HADES
A espera pelo dossiê de Elizabeth era praticamente insuportável, o tempo parecia não passar.
Eu precisava sair um pouco antes que acabasse enlouquecendo. Troquei de roupa colocando uma bermuda de tecido leve e uma regata, sem pensar muito, agarrei as chaves da minha moto descendo até a garagem.
O rugido do motor trouxe uma sensação de liberdade, e eu acelerei pelas ruas da cidade, cortando o vento frio da manhã. Minha mente ainda girava em torno da ruiva, mas o barulho do motor abafava temporariamente meus pensamentos, além do mais, a adrenalina da alta velocidade sempre fazia com que eu me sentisse vivo.
Cheguei à academia, um lugar que normalmente frequentava diariamente, mas nunca tão cedo quanto hoje. Havia mais funcionários do que clientes no lugar, ótimo, socializar nunca foi meu forte. Segui direto para os sacos de pancada, decidi liberar minha frustração e agitação em uma das poucas formas que eu conhecia.
A cada soco que eu acertava o som do meu punho no couro ecoava, os nós dos meus dedos já latejava e meus músculos queimavam em uma sensação que para mim era deliciosa.
— Consegui ouvir o saco de pancadas gritar do outro lado da academia. — A voz do meu treinador, Tom, me fazendo parar.
Havia perdido a noção do tempo, o suor estava pingando pela minha testa encharcando meu cabelo.
— Veio cedo hoje. Alguma razão especial?
Encarei os sacos de pancada por um momento antes de responder.
— Precisava liberar um pouco de energia.
Ele assentiu, compreensivo.
— Entendo. Às vezes, os treinos matinais são a melhor terapia para começar o dia. Mas que tal dar uma folga para o saco de pancadas e treinar comigo? — Tom era um sujeito durão, mas sabia como lidar comigo. Era como se pudesse ler minha mente, percebendo que algo estava fora do lugar.
— Que tal cortar o papo furado? Estou afim de acabar com você mesmo. — O desafiei.
— Como se já tivesse conseguido isso antes. — Ele riu indo indo em direção ao ringue.
Começamos a trocar golpes, os estrondos dos socos e chutes ecoando pela academia vazia. Tom era habilidoso, e nossos movimentos se encaixavam em uma dança violenta. Eu descontava minha frustração nele, mas ele não parecia se importar, o desgraçado era bom, melhor que eu, mas eu jamais diria isso em voz alta. À medida que lutávamos, eu sentia a tensão diminuir gradualmente, substituída pela exaustão física.
— Está mais distraído hoje. — Disse Tom me ajudando a levantar depois de me derrubar pela segunda vez. — O que está acontecendo, Hades?
Sacudi a cabeça, sem vontade de compartilhar os detalhes.
— Nada com o que se preocupar.
Ele pareceu desconfiado, mas não questionou mais, me conhecia o suficiente para saber que não adiantava insistir. Continuamos a treinar, nossos corpos absorvendo cada impacto como uma forma de catarse. Mesmo que Tom não soubesse sobre Elizabeth, o treino matinal estava cumprindo seu propósito, permitindo-me focar em algo além da minha ruiva.
À medida que o sol se elevava no céu, nossos movimentos diminuíam. Estávamos cansados, suados, mas a sensação de clareza começava a emergir.
A água do chuveiro caía sobre mim. Cabeça baixa, olhos fechados, eu tentava focar na respiração, na sensação da água escorrendo pelo meu corpo. Mas, como se tivesse vida própria, minha mente insistia em voltar para os cabelos de fogo de Elizabeth e seus lábios maravilhosos.
Saí do chuveiro, o vapor ainda pairando no ar, e vesti roupas limpas que deixava no meu armário. Era hora de voltar para casa e enfrentar o que quer que estivesse esperando por mim. A sensação do vento frio contra o rosto enquanto pilotava pela cidade trouxe um pouco de calma, mas a névoa dos acontecimentos recentes ainda pairava.
Mesmo contra meus instintos, virei em direção à cafeteria. A moto roncava sob mim enquanto eu me aproximava, e uma parte de mim esperava vê-la lá, entre as mesas, com aquele sorriso.
