E, vendo-a agora, sei exatamente por quê.
Sobre o que dia*bos eu poderia falar com alguém como ela?
— Sinto muito, costumo ter uma agenda bastante ocupada.
— Compreendo, compreendo… Ela concorda com energia, como se estivesse se agarrando à possibilidade de continuar a conversa.— Mas não importa, poderíamos sair amanhã. Não sei... ao cinema.
Aperto a mandíbula e engulo o comentário mordaz que está prestes a sair dos meus lábios.
Ao cinema?
E o que veríamos? Algum filme da Disney?
— Sinto muito, tenho uma reunião importante.
A sua emoção se apaga em questão de segundos.
O brilho nos lábios dela está prestes a desaparecer completamente de tanto que ela os morde, respira fundo e abaixa o olhar.
Ouço-a murmurar um: "Compreendo", e quando parece querer dizer mais alguma coisa, uma mão pousa no meu ombro, desviando a minha atenção.
Viro-me e encontro um antigo sócio que não via há muito tempo. Um homem um par de anos mais velho que eu, brincalhão, sempre com um sorriso maroto no rosto.
— Olá, Brando, quanto tempo. Ele solta uma gargalhada antes de dar um tapinha no meu ombro. — Quando recebi o convite, tive que vir para ver isso com os meus próprios olhos.
Respondo com uma risada despreocupada. As interações sociais são o meu forte, quando não me obrigam a tê-las sob a mira de uma arma.
— Você vai mesmo se casar? Homem! Quantos corações partidos você vai deixar para trás quando souberem.
— Bom, você já sabe como é. Dou de ombros. — Quando me apresentam um bom negócio, eu o aceito.
Meu sócio olha por cima do meu ombro e nota Alice, quieta, com uma expressão difícil de ler.
— Oh, espere, estou sendo m*al-educado. Aproxima-se e estende a mão com confiança. — Muito prazer, encanto. Olha como você cresceu, está linda. A última vez que te vi, te faltavam um par de dentes de leite, mas agora, uau, olha para você.
O seu comentário me arranca uma gargalhada sincera, mas Alice não acha a menor graça.
Os seus lábios se apertam numa linha tensa antes que ele se vire e vá embora sem dizer uma palavra.
Meu sócio a segue com o olhar antes de soltar um assobio baixo.
— Oh… Ela ficou bravo comigo?
Dou de ombros e, sem pensar muito, pego um copo de uísque da bandeja de um garçom que passa por mim.
— Não, ela só está de mau-humor porque já passou da hora de dormir.
Ele solta uma gargalhada estrondosa, batendo no meu ombro com cumplicidade.
— Você é um m*aldito.
Sorrio com desinteresse, mas então ele solta, com tom lascivo.
— Já vai ver, num par de anos ela com certeza vai ficar ótima, por enquanto, você só aproveite essa quilometragem zero.
O meu sorriso se apaga instantaneamente.
Não sei por que, mas o comentário me irrita mais do que deveria. Disfarço levando o copo aos lábios, deixando que o uísque queime a minha garganta em vez de responder.
Passado...
—ALICE—
— Não adianta... aquela mulher era muito bonita e se*xy... não era como eu.
Me olho pela enésima vez no espelho de corpo inteiro do meu quarto e suspiro pesadamente.
Coloquei a lingerie mais se*xy que tenho no meu guarda-roupa e, em vez de me sentir atraente e confiante, só acabo mais frustrada e triste porque o meu corpo não tem curvas.
Finalmente, assinto com resignação.
— Agora entendo por que ele a prefere a ela... porque nem sequer olha para mim. Ele só zomba de mim e me trata como se eu fosse uma criança...
A imagem daquela mulher não para de me atormentar cada vez que fecho os olhos.
A forma como ela me olhou do limiar da porta do meu noivo, a segurança na sua voz, o sorriso satisfeito nos seus lábios... como se já tivesse ganho.
Ela irradiava sensualidade sem esforço.
E estava claro que eles tinham acabado de tra*nsar.
Me pergunto se ele a ama.
Espero que não.
Mas o nó na minha garganta me diz que, mesmo que a resposta fosse não, isso não mudaria nada.
Não consigo parar de sentir ciúmes.
Coloco o roupão e me jogo na cama, pegando o meu celular quase por inércia.
A tentação de ligar para ele e perguntar como foi o dia dele é absurda... mas está lá.
Não. Não vou fazer algo assim.
