CAPÍTULO TRÊS

1667 Words
ANASTASIA/LIZZY A sapatilha de ponta feria meus dedos, mas a dor só me tornava mais forte, meus punhos doíam a cada soco, a facada na minha perna queimava como o inferno, mas a dor só me tornava mais forte… — Delicadeza Anastasia. — Alexandra me repreendeu com seu olhar arrogante e nariz de pé sempre olhando para todas nós de cima como se quisesse sempre nos lembrar que nosso lugar era sempre abaixo. — Postura! Ela acertou seu chicote de couro nas minhas costas me fazendo gemer de dor ao mesmo tempo que tentava endireitar a postura no plie. Esses chicotes não marcaram nossa pele, só doíam, precisamos ser perfeitas em todos os aspectos. Perfeitas máquinas de matar sem suspeitas. Sem marcas. Sem cicatrizes. Apenas PERFEITAS. — Todas vocês precisam aprender sobre o equilíbrio, elegância, leveza e força! Tudo isso será necessário e faz parte do treinamento de vocês. Não decepcionem crianças. — Sim Srta. Biachi. — Respondemos em coro. DIAS ATUAIS A luz do amanhecer começava a derramar-se sobre o parque enquanto eu corria, meus pés batendo no solo com uma determinação nascida de anos de treinamento. Sirius, meu fiel pastor alemão, corria ao meu lado, cada passo dele uma extensão da minha própria vigilância. Sempre alerta. A brisa matinal soprava, envolvendo meu rosto, enquanto eu tentava encontrar um equilíbrio entre a corrida e os pensamentos tumultuados que dançavam em minha mente. Por baixo do disfarce de Elizabeth Moretti, uma mulher italiana de sorriso gentil, estava uma assassina treinada, uma mestre nas artes da dissimulação e da morte. Sirius, com seu pelo n***o e porte majestoso, era mais do que um simples companheiro de corrida. Ele era meu guardião, um aliado silencioso em um mundo onde a confiança era uma joia rara. Seus olhos, tão penetrantes quanto os meus próprios, varriam o ambiente enquanto corríamos. Eu confiava nele mais do que confiaria em qualquer humano. Até mais do que confiava em mim. — Vamos, Sirius. — Murmurei enquanto acelerávamos o ritmo. A necessidade de permanecer em forma era mais do que um capricho; era uma questão de sobrevivência. Sabia que a qualquer momento, aqueles que eu deixara para trás em minha vida anterior poderiam vir atrás de mim. Só se saía de lá em um saco preto, coisa que eles acham que aconteceu comigo, mas quanto tempo isso duraria? Eles descobririam a verdade? Viriam atrás de mim? O suor começava a se acumular em minha testa quando diminuí o ritmo para uma caminhada leve. Sirius, notando a mudança, diminuiu também, mantendo-se alerta. Ele estava ofegante assim como eu. — Hora da pausa garoto. — Murmurei. Como muitos donos passavam com seus cães por esse parque, haviam potes para água espalhados. Enchi um deles vendo Sirius se deliciar com a água fresca molhando seu fucinho e pelos. Sentamos em um banco, o cansaço ainda sobre nós, enquanto o sol matinal banhava o cenário. O passado estava enterrado, mas eu sabia que as cicatrizes persistiam. Elizabeth Moretti era uma construção cuidadosa, uma nova identidade para uma nova vida. Até que minha mãe não foi de toda inútil, a italiana fornecera o cenário perfeito, uma história convincente que escondia os segredos que eu desejava esquecer. — Vamos para casa, Sirius. — Disse me levantando. Ele seguiu ao meu lado na coleira, sempre vigilante. Me olhar no espelho pelas manhãs trazia uma sensação diferente. Meus cabelos continuavam ruivos, meus olhos continuavam verdes, mas eu não era mais a mesma mulher. Anastasia Dostoiévski estava morta, ela morreu para que Elizabeth Moretti pudesse nascer. Sirius, estava deitado perto da porta me observando com aqueles olhos meigos, além de uma proteção extra, estar com ele sempre me dava uma sensação de normalidade. — Eai garoto? Com fome? Corremos muito hoje. — O olhei pelo reflexo, ele me respondeu soltando um alto latido sentando. Fui até ele afagando suas orelhas e beijando o topo da sua cabeça, no armário da cozinha peguei o pote com ração e servindo a ele aproveitando para colocar água também. — Volto logo bebê. — Acariciei o pelo dele antes de sair trancando a porta. Mais um dia normal, fazendo coisas normais, sendo alguém normal, ou ao menos tentando, mas velhos hábitos nunca mudam, na minha bolsa sempre carregava uma pistola e uma faca, por precaução, afinal, uma garota precisa se defender, ainda mais quando essa garota está se mantendo escondida de uma agência inteira de espiões russos. Desci do ônibus caminhando até a cafeteria. — LIZZYYYY! — Assim que cruzei as portas da cafeteria ouvi a voz de Cassie, a loira extremamente sorridente que trabalhava comigo. — Eai. — Sorri guardando minha bolsa atrás do balcão. — Como consegue ficar tão animada assim de manhã? Tenho certeza que nem todos os meus neurônios acordaram ainda. Sempre