estômago revirar. “Marina,” sua voz chegou até ela, suave e cheia de tristeza. “O que você está fazendo? Não sabe o que está pedindo.” Marina engoliu em seco, as palavras presas na garganta. “Eu só quero você de volta, Ethan. Eu não posso viver sem você. Eu não consigo viver sem você.” Ethan suspirou, sua forma ainda tremendo com a força das ondas. “Eu sei o que você sente, mas você não entende as consequências do que está fazendo. O mar toma e não devolve. Você não pode trazer algo de volta do além sem pagar o preço.” Ela não queria ouvir. Não podia ouvir. Mas sua vontade era mais forte, e ela a deixou falar. “Eu faria qualquer coisa, qualquer coisa para ter você de volta. O que mais eu tenho? Eu não tenho nada além dessa dor.” Ethan olhou para ela com uma expressão que Marina nunca havia visto antes. Era como se ele estivesse tentando fazer com que ela entendesse, como se estivesse tentando protegê-la de si mesma. “Marina, você já começou a pagar o preço, mas o que você não sabe é que, quando você invoca algo dessa maneira, quando tenta romper os limites do que é natural, o sacrifício não é apenas físico. Ele é espiritual. Você está arriscando a própria essência de sua alma. Você está arriscando tudo o que você é.” Marina se levantou, seus olhos lacrimejando, mas ela não recuou. Não poderia. A ideia de perder Ethan novamente era insuportável. “Eu não me importo,” ela disse, sua voz firme, mas cheia de dor. “Eu já perdi você uma vez. Não posso perder você de novo.” As ondas começaram a se agitar mais, e a presença de Ethan se tornou mais intensa, como se o oceano inteiro estivesse reagindo às palavras dela. O céu se escureceu lentamente, e o vento cortante começou a puxar sua roupa. Marina sentiu como se estivesse sendo consumida pela própria força da natureza, como se o mar estivesse testando sua determinação, forçando-a a perceber o que estava realmente em jogo. “Marina,” Ethan disse, sua voz agora mais forte, mais grave, como um trovão distante. “Você não pode desafiar o destino sem sofrer as consequências. Você não entende o que está pedindo. O preço que o mar exige é muito maior do que qualquer dor que você já sentiu.” Mas Marina não queria ouvir. A dor da perda de Ethan a cegava. Ela queria a resposta, a solução, e ela estava disposta a pagar qualquer preço. “Eu só quero você de volta,” ela repetiu, agora com uma sensação de desespero crescente. “Por favor… Eu só quero você de volta.” Havia uma pausa, e então a voz de Ethan veio novamente, mais suave, mais triste, mas também cheia de uma intensidade que fez Marina parar de respirar. “Se você realmente deseja isso, Marina, então se prepare para o que virá. O mar não dará o que você quer sem tirar algo de você também. Não pense que isso será simples.” Antes que ela pudesse responder, uma grande onda se ergueu à sua frente, vindo em sua direção com uma força imensa. Ela não teve tempo de recuar. A onda a engoliu completamente, e a última coisa que ela ouviu foi a voz de Ethan, como um eco distante. “Eu te avisei…” ⋅•⋅⊰⋅•⋅ Marina acordou em uma praia deserta. O céu estava nublado, e a areia fria a envolvia enquanto ela tentava se levantar. Seu corpo estava pesado, exausto, mas havia algo diferente. O mar parecia calmo agora, mas havia uma sensação de vazio, como se o próprio oceano tivesse levado mais do que ela poderia entender. Sua alma estava marcada. Ela olhou ao redor, mas não havia sinal de Ethan. Não havia sinal de ninguém. O vento sussurrava ao longe, e o som das ondas parecia distante, como se o mundo estivesse em outra dimensão. Ela se levantou com dificuldade, o corpo tremendo, mas o coração ainda fixo em uma única ideia: ela não poderia desistir. O mar tinha lhe mostrado o preço. Mas agora, mais do que nunca, ela sabia que estava disposta a pagar qualquer coisa.
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