Até eu sei que seria patético procurá-lo depois da forma como ele me expulsou do apartamento dele.
Entro no grupo de chat com as minhas melhores amigas, Lily e Rose, justamente quando elas estão discutindo o que vestir para a famosa festa anual da fraternidade para a qual as convidaram... e na qual insistem em me arrastar com elas.
💬 Lily: Você deveria vir com a gente, @Alice!
💬 Rose: Siiii, sei que você disse que não gosta da ideia de estar cercada por um monte de estranhos que vão beber até explodir, mas nós vamos estar lá.
💬 Lily: É o seu primeiro ano, @Alice, você realmente quer ficar trancada em casa e perder a oportunidade de viver novas experiências?
💬 Rose: Exato! Além disso, nunca se sabe... talvez esta seja a noite em que você conhecerá o amor da sua vida. 😏💕
💬 Lily: Ou pelo menos, ao amor de uma noite. 😂
💬 Rose: Lily! 😳
💬 Lily: O quê? Só digo que você deveria se divertir um pouco. 😉 Logo ela vai se casar com um senhor todo chato, a beleza não tira o amargurado e cara de limão.
Sorrio enquanto leio as suas mensagens. Conheço-as o suficiente para saber que não vão desistir até que eu diga que sim.
💬 Vou pensar nisso...
Essa foi minha resposta por enquanto. Justo agora tenho outras questões em mente.
Umas batidas suaves soam na porta do meu quarto. Sei exatamente quem é.
— Entra, mamãe.
A porta abre com a mesma delicadeza com que ele tocou. Entra com o seu pijama de seda e os óculos de leitura repousando na ponta do nariz.
Mamãe sempre parece calma e serena como uma brisa de verão, às vezes invejo a sua paz mental.
— Olá, filha, como você está se sentindo? Ontem à noite te vi um pouco chateada e preferi esperar você se acalmar antes de te perguntar o que aconteceu.
Faz uma pausa, observando-me com aquele olhar analítico que sempre parece ver tudo.
— Seu irmão não quis me dizer nada, você sabe como ele é.
Sento-me na cama e baixo o olhar. Se há alguém que poderia entender o que sinto, é ela.
No fim das contas, o casamento dela com o papai também foi arranjado pelos meus avós.
Respiro fundo antes de falar.
— Mamãe... ontem à noite fui ao apartamento do Brando.
Ela não diz nada, apenas espera com paciência, como se já soubesse o que vem.
— Levei um bolo que fiz para ele, mas uma mulher abriu a porta para mim...
A sua expressão não muda. Nem um piscar de olhos, nem um gesto de surpresa. Apenas assente levemente, como se já esperasse por isso.
— Acho que aquela mulher é sua namorada. Confesso com a voz embargada.
Surpreende-me ouvi-la soltar uma risada fraca.
— Não, meu amor. Ela sacode a cabeça com indulgência. — Brando não tem namorada. Você é a noiva dele.
Cruza as pernas com elegância e ajeita os óculos no nariz antes de continuar.
— A mulher que você viu é, possivelmente, uma das suas amantes.
O meu estômago está revirando.
— Ele é um homem atraente e, até agora, continua solteiro. Não deveria te surpreender que ele busque satisfazer as suas necessidades com mulheres como ela.
Não deveria me surpreender, diz ela.
Mas fico surpresa. E dói em mim.
A minha mandíbula se tensiona, e quando falo, a minha voz soa mais dura do que eu pretendia.
— Mas ele tem um compromisso comigo.
— Sim, e ele cumprirá. O seu tom é firme, como se a conversa não tivesse espaço para debates. — Isso é o que importa.
— Ele não deveria estar com outras mulheres. Insisto.
Minha mãe suspira com paciência, como quando eu era pequena e não entendia como se resolviam as somas e as subtrações das minhas tarefas.
Ela se aproxima e pega as minhas mãos entre as suas, quentes e macias.
— Ah, filha... você ainda é muito jovem para entender.
Não gosto de como isso soa.
— Você nasceu para ser a senhora de um lar.
A suas palavras carregam um peso que se instala no meu peito, fazendo-o sentir mais pesado.
— Te educamos bem para que você tenha um bom marido e uma linda família.
O seu olhar crava-se no meu com uma segurança inabalável.
— Não deixe que um par de mulheres, cujo único objetivo neste mundo é ser o passatempo de um homem, te façam sentir menos.
