Passado...
—BRANDO—
O código de honra não é mais do que uma gaiola, e apenas os homens que obtêm o poder absoluto têm a chave.
Desde que tive idade suficiente para entender, não fiz nada além de seguir essa lei ao pé da letra.
Aprendi a respeitá-la e a manipulá-la a meu favor. Torcendo-a quando necessário e endireitando-a quando me convinha... e graças a isso, assegurei a minha sobrevivência e a da única pessoa que realmente me importa.
A Cosa Nostra não é uma irmandade. É um jogo de poder disfarçado de família.
Você pode jurar lealdade a vida toda, derramar sangue em nome da honra... e, ainda assim, terminar com uma bala na cabeça se a Cupola ordenar.
O destino de cada homem dentro da organização está nas mãos dos chefes das famílias mais poderosas, aqueles que ditam as regras e decidem quem vive e quem morre.
Meu pai costumava ser O Capo di tutti capi, o chefe dos chefes, até que morreu, ironicamente, com uma bala na cabeça.
Desde então, sou o líder da família Zanetti, mas ainda estou longe de conseguir um lugar em La Cupola.
Os velhos que comandam a Comissão não me consideram digno. Para eles, enquanto o último mem*bro da família que traiu e assassinou meu pai estiver vivo, a honra deles permanecerá manchada... e a minha também.
Por meu próprio bem, devo pegá-los e acabar com eles, mas eles não são os únicos que representam uma ameaça para mim.
Walter Ross é o maior espinho no meu sapato.
Cruzo o limiar do quarto em silêncio. O ar está quente e impregnado com o aroma familiar de lavanda e sândalo.
Ela sempre teve bom gosto para perfumes.
Minha mãe está sentada na penteadeira, penteando os seus longos cabelos neg*ros em frente ao espelho. Os seus movimentos são lentos, meticulosos, como se cada fio exigisse a sua atenção.
Ela pode passar horas fazendo isso, é incrível.
Eu a olho com carinho, e logo ela nota a minha presença e sorri.
Poucos sabem que ela é a única pessoa neste mundo que eu realmente amo.
Apesar da reputação que ganhei entre aqueles que me odeiam, que me veem como alguém incapaz de sentir ou se sacrificar por alguém, eles ignoram a verdade.
Há uma única pessoa por quem eu quebraria todas as regras.
E, de fato, eu já fiz isso.
Por ela.
— Mãe.
— Brando, querido. A sua voz é suave, mas firme, como sempre.
Caminho até ela e, com suavidade, pego a escova das suas mãos. Deslizo as cerdas pelo cabelo dela com a mesma delicadeza de sempre, como faço desde que era criança.
Ela confia em mim. Ela acha que eu a protegi porque era o certo.
E em parte, ela tem razão.
Mas na Cosa Nostra, a verdade e a mentira são apenas ferramentas. Não há honra na sobrevivência.
Só vencedores e perdedores.
— Você está lindo esta noite. Ela comenta com um sorriso, e isso me faz retribuir o gesto ao seu reflexo.
— Tenho um jantar de negócios, vou fechar um negócio importante. Respondo, evitando o olhar dela. — Não voltarei esta noite, mas prometo vir tomar café da manhã com você.
O seu sorriso se alarga, encantada com a ideia.
Minha mãe é uma mulher solitária. Ele refugiou-se nesta mansão por anos, longe do mundo, mas saber exatamente onde ele está me dá certa tranquilidade.
Desde a morte do meu pai, algo nela mudou. Não é a mesma mulher que costumava ser.
É comum vê-la vagando por aí, confusa, desligada da realidade. Às vezes ela esquece coisas do dia, mas em outras ocasiões lembra de cada detalhe de algo que aconteceu há anos.
Deixo a escova de lado e deposito um beijo no topo da cabeça dela.
— Eu te amo, mamãe.
— E eu a você, pequeno. Ela responde.
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— Zanetti, rapaz, sente-se.
Walter Ross apenas levanta os olhos quando entro no seu escritório, o seu tom é relaxado, quase condescendente. Como se ele estivesse no controle. Como se eu fosse mais um dos seus funcionários.
Eu o desprezo com cada fibra do meu ser. Se dependesse de mim, a cabeça dele já estaria pendurada na entrada da mansão dele como um lembrete do que acontece com delatores como ele.
No seu caso, ainda não é um delator... mas sim um m*aldito chantagista.
A mansão dos Ross é o exemplo perfeito do que um oportunista pode conseguir com os contatos certos.
Não tem a elegância discreta das famílias com verdadeira linhagem, por mais que a pretenda. Está claro que Walter Ross é ambicioso e carece de escrúpulos. Ele fará o que for necessário para manter o seu status... não importa quem ele tenha que pisar no processo.
Apoio-me no encosto da cadeira sem sentar.