Estacionei a moto colocando o capuz do moletom caminhando até a cafeteria. Olhando pela vitrine do outro lado da rua, lá estava ela. Minha ruiva. Servindo mesas como a Cinderela. Quando nos casarmos ela não vai precisar mais trabalhar, vai ter uma vida de rainha, cobriria essa mulher de ouro da cabeça aos pés e botaria fogo no mundo se ela pedisse.
Como se sentisse a minha presença ela olhou na minha direção. Sabe que estou aqui minha ruiva? Um sorriso de lado brotou nos meus lábios. Percebi que ela estava saindo então me afastei voltando para a minha moto.
A cidade passava rapidamente ao meu redor, havia uma certa satisfação por ter visto Elizabeth novamente, ela era real, não era fruto da minha mente. E com certeza ainda seria minha mulher.
Ao chegar em casa, estacionei a moto na garagem e entrei. Deixei-me cair em uma cadeira, a mente repleta de pensamentos turbulentos. Cada célula minha ansiava por saber mais sobre aquela mulher que roubou a minha paz no instante que cruzou meu caminho.
Peguei a garrafa de uísque, servindo-me de um copo generoso antes de entrar no escritório da minha casa. As paredes escuras e a janela panorâmica do chão ao teto decoravam o lugar. O líquido âmbar era reconfortante e anestesiava minha ansiedade.
Sentado diante do notebook, mergulhei nas minhas operações, verificando as ações que estavam em alta e os números que fluíam através da administração da Underworld, minha boate.
A Underworld era mais do que uma boate comum. Era meu covil, um local onde a fachada social escondia a verdadeira natureza dos negócios. Meus clientes de verdade não vinham em busca de música ou dança; eles buscavam os meus serviços. Nomes, alvos, missões. A Underworld era onde esses negócios sombrios eram selados.
Meus e-mails na dark web mostravam uma série de mensagens, alguns clientes em potencial querendo marcar encontros na Underworld. Nomes codificados, palavras cifradas. Cada mensagem era uma transação que alimentava o meu mundo noturno.
Alguns clientes preferiam o anonimato total fazendo negócios apenas pela dark web, já outros preferem o cara a cara no modo tradicional.
Minhas respostas eram curtas, sem rodeios. Era assim que eu conduzia meus negócios, na penumbra, onde palavras demais poderiam ser perigosas.
Enquanto mergulhava nos e-mails, uma sensação familiar de controle retornava. Meus negócios eram uma extensão do meu domínio noturno, porque a verdade era uma só: Eu comandava essa cidade.
O restante do uísque queimava minha garganta enquanto eu observava a tela do laptop. Uma notificação piscou, destacando um e-mail de A.J.
Cliquei na mensagem, as expectativas misturadas com uma dose de incerteza. O dossiê abriu-se diante de mim, revelando detalhes sobre Elizabeth Moretti Steel. O nome ricocheteava em minha mente, ecoando como uma melodia desconhecida.
Nome: Elizabeth Moretti Steel
Idade: 24 anos
Data de Nascimento: 03/09/2000
Mãe: Lenore Moretti Steel (falecida)
Pai: Augustus Steel (falecido)
Cidade Natal: Sicília - Itália
Estado Civil: Desconhecido
Trabalho: Garçonete na cafeteria do Joel
Endereço: 1343 Pine Street, Seattle
Animal de estimação: Um pastor alemão.
Era como se as peças de um quebra-cabeça estivessem se encaixando. Ela havia se mudado recentemente da Sicília, uma mudança drástica que a trouxe para Seattle. Suas origens italianas adicionavam um toque de mistério à sua história.
Continuei a ler, absorvendo detalhes sobre sua vida. O dossiê era bem completo, A.J de fato era muito competente, ele fornecia até mesmo informações sobre suas contas bancárias. Elizabeth parecia uma mulher comum, mas para mim, ela havia se tornado algo mais.
Imaginava seu nome sendo pronunciado em outros contextos, com meu sobrenome no final muito em breve. O desejo de tê-la para mim crescia, uma obsessão que eu m*l compreendia.
O dossiê era um mapa, mas o território que ele delineava ainda estava coberto por sombras. Fechei o laptop, a determinação esculpida em meu rosto.
Elizabeth seria minha esposa, a mãe dos meus filhos que com certeza serão lindos pra c****e.