Faz uma pausa e me dedica um sorriso cheio de ternura.
Leva uma mão ao meu cabelo, afastando uma mecha com suavidade antes de falar.
— Elas são descartáveis. Você não.
— Mas...
— Você sabia que seu pai era um mulherengo no início do nosso casamento?
Minha mãe interrompe a minha objeção com uma pergunta que, mais do que uma confissão, parece uma lição.
— Bem, na verdade, sempre foi.
Ela me observa com serenidade, eu apenas engulo em seco com força.
— Mas isso mudou graças à minha perseverança e esforço.
Suspira orgulhosa.
— Propus-me conquistar o coração dele. E embora não tenha sido fácil, aos poucos, ele foi deixando para trás todas aquelas mulheres que não significavam nada na sua vida.
A sua voz é firme, convicta, como se o que diz fosse a única maneira pela qual as coisas podem funcionar.
— Muitas quiseram me confrontar, me fazer sentir menos, mas ele sempre as colocou no seu lugar. Até que, finalmente, nasceu Bastian.
Ela faz uma pausa e um sorriso se desenha no seu rosto.
— Quando isso aconteceu, tudo mudou.
Coloca uma mão sobre a barriga, como se lembrasse com nostalgia daquela época.
— Seu pai ficou fascinado com a ideia de ser pai, com o peso do sobrenome dele e o legado que ele poderia construir.
Suspira e inclina-se levemente para mim, como se estivesse compartilhando um segredo.
— Hoje em dia você já sabe como é seu pai. Ele é um bom homem.
Sorri com satisfação.
— Vive e respira a empresa, suas finanças... e quer o melhor para nós.
As suas palavras deveriam me confortar, mas não o fazem.
Não quando, há apenas um par de anos, mamãe saiu de casa ao descobrir que papai tinha um filho não reconhecido com uma das suas antigas secretárias.
No final, eles "resolveram" da única forma que ele sabe fazer: ne*gando tudo.
Papai nunca aceitou reconhecer o garoto, e assim, o problema simplesmente... desapareceu.
Ela era apenas uma adolescente, da minha idade.
Hoje em dia, ninguém sabe nada sobre ela.
— Lutei demais por esta família, por você e por seu irmão. Vocês são o mais importante. A sua voz está carregada de convicção. — Mas ninguém é perfeito, Alice. Seu pai cometeu muitos erros, mas eu nunca permiti que o meu orgulho ou o meu egoísmo os afetasse.
Talvez na geração dela as coisas funcionassem assim, mas não consigo evitar pensar que ela viveu uma tortura e agora tem estresse pós-traumático.
Ainda assim, não a contradigo.
— Prometa-me que você se comportará à altura da sua educação. Já verá como num futuro não muito distante Brando a respeitará como sua esposa.
Sento-me quietamente.
— E quanto à minha carreira universitária depois que eu me casar?
— Isso ele decidirá. Ela responde. — Talvez ele te deixe continuar estudando, não sei, filha, você só procure ser uma boa esposa.
— Mas, eu...
— E os seus bebês? Questiona-me, com um tom de raiva na voz. — Como você pretende cuidar deles se decidir voltar a estudar? Não precisa fazer isso, o Brando vai te dar uma vida de rainha.
Suspiro fundo e assinto com um sorriso forçado. É inútil ter essa discussão com ela.
— Obrigado, mãe, acho que já vou dormir... estou morrendo de sono.
Ela assente e se levanta.
— Claro, querida, descanse, e não se preocupe mais, tudo vai dar certo.
— Sim... com certeza.
Assim que a mamãe sai do quarto, pego o celular e, sem pensar muito, escrevo uma mensagem que sei que deixará Lily e Rose felizes.
💬 @Lily @Rose Nos vemos amanhã à noite, meninas. Irei com vocês, então preciso que venham na minha casa e digam à mamãe que teremos uma festa do pijama.
Assim que o envio, a reação é imediata.
💬 Rose: Siiiiiiiiii!! O m*al triunfou! 😈🎉
💬 Lily: Conte comigo. Amanhã será a sua noite. 😏💕 Chega de ser boazinha 😈
Sorrio sem poder evitar. Talvez essa não seja uma ideia tão ru*im afinal, logo me casarei e não poderei mais sair com minhas amigas sem a permissão do Brando.
É hora de aceitar meu destino e aproveitar cada segundo da liberdade que ainda me resta.