Passado...
—ALICE—
— Acho que não é uma boa ideia estarmos aqui.
— Do que você está falando? Lily revira os olhos e joga o cabelo loiro para trás com um movimento elegantemente ensaiado. — O objetivo de tudo isso é dar as boas-vindas aos novatos, como se esta festa fosse feita para nós.
Rose, com seu cabelo tingido de um rosa vibrante que faz jus ao seu nome, sorri de lado.
— Olha! Eles têm um DJ. Ela aponta para a entrada, onde um grupo de rapazes dança em torno de uma mesa de som com luzes piscando.
Suspiro, cruzando os braços enquanto observo o panorama com desconfiança.
— Sim, e também há muitos barris de cerveja, um monte de bêbados gritando e fazendo escândalo na via pública.
Ambas ignoram meu comentário.
Nós três nos encontramos em frente à casa da fraternidade que organizou a festa. E, m*al dou mais um passo, o cheiro me atinge em cheio.
— Testosterona, álcool e maconha. Genial... A combinação perfeita para o desastre.
— Pare de ser tão puritana, de que te serviu toda essa me*rda? Lily solta, com mais rudeza do que provavelmente pretendia. — Em breve você se casará com um homem que nem te dá bola, que com certeza nem vai te deixar terminar a faculdade e, antes que você perceba, estará parindo bebês como uma coelha desgraçada.
Resmunga, cruzando os braços com frustração.
—Lily... Rose a repreende com um olhar de advertência, mas eu apenas abaixo a cabeça.
Não tenho nada a dizer.
Porque ela tem razão.
Lily suspira e seu tom abaixa um pouco, mas a amargura ainda está lá.
— Sinto muito, Alice, sinto muito mesmo. Mas toda vez que penso nesse assunto e que não podemos fazer nada por você, me dá raiva, ok? É triste.
Eu sei. Sei que ambas sentem pena de mim.
Que pena, porque, enquanto elas terminarão seus cursos juntas e seguirão seu caminho sem dar satisfações a ninguém, eu estarei presa em uma gaiola de ouro.
Lily me olha com algo parecido com desespero, como se realmente desejasse me sacudir até me fazer reagir.
— E o pior é que sei que você gosta do seu noivo.
Isso me deixa tensa.
— Se ele fosse um velho barrigudo com cara de pervertido, com certeza você já teria fugido de casa para não se casar, mas ele não é, e isso o torna pior.
—Não é assim... eu... realmente amo o Brando.
— Alice... você não está apaixonada. Você só se sente atraída por ele, e isso é normal. Diz Lily com convicção, levantando meu queixo com o dedo indicador.
Antes que eu possa responder, ela vira meu rosto para um grupo de garotos sem camisa que jogam futebol americano no jardim em plena noite.
Não parecem estar com frio.
—Olhe ao seu redor.
Seu tom é quase zombeteiro, mas sei que ela está tentando me fazer entrar em razão.
— Talvez eles não tenham a postura madura do seu noivo e sejam um bando de imbecis lascivos, mas pelo menos são opções. Há mais peixes no lago. Não deixe que esse amor à primeira vista o condene a uma vida miserável.
Seu olhar fica sério.
— Ainda dá tempo de você desistir. Ela acrescenta.
Afasto-me do dedo dela com um movimento seco e n*ego com a cabeça.
— Vamos entrar. Ou vão ficar aqui a noite toda? Eu murmurei, desviando do assunto.
Não quero ouvir um sermão.
Já tive o suficiente com o que a mamãe me deu sobre como ser uma boa esposa...
Desde o momento em que cruzamos a porta, tudo parece pior.
Lily e Rose se adaptam ao ambiente com facilidade, como se fossem mais um par de peixes neste aquário lotado de gente suada e ruídos estridentes.
As garotas, também universitárias, embora talvez de anos mais avançados, dançam sensualmente para um público eufórico, provavelmente estão muito drogadas. Riem, flertam e desfrutam da companhia de rapazes que parecem ansiosos por algo mais do que um baile.
Em questão de minutos, minhas amigas esquecem nossa discussão e começam a socializar.
Eu, por outro lado, me esgueiro em busca de um canto mais tranquilo.
Pego uma lata de cerveja de uma mesa cheia delas e passo meia hora vagando pela casa, tomando pequenos goles enquanto observo tudo das sombras.
A festa é frenética.
Demais.
Mas, felizmente, isso também me torna invisível.
Até que sinto um toque no meu ombro.
Viro-me depressa e encontro um rapaz loiro, alto e de olhos escuros. A pouca luz do local torna quase impossível distingui-lo dos outros.
— Olá, qual é o seu nome? Pergunta, sua voz soa confiante.
O volume ensurdecedor da música me dá a desculpa perfeita para fingir que não ouvi. Sento-me com indiferença, esperando que ele desista.
Mas não o faz.
Em vez disso, ele se inclina para o meu ouvido, aproximando-se mais do que o necessário, repetindo a pergunta em um tom baixo e arrastado. O calor do seu hálito contra a minha pele faz-me estremecer, e não de uma forma agradável.
Afasto-me, dando um passo para o lado, e respondo secamente.
— Alice.
—Muito prazer, Alice. Seu sorriso se alarga. — Sou Rick. É a primeira vez que te vejo por aqui. Você é do primeiro ano?
Cocordo sem vontade.
— Eu sabia. Seu tom soa satisfeito demais. — Se eu tivesse te visto antes, definitivamente me lembraria.
Seu olhar é intenso, insistente, tanto que consigo sentir queimar minha pele.
— Você é muito bonita.
Desvio o olhar, desconfortável.
— Obrigado. Sinto muito, mas preciso ir com minhas amigas.
— Quem? Elas?
Sigo a direção que ele aponta com sua garrafa de cerveja e vejo Lily e Rose.
O sangue sobe-me à cara.
Ambas estão muito ocupadas para notar o meu desconforto.
Rose está contra a parede, presa nos braços de um garoto que ela definitivamente acabou de conhecer. Lily, por outro lado, está sentada em cima de um cara no sofá, beijando-o como se sua vida dependesse disso.
Ne*go para mim mesma, desejando ser invisível.
Rick solta uma gargalhada.
— Deixa-as, elas estão se divertindo.
A definição de diversão dele não coincide com a minha.
Termino o último gole da minha lata e respiro fundo. É hora de recuperar um pouco da dignidade das minhas amigas... e de quebra, a minha.
Olho ao meu redor. Todos esses garotos estão nos últimos anos de seus cursos, à beira da formatura, agarrando-se aos seus últimos dias de libertinagem universitária.
Só querem tra*nsar o máximo que puderem antes que a vida adulta os alcance.
E Lily e Rose não merecem ser apenas mais um número em suas listas, mais uma lembrança borrada em suas sujas anedotas de fraternidade.
Aproximo-me de Rose, que ri bobamente nos braços de um sujeito que parece incapaz de respeitar o espaço pessoal de uma pessoa. Ele me olha com fastio quando eu interrompo.
— Ei, Rose, acho que quero outra bebida, você não quer dançar?
Ela m*l olha para mim, muito entretida com seu novo amiguinho.
— Não, mais tarde. Ela solta.
—Por favor... viemos juntas por alguma coisa. Insisto.
— Aichhh, Alice… está bem.
Ela se vira para o garoto que ainda a segura com uma mão na cintura.
— Nos vemos depois.
O cara me fuzila com o olhar quando ela se afasta, mas eu o ignoro.
Uma a menos.
Agora, vou buscar a Lily.