— Pare de enrolar. Você me arrastou para esta m*aldita cena só para se gabar de que vai casar a sua filha de dezoito anos com um homem dez anos mais velho que não tem nenhum interesse nessa criança. Respiro fundo, e não consigo evitar tensionar a mandíbula. — Você se orgulha de usá-la como moeda de troca? Como se não fosse mais do que um m*aldito pedaço de carne.
Walter ri entre dentes. Nada do que digo parece ofendê-lo.
— Agora você reclama, mas quando vir a sua futura esposa vai me agradecer. Ele diz com arrogância, acomodando-se na sua poltrona. — É uma mulher linda. Ele herdou isso da mãe e, aparentemente, ela gosta de você.
Walter encolhe os ombros.
— Não me interessa. Nunca fez e nunca fará. O meu tom é puro desprezo. — Mas espero que pelo menos cumpra a sua palavra.
Walter balança a cabeça e solta um bufo, como se a minha falta de entusiasmo o divertisse.
— Farei isso. Ele solta. — Guardarei o segredo que tanto tenta esconder.
Inclina-se sobre a mesa, os seus olhos brilham com malícia antes de fazer a sua verdadeira oferta.
— Embora, se você levasse este casamento a sério e me desse os netos que desejo, eu lhe entregaria todas as informações que você procura de bandeja.
Solto uma gargalhada baixa e seca.
— Não preciso disso.
Inclino-me para ele, baixando a voz até transformá-la numa ameaça velada.
— Vou encontrar uma maneira de fazer isso por conta própria, não pretendo ceder a todas as suas m*alditas exigências.
Ele encolhe os ombros.
— Como quiser. Só tente se comportar na frente dos convidados e não esgote a minha paciência.
Não respondo e me limito a esboçar um sorriso sem graça.
Ele se levanta e saímos juntos do escritório, percorrendo em silêncio tenso um longo corredor que leva à sala de jantar. As vozes dos convidados enchem o espaço, então respiro fundo e ajeito o meu paletó.
Walter se adianta e se aproxima da esposa, que conversa animadamente com uma das suas convidadas.
Ao seu lado, seu filho mais velho, o futuro herdeiro da RossProtect Services, permanece de pé, completamente absorto na tela do telefone, alheio a tudo o que acontece ao seu redor.
Um tipo estranho.
É apenas um par de anos mais novo do que eu, mas ouvi dizer que é um prodígio em assuntos relacionados à tecnologia.
Do outro lado, uma jovem chama minha atenção.
Alice Ross.
Não preciso que ninguém me confirme isso. Eu sei assim que a vejo.
Seu pai sussurra algo no seu ouvido e, assim que ela levanta o olhar, os seus grandes olhos arregalam-se de surpresa.
Tem olhos de gazela... doces, inocentes... ingênuos demais. Como não seriam, se é apenas uma cria?
Walter a pega pela mão e a guia até mim.
Mantenho a minha expressão séria, sem deixar transparecer o quanto desprezo sinto por esta situação.
— O-olá, boa noite.
A sua voz é suave quando estende a mão para mim.
Eu aceito.
É pequena, acolhedora. Demasiado delicada.
— É um prazer conhecê-lo, Brando.
Noto o rubor nas suas bochechas, o jeito como ela brinca com uma mecha de cabelo. Parece nervosa, mas há um sorriso agradável nos seus lábios.
— Boa noite, Alice. O prazer é meu.
A minha resposta é mecânica, formal, dita para os ouvidos de quem nos observa atentamente.
Não há mais de uma dúzia de pessoas na sala, mas parece que centenas de pares de olhos estão sobre mim.
Walter sorri satisfeito.
— Deixo-os sozinhos para que conversem e se conheçam melhor.
E ele vai embora, distraído com outros convidados.
Alice baixa o olhar por um instante e morde o lábio inferior. Tudo nela grita inocência.
Observo-a, mais por curiosidade do que por interesse, e não consigo evitar notar o quão diferente ela é das mulheres que conheço. O seu vestido azul-claro realça a sua pele clara, quase radiante sob as luzes do salão. Parece saída de outro mundo, um mundo limpo demais para o meu.
Prefiro mulheres maduras, sensuais e seguras de si, daquelas que não precisam ser terminadas de criar.
Alice é o oposto disso.
— Isso é estranho... Ela murmura, quase como um segredo.
Levanta o olhar para encontrar o meu, a diferença de altura a obriga a fazê-lo. E assim que os nossos olhos se cruzam, ela cora imediatamente, quase violentamente.
Faço o meu melhor para não rir da sua ingenuidade.
— Pedi ao papai que nos permitisse sair alguma vez para nos conhecermos antes deste jantar de noivado, mas ele me disse que você é um homem muito ocupado.
Eu sou.
Mas a verdade é que recusei cada uma das suas ofertas.
Não queria conhecê-la antes desta noite.