prezando a imagem da civil normal. — É um dom ruivinha. —Ela piscou. Ri enquanto começava a lavar os copos junto com ela. Logo alguns clientes começaram a chegar, Cass ficou responsável por preparar os cafés enquanto eu servia as mesas como de costume, até atendi um cliente que deixou uma bela gorjeta. Fazia parte da minha rotina, pessoas normais tem rotinas, não é? O que para alguns seria entediante, para mim era como se estivesse no paraíso da liberdade. — Ei, Lizzy. Sexta à noite eu e uns amigos vamos naquela boate chique no centro, quer ir com a gente? — Perguntou Cass colocando duas xícaras na minha bandeja. — Não sei não. — Vai Lizzy, vamos vai ser legal! Você precisa se divertir um pouco! Está tendo a vida de uma senhora aposentada! Só faltou os gatos. — Eu tenho um cachorro, conta? — O Sirius? Ele é mais lobo que cachorro! Vamos lá diz que sim vai. — Você não vai parar de insistir até eu concordar não é? — A olhei com uma sobrancelha arqueada. — Me conhece tão bem. — Ela sorriu sinica. — Tá, eu vou. Qual o nome? — Underworld. — Respondeu animada. Até o nome do lugar tinha cheiro de fria, mas eu sabia que Cassie estava certa, desde que fugi não tenho tido muita diversão além dos filmes na tv, apenas preocupações, estresse e medidas de segurança, uma noite para beber e dançar talvez não fosse a pior das ideias. O dia continuou assim como meu trabalho. Parei de limpar uma mesa quando aquele arrepio que senti mais cedo voltou. Olhei para trás em direção a vitrine vendo um homem do outro lado da rua, usava um casaco com capuz dificultando que eu visse seu rosto, mas estava olhando pra mim. Que p***a é essa? Larguei o pano saindo da cafeteria, mas na calçada um caminhão passou na frente cobrindo minha visão do homem encapuzado e quando saiu já não havia mais ninguém ali. Eu não estava ficando doida ou paranoica, alguém de fato estava me seguindo. — Merda. — Grunhi. Não é como se eu esperasse que isso nunca fosse acontecer, ou estivesse desprotegida, mas não gosto disso. Quem quer que fosse o infeliz, se chegasse perto de mim ninguém iria conseguir encontrá-lo depois que eu colocasse as minhas mãos nele. — Tudo bem? — Perguntou Cassie ao me ver cruzar a porta. — Tudo, só achei que tivesse visto um conhecido. — Menti, mas com a convicção que usei em cada letra ninguém jamais diria que era mentira. — Um conhecido… Um ex namorado? — Cass vivia jogando verde para descobrir coisas do meu passado. Era até fofo a forma como ela achava que poderia me manipular de alguma forma. — Não, um conhecido só. — Hum sei. — A loira estreitou os olhos. Terminei meu turno sem sentir mais aquele arrepio, mas me mantive alerta, o canivete no bolso do meu uniforme podia ser pequeno, mas faria um grande estrago se necessário. Assim que abri a porta de casa Siriús veio correndo até a porta pulando em cima de mim de uma forma que quase nós dois fomos parar no chão. Cassie estava certa, ele parecia um lobo, grande e forte e extremamente protetor, mas comigo era um filhote gigante e brincalhão. — Oi pra você também. — Sorri brincando com seu pelo. Pedi comida chinesa e enquanto não chegava tirei meu uniforme largando pelo chão do quarto logo me enfiando debaixo do chuveiro, mas por mais que eu tentasse me desligar um pouco não conseguia tirar aquele homem encapuzado da cabeça. Seria um agente de Volkov? Não, eu conhecia seu modus operandi, não era do tipo de fazer joguinhos para assustar. Se me quisesse morta já estaria com um tiro no meio da testa, e se quisesse me levar de volta já estaria desacordada em um furgão ou algo do tipo. Quem diabos era ele afinal? A campainha tocando me trouxe de volta a realidade. — JÁ VAI! — Gritei para que o entregador não fosse embora. Me enrolei em uma toalha secando os pés rapidamente no tapete para não sair molhando a casa inteira e antes de abrir a porta peguei o dinheiro na bolsa. Assim que me viu os olhos do entregador faltaram cair no chão de tanto que saltaram para fora, sua boca abria e fechava, mas não saía som. — Pode me entregar agora. — Disse tentando conter o riso pela sua reação. Ele não devia ter mais que 18 anos, nunca viu uma mulher de toalha antes? Talvez. — D-Desculpe. — Esticou o saco de papel praticamente tremendo. — Valeu. Fica com o troco. — Peguei o pacote e lhe dei o dinheiro fechando a porta sem esperar por uma resposta. Porém, a minha curiosidade foi maior. Puxei um pouco a cortina olhando para fora o vendo caminhar em direção a moto, olhando para sua calça pude ver a ereção claramente marcada no jeans. Me afastei rindo enquanto caminhava até a mesa. — Esses garotos. — Revirei os olhos ainda rindo. — Não seja assim filho. Siriús até curvou um pouco a cabeça sem entender sobre o que eu estava falando.
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